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terça-feira, janeiro 31, 2017

Cadernos



Não colecciono apenas cacos e marcadores de livros, também tenho um certo fascínio por cadernos, por isso, de vez em quando, lá vem mais um ter comigo. Os dois representados nas fotos, de má qualidade (as fotos, não os cadernos!), são as últimas ofertas. Um bem haja a quem mos ofereceu!
O primeiro, adquirido no Louvre Michaelense, exibe, na capa, um desenho da minha irmã, através do qual se publicita uma das especialidades da casa, "O segredo", um bolo de chocolate. O segundo, que, na verdade, é o primeiro, porque está comigo há mais tempo, começa hoje a fazer-me companhia assídua, no registo dos meus "devaneios". Espero poder enchê-lo de sabedoria!

terça-feira, novembro 29, 2016

Exercício de escrita


Edward Hopper, "Automat" (1927)

O dia revelara-se soalheiro e ameno. Contudo, a noite chegara fria e quase sem aviso, por isso Cordélia, que passara a tarde de loja em loja, na busca ansiosa dos últimos presentes de Natal, decidiu refugiar-se no primeiro café que encontrou. O espaço, que estava àquela hora um pouco vazio, agradou-lhe.
Sentou-se, pediu um café e, enquanto bebia o líquido quente e amargo, em sorvos lentos, permaneceu quieta, absorta em pensamentos. O ambiente estava aquecido, mas o frio entrara de tal modo em si que, durante largos minutos, não conseguiu desfazer-se do sobretudo verde e do chapéu, nem mesmo da luva da mão esquerda. Apesar de estar já um pouco fora de moda, gosta deste seu casaco verde de fazenda, com gola e punhos de pêlo. Comprou-o, como o chapéu de abas que usava, numa viagem que fez com uma amiga a Paris, há alguns anos. Trazem-lhe, portanto, boas memórias.
Distraiu-se, entretanto, a observar o espaço em volta. Apreciou a larga mesa circular, com tampo branco a contrastar com o castanho muito escuro do remate e das cadeiras. Notou, depois, que havia, no parapeito da larga janela, onde se reflectiam as filas de luzes do tecto, uma taça de vidro e de pé alto, cheia de fruta. Pareceu-lhe ter sido apenas esquecida. Notou, também, que, à sua esquerda, um corrimão metálico levava ao piso inferior. «Talvez seja uma escada de acesso aos arrumos», pensou.

Ocorreu-lhe que poderia, como outras mulheres, forçar uma conversa com as pessoas da mesa ao lado, sob qualquer pretexto, mas, embora fosse afável, a timidez impedia-a de gestos ousados. Tinha amigos e família, é certo, mas, em casa, esperava-a apenas um gato, que, em tempos fora brincalhão e arisco, e que, com a idade, se tornara preguiçoso e bonacheirão.

quinta-feira, fevereiro 11, 2016

É tão difícil

Essa folha, aí. Tão branca que nem a neve é assim tão fria. Aproximo os dedos numa espécie de carícia, tentando atenuar, diluir tanta hostilidade, mas logo recuam tocados pelo medo. É tão difícil. Porque essa brancura queima, arde silenciosa num fogo que ninguém vê. Durante muito tempo só os olhos a procuram, a contemplam. Imóveis, sem afrouxarem de intensidade. Ouvem-se quase os latidos do pulso. De súbito, os dedos distendem-se, saltam; no seu movimento de falcão já não acariciam, antes rasgam, dilaceram, perseguem a presa numa luta onde não há tréguas, vão deixando na neve sinais da sua presença, ora triunfante, ora aflita, por vezes quase morta.
Eugénio de Andrade, Vertentes do Olhar

Imagem de Soizick Meister

Tem sido um braço de ferro. A folha branca tem vencido. Não tem sido fácil.

sábado, fevereiro 07, 2015

Das palavras


(Image de Soizick Meister)

Trata-me por tu, apesar dos seus quinze anos e ao contrário do que me era permitido fazer com os amigos dos meus pais ou com qualquer adulto quando tinha a idade dele. Não estranho. Conheço-o desde que nasceu, peguei nele ao colo - como atestam as fotos -, tomei conta dele inúmeras vezes, inclusive na madrugada em que a irmã nasceu. 
De vez em quando, pede-me conselhos, sobretudo acerca de fotografia, matéria em que sou uma perfeita amadora. Há dias, abordou-me no chat com outro propósito: exprimir a sua angústia que decorre da dificuldade em usar as palavras, em encontrar os termos certos para se exprimir, quer se trate de assuntos pessoais ou académicos. Do alto dos meus mais de quarenta anos, para não defraudar as suas expectativas e apaziguar a sua angústia, aventurei-me em algumas receitas óbvias: ler e escrever mais, ter paciência e acreditar que, apesar da sua tenra idade, se exprime com mais clareza e propriedade do que uma grande parte dos jovens da sua idade.
Não me atrevi a confessar-lhe que também eu experimento, não raras vezes, essa angústia, que também me sobram sentimentos e impressões  para tão escasso vocabulário, como me exaspera a falta de maleabilidade da sintaxe.

domingo, maio 11, 2014

Devanear com estilo


No último aniversário recebi, da mana, um caderno pintado e cosido à mão, uma caneta de aparo com o respectivo tinteiro. Veio tudo de Itália, de uma livraria cujo nome é "Il Papiro".
Talvez venha a usar o caderno para fazer uma compilação dos meus "devaneios poéticos", mas suspeito que vou manter intactos o tinteiro e a caneta. 

terça-feira, março 11, 2014

A escrita, Urbano e lápis-lazuli


Roubei  imagem daqui.

Gosto de escrever. Ainda que esteja longe de ser a mais destra, a mais eloquente ou a mais criativa das "escrevedoras", costumava fazê-lo com alguma regularidade. De vez em quando, ousava até uns "devaneios" que adjectivei de "poéticos". Contudo, nos últimos tempos - que me parecem longos demais -, tenho-me sentido enclausurada num virtual colete de forças, que me prende os movimentos - cerebrais, criativos, de mãos. Ocorre-me inúmeras vezes pegar na esferográfica ou acercar-me do teclado do computador, mas antes que chegue a aproximar-me quer da folha viva, quer da folha digital, sou tomada, umas vezes, de uma espécie de vazio, outras, de uma angústia sem razão que me obrigam a ficar quieta.
É óbvio que tenho escrito, mas sempre textos que respondem a solicitações profissionais.
Houve momentos em que cheguei a pôr a hipótese (um pouco exagerada, é certo) de que desaprendera de pensar, de escrever e de criar ou de que qualquer um desses actos tinha sido levado pela chuva ou empurrado pelo vento, ou que se escondera atrás de uma densa cortina de névoa que tem pesado sobre os meus dias.
Quem sabe este texto, mais um dos muitos "toscos" devaneios, não é já prenúncio de dias melhores?
Quem sabe a roupa primaveril, que elogiaram quando cheguei ao local de trabalho, o pendente de lápis-lazúli e o livro do Urbano Tavares Rodrigues (os dois últimos comprados no fim da manhã) não são sinais de que a cortina de névoa começa a dissipar-se?

O segundo parágrafo do livro do Urbano Tavares Rodrigues, que inclui duas novelas (Escutando o Rumor da Vida e Solidões em Brasa), começa assim: 

«Perdi-as a ambas pela minha hesitação e só mais tarde, ao reencontrá-las já arrumadas, mas nenhuma delas feliz, nos tornámos profundamente amigos.»

domingo, outubro 13, 2013

Quando escrever é uma necessidade

Não sei quando o acto de escrever se tornou para mim uma espécie de urgência. Talvez desde a adolescência.
Lembro-me de ter começado a escrever em cadernos, com a função de diários, nessa altura e de ter escrito, provavelmente quando frequentava o 9.º ano, uma história, que ocupou todo um caderno A5.
As primeiras tentativas de dar sentido a uns versos e de os fazer coincidir com o que sentia ocorreram, se a memória não me trai, no final do 12.º ano. Julgava-me, então, verdadeiramente apaixonada por um rapaz de bonitos olhos castanhos, com sentido de humor e popular, como amigo, entre as raparigas. Os pretensos poemas surgiram da saudade antecipada.
Já na faculdade, longe de casa, da família, entregue a um Porto que, nos primeiros dois anos, me pareceu demasiado soturno, aventurei-me novamente na escrita em verso, num tom também ele soturno, de lamento. Caí, um dia, na tentação de os mostrar a uma pessoa que também escrevia - melhor do que eu, reconheço - e que era muito importante para mim. Disse-me que lhe pareciam muito pessoais, comentário que entendi como forma de me dizer que não valia a pena continuar a escrever. Na sequência deste episódio, bloqueei, deixando, por isso, de escrever em verso - pois sempre escrevi "diários" - por largo tempo.
Hoje sei que faltam maturidade e qualidade às coisas que escrevo e que vou partilhando. Sei que os meus escritos estão longe de agradar a muita gente. A ausência de comentários aos meus "devaneios poéticos", se não diz tudo, diz muito. Ainda assim, escrevo e, mais, publico. Escrevo por necessidade - de entender aquilo que me rodeia, de me conhecer, de estabelecer pontes com os outros,... - e talvez seja também por uma qualquer espécie de necessidade que dou a conhecer aquilo que escrevo.

domingo, maio 18, 2008

"Sim, tenho"

"Está a olhar para o exterior, e isso é algo que não deveria fazer, muito especialmente agora. Ninguém pode dar-lhe conselhos ou ajudá-lo, ninguém. Só existe um meio. Entre em si mesmo. Procure as razões que o levam a escrever; verifique se elas lançam raízes nas profundezas do seu coração, pergunte e responda a si mesmo se morreria caso o impedissem de escrever. E acima de tudo: pergunte a si mesmo no mais silencioso da noite: tenho de escrever? Mergulhe nos abismos da sua essência em busca de uma resposta profunda. E caso esta seja afirmativa, se puder responder a esta pergunta séria com um simples e forte "Sim, tenho", então construa a sua vida à volta dessa necessidade (...). É então que deve aproximar-se da Natureza. Nesse momento procure dizer, como se fosse o primeiro ser humano, o que vê e sente e ama e perde."
Rainer M. Rilke
( R. M. Rilke e Virginia Woolf, Cartas a Jovens Poetas, Relógio de Água) Este livro veio, em boa hora, ter-me às mãos. Bem haja quem mo ofereceu!