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sexta-feira, fevereiro 07, 2020

Promiscuidade

Conversava, ontem à noite, com uma amiga que, não morando muito longe, vejo menos vezes do que gostaria. Dizia-me que tem, como eu, o hábito de ler vários livros ao mesmo tempo, «para os diferentes estados de alma».
Há uma outra amiga que me acusa, a brincar, de ser promiscua nesse meu hábito.
E, não tendo hoje nem tempo nem assunto, deixo-vos com alguns dos livros que actualmente me fazem companhia à cabeceira. Parte deles foram ofertas do último Natal.





sábado, abril 21, 2018

uma vez ou outra

Os amigos vêm uma vez ou outra e sentam-se, 
mostram-te como são dóceis ou difíceis, ou 
como a morte se impede, por eles, de chegar 
até ti. São uma barreira contra a morte, 

os amigos, acaricias vagamente o seu rosto 
ou a sua memória, as palavras não servem 
para isso. Por eles vem a geometria do mundo, 
neles se perde depois, nem que seja para sempre. 

Vê como eles chegam e trazem vinho, tabaco, 
vergonha, cartas antigas, recortes de jornais, 
músicas que ouvimos antes. Depois sentam-se 

chamam-te para o meio deles, emprestam-te 
uma palavra ou outra, caminham com vagar, 
riem, trazem coisas que esqueces por toda a casa. 

Francisco José Viegas, O puro e o impuro

domingo, fevereiro 28, 2016

Quando a ti, meu amor

Vi, na lateral, o título de um post do Francisco José Viegas, "Vem à Quinta-Feira" (que é, afinal, o título do último livro da Filipa Leal) e, inevitavelmente, vieram-me à cabeça as palavras de Mário de Sá-Carneiro, que são recorrentes em mim, aliás como outros versos de "Caranguejola":

Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora, no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras:
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.

O resto do texto aqui.

quarta-feira, agosto 20, 2014

Se me comovesse o amor

Se me comovesse o amor como me comove
a morte dos que amei, eu viveria feliz. Observo
as figueiras, a sombra dos muros, o jasmineiro
em que ficou gravada a tua mão, e deixo o dia

caminhar por entre veredas, caminhos perto do rio.
Se me comovessem os teus passos entre os outros,
os que se perdem nas ruas, os que abandonam
a casa e seguem o seu destino, eu saberia reonhecer

o sinal que ninguém encontra, o medo que ninguém
comove. Vejo-te regressar do deserto, atravessar
os templos, iluminar as varandas, chegar tarde.

Por isso não me procures, não me encontres,
não me deixes, não me conheças. Dá-me apenas
o pão, a palavra, as coisas possíveis. De longe.


Francisco José Viegas, Se Me Comovesse o Amor

domingo, janeiro 12, 2014

Inverno

3.

No meio do Inverno, as laranjas, num cesto de vime
sob o alpendre onde se acumulava a palha, o musgo,
o bosque inteiro, retirado ao olhar desatento.

Não tem arquitectura o tempo. Uma desordem e uma
ausência atravessam-no, dão-lhe vagar, o reflexo
dos olivais, nus, subindo desde o rio até ao largo

da aldeia. Há vasos com cinza, depois se espalhará com
a palma da mão, sobre o vento e os campos. Há-de chegar
a cidreira, a flor da cerejeira, o que muda nas árvores
os reflexos e a idade. Deixa o tempo a sua marca

e o Inverno as inscrições na pedra, ano sobre ano,
sobre a chuva fria, a respiração cautelosa do tempo.
Depois, vêm os trevos, o ruído da cancela a abrir
para o quintal, mais tarde, com a chegada dos melros.


Francisco José Viegas, Metade da vida

segunda-feira, outubro 22, 2012

Os amigos vêm uma vez ou outra

Os amigos vêm uma vez ou outra e sentam-se, 
mostram-te como são dóceis ou difíceis, ou 
como a morte se impede, por eles, de chegar 
até ti. São uma barreira contra a morte, 

os amigos, acaricias vagamente o seu rosto 
ou a sua memória, as palavras não servem 
para isso. Por eles vem a geometria do mundo, 
neles se perde depois, nem que seja para sempre. 

Vê como eles chegam e trazem vinho, tabaco, 
vergonha, cartas antigas, recortes de jornais, 
músicas que ouvimos antes. Depois sentam-se 

chamam-te para o meio deles, emprestam-te 
uma palavra ou outra, caminham com vagar, 
riem, trazem coisas que esqueces por toda a casa. 

Francisco José Viegas, O puro e o impuro