
Ouvi dizer que ontem se comemorou o Dia Europeu dos Vizinhos. Parece que actualmente tudo é pretexto para se festejar e, curiosa e contraditoriamente, quanto mais festejamos e mais condições exteriores criamos para convivermos, mais nos fechamos sobre nós próprios. Constroem-se edifícios cada vez maiores, habitados por um número crescente de pessoas que têm apenas em comum o facto de viveremna mesma rua, no mesmo número ou no mesmo andar. Não são vizinhos. Pelo menos não como eu os concebi durante muito tempo. Um vizinho está a caminho de ser um amigo. Pode nunca vir a sê-lo e, quando chega a sê-lo, deixamos de nos referir a ele como “o nosso vizinho”. Um vizinho é mais do que um conhecido.
Na rua onde eu vivi a maior parte da minha vida, os vizinhos tinham conversas amenas na rua a pretexto de qualquer coisa, emprestavam coisas, trocavam favores, ofereciam produtos da horta ou ficavam de regar as plantas ou de receber o correio quando alguém estava fora uns dias. Os homens, por vezes, resolviam pequenos problemas de mecânica e as mulheres de costura ou de culinária. As crianças e os jovens vizinhos, no Verão, conviviam essencialmente na rua e, nas horas em que passavam na televisão os programas de culto, reuniam-se numa das casas para os verem juntos, pois, assim, tudo ganhava outro sabor. Também é verdade que novos e velhos empreendiam, por vezes, por miudezas guerras que duravam anos.
Hoje, apesar de viver numa terra relativamente pequena e de província, já não sei o que é isso de ter vizinhos. Vejo-os muito raramente, quando acontece cruzar-me com eles nas escadas. Sei que eles continuam a habitar o mesmo prédio, até sei dizer a que horas alguns entram em casa, porque a qualidade da construção não nos garante privacidade. Sei também que continuam a habitar o mesmo espaço, porque, de vez em quando, dou com as beatas de um dos vizinhos de cima no capô do meu carro, porque “tropeço” frequentemente em papéis de rebuçados que crianças e progenitores deixam “esquecidos” nas escadas ou no átrio e porque, frequentes vezes, quando entro ou saio do prédio, encontro a porta da entrada aberta, fruto do descuido ou da pressa de alguém que saiu ou entrou antes de mim.
Neste mundo virtual, também o conceito de vizinho tem vindo a alterar-se. Há vizinhos que deixam de visitar-nos; outros que nos visitam para, num gesto simpático, retribuírem as nossas visitas; outros há que parecem incomodados quando lhes tocamos à campainha e que, abrindo-nos a porta, não nos deixam passar da entrada; alguns privam-nos de vez da sua companhia, fechando para sempre a porta. Felizmente há alguns que, com maior ou menor frequência, ainda aparecem, batem à porta, sentam-se no nosso sofá, contam-nos histórias, escutam as nossas com interesse, dão-nos conselhos e, aos pouquinhos, vão acedendo àquele lugar no nosso coração que reservamos para os amigos. É por estes que ainda vale a pena viver neste bairro.