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quarta-feira, outubro 05, 2016

Somos todos uns sentimentais

«Somos todos uns sentimentais e por isso demoramos no que nos dói.
Temos o choro fácil que dá ou não dá em lágrimas, guardamos as dores cheias de pormenor enquanto as felicidades ficam por ali, confusas, com algumas caras, alguns sons, incertas e vagas. (...)
Lembramos os sapatos que calçávamos quando alguém morreu, a hora da notícia, o programa que passava nesse instante e até as vergonhas que pensámos.
Folheemos as páginas do riso e pouco encontraremos, algumas frases, momentos caricatos, elementos de uma paisagem.
Pouco e mal contado, estávamos distraídos, demasiado ocupados na felicidade para lhe fazermos o retrato.
Somos tolos e sentimentais, temos arcas cheias de mágoas que não esquecemos e que abrimos a todo o momento a ver se ainda nos doem, e doem sempre.
Descuramos o arquivo do bem que apesar de tudo nos vai acontecendo, somos tolos de lágrimas.»


Nuno Camarneiro, Debaixo de algum céu, 2013

sábado, março 05, 2016

terça-feira, outubro 07, 2014

Despir o coração

Imagem "desviada" daqui.

Ante o frio,
faz com o coração

o contrário do que fazes com o corpo:

despe-o.
Quanto mais nu,
mais ele encontrará
o único agasalho possível
-um outro coração.


conselho do avô

Do livro Chuva Pasmada, de Mia Couto

Foi contigo que aprendi a despir o coração. Durante demasiado tempo, fui cobrindo o coração com camadas de roupa, permiti que se impregnasse de pó  e se cobrisse de gelo. Até que deixei de o ouvir. Até que deixei de pensar nele como uma parte de mim. De vez em quando, pequenas pontadas lembravam-me que num espaço algures no meu peito havia um músculo que me mantinha viva.
Tu chegaste, estando eu descuidada. Aos poucos, foste povoando os meus dias com a tua voz, com as tuas gargalhadas, com a tua presença. Um dia, percebi que te tornaras um vício sem o qual não saberia viver. Comecei a entrar no ritual das horas e das esperas.
Aceitei, inicialmente com alguma cautela, a mão que me estendias. Senti que era bom andar de mão dada contigo. Confiava na força com que agarravas a minha. 
Dei conta, depois, que o gelo que cobrira o coração se transformava em água e que havia necessidade de soprar o pó. Como o coração se sentia, então, mais aconchegado, tornou-se urgente começar a despi-lo das roupas com as quais o fora cobrindo.
Não foi tarefa fácil - sabes bem. Precisei de ajuda. A tua revelou-se preciosa. Até que, numa noite de Outono, me apresentei junto de ti de coração nu, em busca do teu agasalho.

sexta-feira, setembro 19, 2008

nuances do sentir

(Ada Breedveld, La Tendresse)
Mesmo que Dom Pedro não tenha arrancado e comido o coração do carrasco de D. Inês, Júlio Dantas continua a ter razão: é realmente diferente o amor em Portugal. Basta pensar no incómodo fonético de dizer «Eu amo-o» ou «Eu amo-a». Em Portugal, aqueles que amam preferem dizer que estão apaixonados, o que não é a mesma coisa, ou então embaraçam seriamente os eleitos com as versões estrangeiras: «I love you» ou «Je t'aime». As perguntas «Amas-me?» ou «Será que me amas?» estão vedadas pelo bom gosto, senão pelo bom senso. Por isso diz-se antes «Gostas de mim?», o que também não é a mesma coisa. (...) A confusão do amar com o gostar, do amor com a paixão, e do afecto, tornam muito difícil a condição do amante em Portugal. Impõe-se rapidamente o esclarecimento de todos estes imbróglios. Que bom que seria poder dizer «Estou apaixonado por ela, mas não a amo», ou «Já não gosto de ti, embora continue apaixonado» ou «Ele é tão amável que não se consegue deixar de amá-lo».
Miguel Esteves Cardoso, A Causa das Coisas

sábado, março 22, 2008

das manifestações de afecto

Numa noite destas, quando me preparava para dormir, resolvi fazer "zapping" pelas rádios nacionais. A busca automática conduziu-me a uma conversa entre um locutor e o psiquiatra Eduardo Sá, que dizia, quando "cheguei", que temos medo de amar e de dizer aos outros que os amamos.
Não pude deixar de lhe dar razão. Não verbalizamos os sentimentos, expressamo-los cada vez menos pelo contacto físico. À medida que crescemos, desenvolvemos uma espécie de auto-censura (ou de pudor?) que tornam escassos os abraços e os beijos, que reservamos quase exclusivamente para os mais novos (muito novos!).
Se bem me lembro, pelos 18/ 20 anos, os abraços e os beijos eram fáceis. Quando a tristeza nos tomava, por razões mais ou menos válidas, sabíamos que alguém viria com prontidão abraçar a nossa dor e secar as nossas lágrimas. O tempo parecia sobrar para tudo - para o estudo, para as saídas e para longas conversas, feitas de confidências e cumplicidade, horas a fio.
Com o tempo, alguns de nós perdemos essa capacidade de expressar com espontaneidade os sentimentos. Amamos, mas não o dizemos aos alvos do nosso amor. Também tornamos escassos os beijos e os abraços... que assumimos, por vezes, como "lamechice" ou sinal de fraqueza e, quando alguém ainda ousa esses gestos de carinho, recebemo-los de forma desajeitada e tímida, como se, correspondendo, estivéssemos a cometer uma qualquer infracção.