Ah a frescura na face de não cumprir um dever!
Faltar é positivamente estar no campo!
Que refúgio o não se poder ter confiança em nós!
Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros.
Faltei a todos, com uma deliberação do desleixo,
Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que eu saberia que não vinha.
Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida.
Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação.
É tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora,
Deliberadamente à mesma hora...
Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico.
É tão engraçada esta parte assistente da vida!
Até não consigo acender o cigarro seguinte... Se é um gesto,
Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.
F. Pessoa- Álvaro de Campos (17-6-1929)
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segunda-feira, junho 15, 2020
quinta-feira, outubro 26, 2017
Ah, um soneto...
Meu coração é um almirante louco
Que abandonou a profissão do mar
E que a vai relembrando pouco a pouco
Em casa a passear, a passear…
No movimento (eu mesmo me desloco
Nesta cadeira, só de o imaginar)
O mar abandonado fica em foco
Nos músculos cansados de parar.
Há saudades nas pernas e nos braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.
Mas — esta é boa! — era do coração
Que eu falava… e onde diabo estou eu agora
Com almirante em vez de sensação?...
Álvaro de Campos, Livro de Versos
sexta-feira, outubro 13, 2017
O contrário de qualquer coisa
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
F. Pessoa - A. Campos, "Lisbon Revisited" (excerto)
domingo, novembro 13, 2016
Ai, Margarida
Camané e Pessoa, uma bela conjugação. Adoro isto!
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sexta-feira, junho 24, 2016
Talvez seja...
Sem criatividade, sem tempo, sem vontade...
Há trabalhos que, ao fim de algum tempo, nos "matam"...
Só me ocorre Campos:
Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar.
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...
Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.
Bom fim-de-semana para quem (ainda) passa. :)
Há trabalhos que, ao fim de algum tempo, nos "matam"...
Só me ocorre Campos:
Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar.
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...
Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.
Bom fim-de-semana para quem (ainda) passa. :)
terça-feira, maio 03, 2016
domingo, abril 24, 2016
Grandes são os desertos
Grandes são os desertos, e
tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de
pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal
solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as
almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por
elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê
tudo, e tudo morreu.
Grandes são os desertos, minha
alma!
Grandes são os desertos.
Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião
que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas
de viagem,
Com a mala aberta esperando a
arrumação adiada,
Sentado na cadeira em
companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o
incômodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e
tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a
pena haver vida,
Arrumo melhor a mala com os
olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos
factícias (e creio que digo bem)
Acendo o cigarro para adiar a
viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.
Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser
assim.
Comprem chocolates à criança a
quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque
amanhã é infinito.
Mas tenho que arrumar mala,
Tenho por força que arrumar a
mala,
A mala.
Não posso levar as camisas na
hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido
que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho
ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não
chegou a Ápis, destino.
Tenho que arrumar a mala de
ser.
Tenho que existir a arrumar
malas.
A cinza do cigarro cai sobre a
camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que
estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a
mala,
E que os desertos são grandes
e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito
disto, mas dessa é que já me esqueci.
Ergo-me de repente todos os
Césares.
Vou definitivamente arrumar a
mala.
Arre, hei de arrumá-la e
fechá-la;
Hei de vê-la levar de aqui,
Hei de existir
independentemente dela.
Grandes são os desertos e tudo
é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com oásis
só no deserto ao lado!
Mais vale arrumar a mala.
Fim.
Álvaro de Campos
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