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quinta-feira, março 22, 2018

Toma lá cinco!


Encolhes os ombros, mas o tempo passa... 
Ai, afinal, rapaz, o tempo passa! 

Um dente que estava são e agora não, 
Um cabelo que ainda ontem preto era, 
Dentro do peito um outro, sempre mais velho coração. 
E na cara uma ruga que não espera, que não espera... 

No andar de cima, uma nova criança 
Vai bater no teu crânio os pequeninos pés. 
Mas deixa lá, rapaz, tem esperança: 
Este ano talvez venhas a ser o que não és... 

Talvez sejas de enredos fácil presa, 
Eterno marido, amante de um só dia... 
Com clorofila ficam os teus dentes que é uma beleza! 
Mas não rias, rapaz, que o ano só agora principia... 

Talvez lances de amor um foguetão sincero 
Para algum coração a milhões de anos-dor 
Ou desesperado te resolvas por um mero 
Tiro na boca, mas de alcance maior... 

Grande asneira, rapaz, grande asneira seria 
Errar a vida e não errar a pontaria... 

Talvez te deixes por uma vez de fitas, 
De versos de mau hálito e mau sestro, 
E acalmes nas feias o ardor pelas bonitas 
(Como mulheres são mais fiéis, de resto...) 

Alexandre O'Neill, No Reino da Dinamarca

Convidaram-me para dizer um poema num evento que teve lugar na Biblioteca Municipal. Levei O'Neill. Não correu mal, apesar do meu nervosismo.

terça-feira, dezembro 19, 2017

A meu favor

A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer
A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

Do poeta Alexandre O'Neill, que nasceu num dia 19 de Dezembro (1924)

domingo, outubro 01, 2017

Gato


Em Barcelona, neste dia (um qualquer de Agosto de 2017) mais calma

Gato
Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pêlo, frio no olhar!
De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?
Alexandre O'Neill

segunda-feira, dezembro 19, 2016

Toma lá cinco!

Encolhes os ombros, mas o tempo passa... 
Ai, afinal, rapaz, o tempo passa! 

Um dente que estava são e agora não, 
Um cabelo que ainda ontem preto era, 
Dentro do peito um outro, sempre mais velho coração. 
E na cara uma ruga que não espera, que não espera... 

No andar de cima, uma nova criança 
Vai bater no teu crânio os pequeninos pés. 
Mas deixa lá, rapaz, tem esperança: 
Este ano talvez venhas a ser o que não és... 

Talvez sejas de enredos fácil presa, 
Eterno marido, amante de um só dia... 
Com clorofila ficam os teus dentes que é uma beleza! 
Mas não rias, rapaz, que o ano só agora principia... 

Talvez lances de amor um foguetão sincero 
Para algum coração a milhões de anos-dor 
Ou desesperado te resolvas por um mero 
Tiro na boca, mas de alcance maior... 

Grande asneira, rapaz, grande asneira seria 
Errar a vida e não errar a pontaria... 

Talvez te deixes por uma vez de fitas, 
De versos de mau hálito e mau sestro, 
E acalmes nas feias o ardor pelas bonitas 
(Como mulheres são mais fiéis, de resto...) 

Alexandre O'Neill, No Reino da Dinamarca


Do poeta que nasceu num dia 19 de Dezembro (1924).

segunda-feira, janeiro 07, 2013

A vida não é de abrolhos

A vida não é de abrolhos.
É de abr'olhos.

A vida não é de escolhos.
É de escolhas.

Por que me olhas e m'olhas?
Por que me forras a alma
com o relento de um sentimento?

Serei eu a tua escolha?

Abre os olhos e olha,
que eu já me escolhi em ti!


Alexandre O'Neill, Entre a Cortina e a Vidraça, 1972

sexta-feira, julho 13, 2012


Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

Alexandre O’Neill