Edward Hopper, "Automat" (1927)
O dia revelara-se
soalheiro e ameno. Contudo, a noite chegara fria e quase sem aviso, por isso Cordélia,
que passara a tarde de loja em loja, na busca ansiosa dos últimos presentes de
Natal, decidiu refugiar-se no primeiro café que encontrou. O espaço, que estava
àquela hora um pouco vazio, agradou-lhe.
Sentou-se,
pediu um café e, enquanto bebia o líquido quente e amargo, em sorvos lentos,
permaneceu quieta, absorta em pensamentos. O ambiente estava aquecido, mas o
frio entrara de tal modo em si que, durante largos minutos, não conseguiu
desfazer-se do sobretudo verde e do chapéu, nem mesmo da luva da mão esquerda.
Apesar de estar já um pouco fora de moda, gosta deste seu casaco verde de
fazenda, com gola e punhos de pêlo. Comprou-o, como o chapéu de abas que usava,
numa viagem que fez com uma amiga a Paris, há alguns anos. Trazem-lhe,
portanto, boas memórias.
Distraiu-se,
entretanto, a observar o espaço em volta. Apreciou a larga mesa circular, com
tampo branco a contrastar com o castanho muito escuro do remate e das cadeiras.
Notou, depois, que havia, no parapeito da larga janela, onde se reflectiam as
filas de luzes do tecto, uma taça de vidro e de pé alto, cheia de fruta.
Pareceu-lhe ter sido apenas esquecida. Notou, também, que, à sua esquerda, um
corrimão metálico levava ao piso inferior. «Talvez seja uma escada de acesso
aos arrumos», pensou.
Ocorreu-lhe
que poderia, como outras mulheres, forçar uma conversa com as pessoas da mesa
ao lado, sob qualquer pretexto, mas, embora fosse afável, a timidez impedia-a
de gestos ousados. Tinha amigos e família, é certo, mas, em casa, esperava-a
apenas um gato, que, em tempos fora brincalhão e arisco, e que, com a idade, se
tornara preguiçoso e bonacheirão.