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segunda-feira, junho 15, 2020

Ah a frescura na face

Ah a frescura na face de não cumprir um dever!
Faltar é positivamente estar no campo!
Que refúgio o não se poder ter confiança em nós!
Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros.
Faltei a todos, com uma deliberação do desleixo,
Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que eu saberia que não vinha.
Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida.
Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação.
É tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora,
Deliberadamente à mesma hora...
Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico.
É tão engraçada esta parte assistente da vida!
Até não consigo acender o cigarro seguinte... Se é um gesto,
Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.

F. Pessoa- Álvaro de Campos (17-6-1929)

domingo, junho 14, 2020

A nuvem veio e o sol parou



A nuvem veio e o sol parou.
Foi vento ou ocasião que a trouxe?
Não sei: a luz se nos velou
Como se luz a sombra fosse.
Às vezes, quando a vida passa
Por sobre a alma que é ninguém,
A sensação torna-se baça
E pensar é não sentir bem.
Sim, é como isto: pelo céu
Vai uma nuvem destroçada
Que é véu, mau véu, ou quase véu,
E, como tudo, não é nada.

Fernando Pessoa, 1934

O poeta que faltou ontem aqui...


terça-feira, junho 09, 2020

Que pena não ser eu

Do poeta que nasceu num dia 9 de Junho(1900)
Que pena não ser eu um dos primeiros
homens a inventar as palavras,
para criar a verdade!
Encontrei-as já todas feitas
umas doces, outras amargas,
estas rudes, aquelas imperfeitas,
acasos de som
– mar de espuma de gaivotas e vagas.
Com este cheiro tão bom
a realidade.
José Gomes Ferreira

sábado, abril 25, 2020

Abril de Abril



Este ano, a Liberdade tem um novo inimigo. Um desenho recente da mana.

Era um Abril de amigo Abril de trigo
Abril de trevo e trégua e vinho e húmus
Abril de novos ritmos novos rumos.
Era um Abril comigo Abril contigo
ainda só ardor e sem ardil
Abril sem adjectivo Abril de Abril.
Era um Abril na praça Abril de massas
era um Abril na rua Abril a rodos
Abril de sol que nasce para todos.
Abril de vinho e sonho em nossas taças
era um Abril de clava Abril em acto
em mil novecentos e setenta e quatro.
Era um Abril viril Abril tão bravo
Abril de boca a abrir-se Abril palavra
esse Abril em que Abril se libertava.
Era um Abril de clava Abril de cravo
Abril de mão na mão e sem fantasmas
esse Abril em que Abril floriu nas armas.
Manuel Alegre

segunda-feira, março 23, 2020

Anoiteceu mais cedo

Anoiteceu mais cedo. À porta fechada,
preparo um roteiro de viagens.
Sublinho rotas e derrotas.
Tatuo nos pulsos uma rosa dos ventos
e gravo na mão esquerda um astrolábio.
Tenho uma ilha adiada no peito.
É a época das marés vivas. Pressinto-o,
pela intensa ondulação do meu cabelo,
antecipando a tormenta.

Graça Pires

sábado, março 21, 2020

Que não nos falte a poesia

... o a capacidade de a vermos nos pormenores.

Toda a poesia
é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.

Eugénio de Andrade, Os Sulcos da Sede

Feliz dia da poesia!

quinta-feira, fevereiro 13, 2020

No ponto onde o silêncio e a solidão


No ponto onde o silêncio e a solidão
Se cruzam com a noite e com o frio,
Esperei como quem espera em vão,
Tão nítido e preciso era o vazio.
Sophia de M. Breyner Andresen, Obra Poética

sábado, dezembro 07, 2019

Ecce homo

Desbaratamos deuses, procurando
Um que nos satisfaça ou justifique.
Desbaratamos esperança, imaginando
Uma causa maior que nos explique.

Pensando nos secamos e perdemos
Esta força selvagem e secreta,
Esta semente agreste que trazemos
E gera heróis e homens e poetas.

Pois Deuses somos nós. Deuses do fogo
Malhando-nos a carne, até que em brasa
Nossos sexos furiosos se confundam,

Nossos corpos pensantes se entrelacem
E sangue, raiva, desespero ou asa,
Os filhos que tivermos forem nossos.


Do poeta José Carlos Ary dos Santos, que nasceu num dia 7 de Dezembro (1937)

sábado, outubro 19, 2019

Junto à água

Os homens temem as longas viagens
os ladrões da estrada, as hospedarias,
e temem morrer em frios leitos
e ter sepultura em terra estranha.

Por isso os seus passos os levam
de regresso a casa, às vontades da infância,
ao velho portão em ruínas, à poeira
das primeiras, das únicas lágrimas.

Quantas vezes em
desolados quartos de hotel
esperei em vão que me batesses à porta,
voz da infância, que o teu silêncio me chamasse!

E perdi-vos para sempre entre prédios altos,
sonhos de beleza, e em ruas intermináveis,
e no meio das multidões dos aeroportos.
Agora só quero dormir um sono sem olhos

e sem escuridão, sob um telhado por fim.
À minha volta estilhaça-se
o meu rosto em infinitos espelhos
e desmoronam-se os meus retratos na moldura.

Só quero um sítio onde pousar a cabeça.
Anoitece em todas as cidades do mundo,
acenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos
onde o meu coração, falando, vagueia.

Manuel António Pina, Um sítio onde pousar a cabeça

segunda-feira, setembro 16, 2019

faz-se tarde

faz-se tarde
e eu deixei de esperar-te


todos os portos se fecham sobre mim
e a floresta adensa-se

nenhuma clareira se abre à passagem dos
animais e do homem antigo

são 4 horas na manhã de todos os relógios

José Agostinho Baptista, Deste lado onde

segunda-feira, setembro 09, 2019

De paso

No es el tiempo
el que pasa.
Eres tú
que te alejas
apresuradamente
hacia la sombra,
y vas dejando caer,
como el que se despoja
de sus bienes,
todo aquello que amaste,
las horas
que te hicieron la dicha,
amigos
en quienes hubo un día
refugio tu tristeza,
sueños
inacabados.
Al final, casi
vacías las manos,
te preguntas
en qué momento
se te fue la vida,
se te sigue yendo,
como u hilo de agua
entre los dedos.
Meira Delmar (poetisa colombiana)

segunda-feira, junho 03, 2019

Não quero cantar amores

Não quero cantar amores,
Amores são passos perdidos,
São frios raios solares,
Verdes garras dos sentidos.
São cavalos corredores
Com asas de ferro e chumbo,
Caídos nas águas fundas,
não quero cantar amores.
Paraísos proibidos,
Contentamentos injustos,
Feliz adversidade,
Amores são passos perdidos.
São demências dos olhares,
Alegre festa de pranto,
São furor obediente,
São frios raios solares.
Da má sorte defendidos
Os homens de bom juízo
Têm nas mãos prodigiosas
Verdes garras dos sentidos.
Não quero cantar amores
Nem falar dos seus motivos.

Agustina Bessa-Luís


domingo, junho 02, 2019

Passamos pelas coisas sem as ver

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos, 
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

Eugénio de Andrade

Ando preguiçosa (preguiça que redunda em má educação!) para responder aos comentários.
Como desculpa, deixo um poema e uma papoila que fotografei esta manhã.)

quinta-feira, março 28, 2019

Beber horas roubadas

Chama-se amor a isto:
beber horas roubadas,
no receio constante
de que alguém as descubra
(assim se tem cadastro!);
morder com pressa
a polpa dos minutos,
sem lhes sorver o sumo,
sem lhes tirar a casca
(assim se apanham úlceras!);
ter este modo brusco
de engolir os segundos,
como se fossem cápsulas
de qualquer barbitúrico
(assim se morre às vezes!)
O culpado: este cão
que trazemos bem preso,
todo agarrado ao pulso,
e a que chamamos Tempo.
(sempre a ganir de susto.)

David Mourão-Ferreira

sábado, março 23, 2019

Não te analises

Não te analises.
Não procures no perfume das flores
a tempestades das raízes.
Nem queiras
desatar o fumo
do carvão das fogueiras.
Ama
com ossos de cinza
e cabelos de chama.
E deixa-te viver
Em rio a correr…

J. Gomes Ferreira, Poeta Militante

sábado, março 09, 2019

Aqui, o homem

Nem Baco nem meio Baco!:

Aqui é o homem,
desde as mãos ossudas e calosas,
desde o suor
ao sonho que transpõe as nebulosas.
Montes de pedra dura,
gólgotas
onde os geios são escadas!
Venham ver como sobe o desespero
e a esperança, de mãos dadas.

É o homem.
Isso é o homem.
– Nem sátiro nem fauno –
Uma vontade erguida em rubro gládio
que ganha a terra, palmo a palmo.

Vinhas que são o inferno,
o único
em que o fogo é a taça da alegria!
Venham ver um senhor
grandioso como o sol ao meio-dia.

Nem Baco nem meio Baco!:
Aqui é o homem
que nada há que não suporte
mas suporta e persiste.
Aqui é o homem até à morte.

António Cabral, Poemas Durienses

domingo, fevereiro 17, 2019

Vá, diz

Vá, diz que nunca pisaste uma formiga
sem logo sentir o luto dos remorsos subterrâneos
das cidades em crepes.

Diz que só foste infame em becos pessoais
e nunca manchaste os dedos
na recusa de desfraldar bandeiras.

Vá, convence as pedras, os bichos e as cores
de que sempre emprestaste os olhos
ao incêndio do nascer do dia
-meu triste herói-de-merda mentiroso,
tão feliz de trazer no coração a dor do mundo
(do tamanho do peso de uma flor)


José Gomes Ferreira

domingo, fevereiro 10, 2019

Outro nome


Cláudia R. Sampaio, Outro nome para a solidão

Da tão primeira nuvem que avistares


Imagem surripiada de uma página de Facebook

Daniel Faria, Poesia

Rostos

Depois de tanto tempo, experimenta
sair pé ante pé do teu inútil
abrigo subterrâneo,
afasta o medo ao menos uma vez
e sobe num rompante decidido
as escadas de incêndio do coração.

Depois de tudo isso, não desistas
de contemplar de novo o planeta,
a paisagem lunar do teu corpo,
a terra calcinada onde nasceu
a erva radioactiva a que chamavas
paixão e era só
alarme falso, anúncio colorido
onde brilhava a luz extraterrestre
dos rostos, tantos rostos onde os sinos
tocavam a rebate.

Depois de tantas fugas sem perdão,
dos truques que falhaste, dos feitiços
que já não funcionam,
o que tens a perder? Já não sabes
manejar bem o astrolábio
e a bússola não é de confiança,
mas agora não tens, nunca tiveste
qualquer alternativa.

Depois de tantos rostos,
ouves ainda a noite, coração?
Conheces a matéria de que é feito
o vento quando bate
em rostos como esses? Saberás
decifrar pela milésima vez
a razão sem razão, o sentido
que nunca fez sentido da palavra amor?

Fernando Pinto do Amaral, Poemas Escolhidos