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quinta-feira, maio 28, 2020

Por vezes


(Gimonde, Bragança)
Por vezes
Por vezes, ignoramos o leito do rio,
ignoramos que há barcos que se perdem
na voragem dos dias.

Buscamos, pela tarde,a sombra das árvores,
o canto primordial de um regato.
Ansiamos por um canto de ave,
pela suave ondulação de uma seara.
Mas vê como, subitamente,
a luz afrouxa com a passagem
das horas.
Repara como a margem
se fez lamacenta,
como é maior agora
a distância entre os meus dedos
e o teu cabelo.
Em breve, nada sobrará
que possa ser, entre nós,
dádiva...

terça-feira, maio 19, 2020

E, de súbito


(Jardins da Gulbenkian, 2014)
E, de súbito, há essa luz
que se espalha sobre a tarde,
essa luz invasora
que traz o passado pela mão,
que o arrasta,
e mo devolve em fragmentos,
como um tempo já sem préstimo.

E, de súbito, é verão na primavera…
Vozes antigas ecoam na minha cabeça
como um mantra,
como uma ladainha,
uma canção infantil.

Vejo-me  menina,
alma sem mácula e sem mágoas,
corpo pequeno que se enrola
nas palavras alheias,
pronunciadas sem pressa.

deep, 15 de Maio de 2014

Em repetição...

quarta-feira, dezembro 18, 2019

Memórias

Porque o Natal também se faz de boas memórias... 

Tu ignoras esse Natal
que persiste na minha memória
e me aconchega.
Falo desse Natal que é ainda o meu avô
a abrir a porta que dava para o cortinheiro
às manhãs frias.
Ou um santo António
a assomar numa nota de vinte escudos,
a cor e o aroma das tangerinas
e das laranjas, que se ofertavam ao menino.
O Natal em que a roupa dormia, gelada,
no estendal da varanda,
a chama e o calor da fogueira que procurávamos
depois da missa do galo, quando as luzes da aldeia
se apagavam.
Os almanaques do tio, o arroz doce da tia,
que repousava na sala que só se abria
para as visitas em dias de festa.
Foi num desses natais
que recebi o meu primeiro relógio.
A partir de então,
aprendi a voracidade das horas,
o efeito corruptor do tempo,
deep, dezembro de 2013

terça-feira, novembro 12, 2019

Que deste Outono

Que deste outono,
Que se verte pelo chão
Em oiro e sangue,
Saiba colher o doce fruto
E agradecer o amor da terra
Que a meus pés se prostra.

Que nestes dias de sol morno
E luz macia
Não perca o trilho

Que há-de levar-me ao sul,
Ao mais íntimo de mim.

Que saiba perdoar o vento
Que, de mansinho, me despenteia
Os sonhos...

Deep, Setembro de 2012






terça-feira, maio 21, 2019

Pé ante pé

Regresso, pé ante pé, um mês e alguns dias depois de ter passado a linha do meio século. Deste lado, nada de novo, só a rotina a devorar-me as horas, o ânimo e um resto de imaginação.

Do baú, resgato um tosco devaneio, que suponho ser de 2014:

Não sei de que água é feito esse mar
que atravessa os meus sentidos
E que não sabe a sal.
Não sei em que distância me perdi,
Por que sendas e escarpas
Deixei que o corpo se embrenhasse
E perdesse a noção das horas.
É este o meu ofício: nada saber.

sexta-feira, fevereiro 15, 2019

Sobre amizade e afectos

Ontem, não foi só um dia para os namorados. Também foi o dia, como devem sê-lo todos, de celebrar os amigos e os afetos.

Para todos quantos são amigos, virtuais ou reais, um "devaneio" sobre o valor da amizade, aqui em repetição.



Os amigos estendem a toalha
sobre a mesa e, sobre esta,
pousam, no lugar dos copos,
no lugar do pão e do vinho, o coração.
Para que te sirvas de afectos.

São ancoradouro para barcos cansados,
os amigos.
Depósitos de mágoas  - os amigos.
São eternos adolescentes rebeldes – os amigos -,
que ouvem, nostálgicos, os álbuns dos Pink Floyd
e cantam repetidamente Wish you were here,


esquecidos da passagem do tempo e das modas.

deep, Julho de 2017

sábado, dezembro 01, 2018

Quotidiana e tributável

Sinto-me quotidiana e tributável,
(Bendito Álvaro, que mandou para o Diabo
as convenções!)
entregue à prosa do fogão, das panelas,
dos seguros, dos impostos e dos papéis.
Só a solidão parece aventurar-se
em voos poéticos mais ousados
– acabei de vê-la a trepar paredes.
 deep, esta tarde

segunda-feira, setembro 03, 2018

Setembro

[...]

Tornam-nos a vida mais breve
essas horas curtas de Setembro,
em que reaprendemos o caminho
dos campos,
a carícia das mãos sobre as uvas,
o doce sumo dos frutos.

[...]

Excerto de um "devaneio" pretensamente poético, de Setembro de 2013

terça-feira, julho 31, 2018

Do baú


Falas-me do sol
e da areia morna
de outros poentes.

Em troca, conto-te
o frio das noites, 
o cinzento das horas
que se agarrou a mim
como uma pele nova.

Peço-te, com os olhos
e com o que silencio,
que me leves contigo
a ver os poentes em brasa
de que perdi a memória.

Mas tu ignoras os meus gritos,
tu preferes não ver
o gume em que caminho
nas horas de desespero...

Tu nunca ficas:
o teu coração precisa de luz...

Tu nunca ficas: os teus braços
anseiam ser asas...

Tu nunca olhas para trás: o teu mundo
são o mar e a vastidão
de montanhas e de desejos...

deep, Janeiro de 2013

terça-feira, julho 10, 2018

Não sei

Um mero devaneio, sem pretensões poéticas...




Não sei aproveitar o tempo
nem os meus olhos aproveitam
a cor viva das sardinheiras.
Quando as olho as flores estão secas
a pedir tesoura.
O relógio exibe os cortes
que a tesoura do deus Cronos operou
nos meus dias
cada vez mais minguados.



deep, há minutos

sexta-feira, junho 15, 2018

Waiting for the time to fly


Duy Huynh, "Waitting for the time to fly"

Espero pelo tempo
em que possa voar.

Espero pelo tempo
em que a cinza 
dê, de novo, lugar à chama.

Aguardo, de olhos fixos
no relógio inerte,
o momento em que 
nos meus braços
se desenhem asas.

Pouco sei do Sul
e do voo das aves,
da dureza das rochas.
Sonho-me, porém, águia
a medir distâncias.

Deep, 27 de Abril de 2015

sexta-feira, junho 08, 2018

Do baú

De novo, esta angústia
a espalhar cinzentos opacos
sobre os meus dias.

De novo, o precipício,
a mágoa...
De novo, as asas presas
ao chão.
De novo, o silêncio...
De novo, a névoa, o frio
e o coração a sonhar
agasalho.
De novo, o espelho por inimigo
e a alma a despenhar-se
no vazio.
De novo, fantasmas a escorrer, viscosos,
pelas paredes,
a prender-me os braços,
a roubar-me a luz.
De novo, nada de novo:
a tua eterna ausência,
o meu corpo aberto em feridas,
a palavra amor a escapar-me
do alcance dos lábios.

deep

sexta-feira, maio 25, 2018

Balada da chuva



Com alterações e supressões...


Cai, chuva, cai…
Cai e acalma
o pó nos caminhos

Cai,
Impiedosa,
Cai,
Clemente
Cai,
Misericordiosa.

Cai, chuva, cai…
Verte-te inteira
Sobre os campos sequiosos.

Cai, chuva, cai…
Faz ganir de dor
O metal de varandas
E caleiras.

Vem, chuva, vem…
Escorre de mansinho
Pela vidraça,
Sobre as árvores do quintal.

Vem…
E sê música de embalar.

deep, maio de 2017

segunda-feira, abril 30, 2018

Como as árvores


(Duy Huynh)
Inclino-me, como as árvores,
à passagem do vento,
rendo-me aos seus doces sussurros,
sedutor incorrigível, quando a tarde declina...

Inclino-me, quando impetuoso,
rompe pelos caminhos e sibila
nas folhas.

Inclino-me, mas não parto...

Como as árvores, tenho raízes
que me prendem ao chão
e ramos no lugar dos braços.

Como elas, acolho, sem os abraçar,
os pássaros que buscam agasalho

Oiço-os cantar – e quero ser ave.
Vejo-os voar – e quero, no lugar dos ramos,
no lugar dos braços, ter asas.

deep, abril de 2015

Em repetição por aqui.

segunda-feira, fevereiro 19, 2018

Do baú...


Soizick Meister
Magros de sentimentos
Arrastamo-nos por dias
De modorra e de silêncio.

Buscamos, na luz opaca,
Agasalho para um coração
exilado de abraços e de ternura.

Procuramos, na monótona cor,
a flor rubra, o sopro
que nos falha, a voz
que em nós finda.

Deslizamos, sonâmbulos,
pela berma do que fomos,
onde não restam seiva ou sangue,
onde já não pousam cantos
nem voos de aves.

Ali, onde as sementes
se esqueceram
de amadurecer flores.
Ali, onde nos sobram horas
e braços
para tão pouca vida.

deep, Abril de 2013

segunda-feira, fevereiro 05, 2018

Um café "solo"


Um café. Quente, escuro e aromático,
por favor.
Um café "solo", como convém à minha 
solidão crónica.
Um café que possa degustar em sorvos lentos.
A acompanhar?
Nada. Um café "solo". Penso tê-lo dito
num tom audível.
Mas, desculpe, se tiver um raio de sol, agradeço.
Um desses raios de sol de Primavera arrependida,
para deglutir, com o corpo todo, de um só trago.
Um desses raios de sol que nos esvazia a alma e,
bendito seja!, nos impede de mastigar pensamentos.
É isso: um café quente, escuro e aromático, servido
com um raio de sol... ah, e se não for pedir muito,
uma cadeira, até pode ser de plástico.

deep, Maio de 2017

domingo, dezembro 03, 2017

Memórias do frio

Em repetição por aqui, porque Dezembro não é apenas o Natal e todo o consumismo inerente. Dezembro é, mais do que isso, as memórias do frio, dos gestos pequenos que enchiam o coração e das pessoas cuja presença serena nos abraçava.



Tu ignoras esse Natal
que persiste na minha memória
e me aconchega.

Falo desse Natal que é ainda o meu avô
a abriràs manhãs frias, a porta
que dava para o cortinheiro*.

Ou um santo António
a assomar numa nota de vinte escudos,
a cor e o aroma das tangerinas
e das laranjas, que se ofertavam ao menino.

O Natal em que a roupa dormia, gelada, 
no estendal da varanda,
a chama e o calor da fogueira que procurávamos
depois da missa do galo, quando as luzes da aldeia
se apagavam.

Os almanaques do tio, o arroz doce da tia,
que repousava na sala que só se abria
para as visitas em dias de festa.

Foi num desses natais
que recebi o meu primeiro relógio.

A partir de então,
aprendi a voracidade das horas, 
o efeito corruptor do tempo.

deep, Dezembro de 2013

*quintal

segunda-feira, novembro 20, 2017

Das publicações visitadas

Sós, eternamente

Estamos sós.
Não o negues.
Os amigos chegam,
ruidosos e afáveis,
com risos e migalhas de tempo.
Partilham memórias de infância,
alegrias e angústias presentes.
Ofertam fruta e compotas.
Sentam-se à nossa mesa
para brindar ao amor ou à vida.
A felicidade em fatias.
Chegada a noite, recolhem escombros
e partem.
Sós. Eternamente.

Como nós.

deep, (talvez) Setembro de 2017

Este devaneio, que publiquei aqui no dia 12, tem motivado repetidas visitas a este blogue. Curiosamente, esse post não tem um único comentário. Confesso que fico curiosa sobre os motivos, bons ou maus, que trazem pessoas aqui.

domingo, novembro 12, 2017

Fifty-fifty

Pela metade, quando muito, a fruta:
a metade de maçã, ácida e suculenta,
a metade da laranja,
que dividimos gomo a gomo,
o melão partido em talhadas generosas
nos almoços demorados de verão.
Pela metade
a gulosa fatia de um bolo,
o café bebido a meias.
A metade da cama,
a metade da mesa.
Nunca o amor, nunca a vida,
pela metade.
De ti, não quero a metade do rosto,
a metade da atenção,
a metade dos beijos,
a metade do coração,
a metade de uma canção
que me embale... pela metade.
Quero, de ti, um chocolate
partido ao meio,
fifty-fifty de prazer e sacrifício,

meio doce, meio amargo.

deep, (talvez) Agosto ou Setembro de 2017

Produção caseira

Sós, eternamente

Estamos sós.
Não o negues.
Os amigos chegam,
ruidosos e afáveis,
com risos e migalhas de tempo.
Partilham memórias de infância,
alegrias e angústias presentes.
Ofertam fruta e compotas.
Sentam-se à nossa mesa
para brindar ao amor ou à vida.
A felicidade em fatias.
Chegada a noite, recolhem escombros
e partem.
Sós. Eternamente.

Como nós.

deep, (talvez) Setembro de 2017