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terça-feira, maio 19, 2020

E, de súbito


(Jardins da Gulbenkian, 2014)
E, de súbito, há essa luz
que se espalha sobre a tarde,
essa luz invasora
que traz o passado pela mão,
que o arrasta,
e mo devolve em fragmentos,
como um tempo já sem préstimo.

E, de súbito, é verão na primavera…
Vozes antigas ecoam na minha cabeça
como um mantra,
como uma ladainha,
uma canção infantil.

Vejo-me  menina,
alma sem mácula e sem mágoas,
corpo pequeno que se enrola
nas palavras alheias,
pronunciadas sem pressa.

deep, 15 de Maio de 2014

Em repetição...

sábado, junho 16, 2018

Razão de ser

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?


Paulo Leminski

sábado, junho 02, 2018

It´s time to find a place


It’s time to find a place
to be silent with each other.
I have prattled endlessly
in staff-rooms, corridors, restaurants.
When you’re not around
I carry on conversations in my head.
Even this poem
has forty-eight words too many.
Eunice de Souza (poetisa goesa)

sexta-feira, maio 25, 2018

Balada da chuva



Com alterações e supressões...


Cai, chuva, cai…
Cai e acalma
o pó nos caminhos

Cai,
Impiedosa,
Cai,
Clemente
Cai,
Misericordiosa.

Cai, chuva, cai…
Verte-te inteira
Sobre os campos sequiosos.

Cai, chuva, cai…
Faz ganir de dor
O metal de varandas
E caleiras.

Vem, chuva, vem…
Escorre de mansinho
Pela vidraça,
Sobre as árvores do quintal.

Vem…
E sê música de embalar.

deep, maio de 2017

terça-feira, março 27, 2018

Luz e sombra


Fan Ho, "Approaching shadow", Hong Kong 1954

quarta-feira, dezembro 13, 2017

Como se fossem líquidos


Robert Doisneau, "La première maitresse"

«Os dias deslizam como se fossem líquidos. Não tenho mais cadernos onde escrever. Também não tenho mais canetas. Escrevo nas paredes, com pedaços de carvão, versos sucintos. Poupo na comida, na água, no fogo e nos adjetivos.»

in Teoria Geral do Esquecimento

Do José Eduardo Agualusa, que hoje está de parabéns.


domingo, dezembro 10, 2017

llueve mucho, mucho


«hoy llueve mucho, mucho,
y pareciera que están lavando el mundo»

Juan Gelmán, "Lluvia"

sábado, maio 13, 2017

Cai, chuva, cai


Cai, chuva, cai.
Derruba tua impiedade
sobre os homens,

Cai, chuva, cai.
Atira a tua fúria contra o asfalto,
faz ganir de dor o metal
de varandas e caleiras.

Cai, chuva, cai.
Concede aos campos
e às culturas a tua misericórdia.

Cai, chuva, cai...
Devolve-me as horas da infância,
o odor do musgo e da terra molhada,
a solidão das ruas da aldeia,
em melancólica comunhão
com o fumo das lareiras.

Cai, chuva, cai,
agora mansa,

e embala o meu sono.

deep, há minutos

quinta-feira, abril 27, 2017

Vã tentativa

No mês passado, ocorreu-me escrever um conto infantil. Depois de várias tentativas, resultou uma narrativa incompleta.
Se alguém tiver paciência para ler...

O lápis que queria mudar de nome


Imagem de Robert Doisneau

        - Pareces um pouco infeliz, lápis.
            - Oh... Afia, tu também falas? Há dias que me perguntava, fechado neste estojo estreito, apertado entre todo o material de escrita e desenho, se seria o único capaz de falar.
            - Todos falamos, mas, como foste o último a chegar e nos pareceste triste, ficámos mudos, sem saber o que te dizer.
            - Ah, assim fico mais feliz. As conversas convosco poderão, certamente, ser mais divertidas. Na fábrica onde nasci, tudo era monótono. Os lápis eram todos iguais a mim, tinham o mesmo nome, o mesmo tamanho e as mesmas cores. Por que raio não têm os lápis nomes como as pessoas ou os cães? Na caixa onde me embalaram na fábrica e na prateleira da papelaria onde me puseram à venda, todos tinham, como eu, o nome de HB, e todos estávamos pintados de amarelo e preto com o topo vermelho.
            - Olha lá, HB... Hummm... Gosto do teu nome! Bem, ia perguntar-te se todos os HB que conheces têm essas características. – quis saber a esferográfica azul.
            - Percebi, quando, na papelaria, se enganaram na prateleira, que há HB vestidos de outras cores e que alguns têm no topo uma borracha. Pergunto-me: quem quer uma borracha no topo? Lápis e borrachas não serão inimigos? Como pode um lápis conviver intimamente com uma borracha que fica feliz quando apaga o que o lápis escreve?
            - Vê as coisas pelo lado positivo. As borrachas, por vezes, apagam para aperfeiçoar o trabalho dos lápis, para os obrigar a serem mais exigentes consigo próprios.
            - Talvez tenhas razão... não tinha pensado nisso. Esta conversa começa a ser produtiva.
            - Imagino, HB, que ser aparado pelo afia seja bem pior do que ver o trabalho apagado pela borracha...
            - Na verdade, Esferazul... Posso chamar-te assim?
             - Claro! Nunca ninguém me tinha dado um nome tão simpático. Até fico comovida.
            - Na verdade, como estava a dizer, por vezes, até se torna divertido, porque me faz cócegas. Não imaginam como é difícil não desatar às gargalhadas. Chego até a esquecer-me de que vou ficar mais pequeno.
            - Gostas do nosso dono? – perguntou a borracha que, até então, tinha estado calada.
            - Sim, bastante. Ainda o conheço há pouco tempo, mas já percebi que é um miúdo cuidadoso e com muita imaginação. Como tenho o hábito de deslizar suavemente pelo papel, prefere-me a outros lápis.
            Fico feliz quando ele me aperta entre os dedos e começa a inventar histórias de aventuras com personagens fantásticas ou quando descreve os lugares que conheceu ou para onde gostaria de viajar.
            Quando fica pensativo, costuma levar-me à boca e apertar-me entre os dentes. Felizmente, fá-lo sem me apertar. Estão as ver estar marcas no meu corpo? Nem que quero lembrar do dia em que isto me aconteceu.
            O miúdo deixou-me, durante alguns minutos, pousado na mesa da sala. Bastaram uns segundos para que eu rolasse para o chão. A queda foi emocionante, como foi bom ter caído em cima do tapete fofo, mas, de repente, senti-me preso. Teria sido o meu fim, se o miúdo não tivesse gritado «Nero, seu safado, larga o lápis, vais estragá-lo!». Assim, fiquei apenas com umas marcas.
            Já dei conta, porém, que não sou grande ajuda nos problemas de Matemática. O miúdo passa o tempo a pedir ajuda à borracha, para apagar o que eu escrevo. Ela é que se diverte! Percebe-se que ele prefere escrever histórias e desenhar. Ah! Vós não imaginais como fico feliz quando ele pega em mim para desenhar! Há dias, desenhou a paisagem que vê da janela do quarto. Soube-o porque a irmã lhe perguntou o que estava a fazer.
            Nesta família todos parecem gostar de mim. O pai, quando me vê por perto, serve-se de mim para fazer as palavras cruzadas do jornal. Graças a isso, vou adquirindo algum vocabulário.
            Ainda ontem, a mãe me usou para passar para um caderno uma receita que viu num programa de televisão. Até eu, que não preciso de comer, fiquei com água na boca!
            Uma destas noites, quando já todos dormiam, fui, de certa forma, confidente da irmã. Soube, porque ela escreveu uns desabafos num caderninho de capa dura e de elástico que tirou da carteira, que estava magoada com alguém. Fiquei comovido, palavra que fiquei comovido! Não gosto de histórias tristes. Deliro com aventuras ou com situações divertidas, mas abomino histórias tristes. Deixam-me deprimido.


...

quinta-feira, março 02, 2017

Começamos a perder ao berlinde


Ferreira da Cunha, s/d

Começamos a perder ao berlinde
e acabamos a perder pessoas,
e tudo acontece tão depressa como o intervalo de recreio na escola,
quase nem dá para jogar à bola.

Surripiado do mural de Facebook da autora, a Raquel Serejo Martins

sexta-feira, fevereiro 17, 2017

Adolescência




Até aos doze anos, fui gordinha, embora nunca tivesse sido verdadeiramente comilona, como hoje também não sou e, para mal da minha bolsa, continuo com peso a mais. Um dia, depois de muito invejar as amigas magras e de sofrer com os "ataques" de um colega de turma, em particular, que me perseguia no caminho para casa, com palavras menos simpáticas sobre o meu aspecto, determinei passar fome. Ainda hoje recordo a sensação de estômago vazio e da capacidade de aguentar essa sensação. Em pouco tempo, deixei de conseguir comer. Uma batata,por pequena que fosse parecia ocupar todo o estômago. Em poucos meses, emagreci a olhos vistos. Na história não entraram psicólogos, nutricionistas, nem pedopsiquiatras, só médicos de clínica geral, que prescreveram vitaminas, como recordo. Algum tempo depois, sem saber como nem porquê, recuperei o apetite e o peso suficiente para parecer (e ser) uma adolescente saudável.
Ontem, ocorreram-me este episódio do início da minha adolescência e esta foto, quando a minha sobrinha mais velha, que tem a idade que eu tinha quando a foto foi tirada, ou seja, treze anos, se lamentava por ser magra demais. 


quinta-feira, dezembro 15, 2016

domingo, novembro 27, 2016

Não soube da tarde



Não soube da tarde
senão pela mudez das pedras,
pelo êxtase iluminado das árvores.
Ébria de memórias,
errei por caminhos de pó,
por trilhos de quietação.
Bebi, em sorvos lentos,
o aroma agreste das estevas,
bebi-me inteira, de um trago,
sem que me conhecesse.
Reencontrei-me no canto das cigarras,
no restolhar animal e anónimo,
numa saudação longínqua de estrelas.
deep, Agosto de 2013

Entretanto, resolvi fazer uma gravação caseira, que podem encontrar aqui. Só uma brincadeira... 

quarta-feira, outubro 05, 2016

domingo, setembro 25, 2016

A noite deu em chuvosa


A chuva chegou quase sem aviso. Vesti um agasalho e sentei-me na varanda a ouvi-la e a vê-la cair. No ouvido tinha ainda "A Perfect Day", do Lou Reed, que um vizinho de bom gosto "oferecera" umas horas antes.

quinta-feira, setembro 15, 2016

Recomeço

... com chuva.


Robert Doisneau, "Les écolières", Alsácia, 1945

(Imagem surripiada do mural de uma amiga)

terça-feira, fevereiro 09, 2016

Segue os trilhos da infância


Segue os trilhos da infância.
Não os percas de vista.

Neles, encontrarás um som.
Talvez o chiar dos carros de bois 
de regresso à aldeia,
no fim de uma tarde de Verão,
talvez o canto das cigarras.

Segue-os...
Neles, encontrarás aquele raio de luz
que, intrometendo-se pelas frinchas do telhado,
ilumina os objetos quotidianos que repousam
sobre a mesa e sobre o velho escano.

Segue esses trilhos primeiros...
Neles, habitam ainda o aroma amargo
das giestas e o toque resinoso das estevas.

Encontrarás pedras, é certo.
Cobrir-te-ás de pó... não duvides.

Mas deles emergirão as vozes
que te seguram e que te guiam

no regresso a ti.

deep, 8 e 9 de Fevereiro de 2016

sábado, janeiro 23, 2016

Fotografia

«Entre las muchas maneras de combatir la nada, una de las mejores es sacar fotografías, actividad que debería enseñarse tempranamente a los niños pues exige disciplina, educación estética, buen ojo y dedos seguros.»
Julio Cortázar


(A minha sobrinha mais velha a fotografar livros voadores, na Rua das Flores, no Porto)
                                                                                                                                             

quinta-feira, dezembro 10, 2015

Resposta às tuas e às minhas perguntas

A propósito da "Desiderata", a Raquel partilhou comigo o link para este texto tão bonito, que a própria escreveu.

Sê nómada.
Não tenhas medo de leões nem de professores de matemática.
Todos os dias come um pouco de sol e um pouco de verde.
Planta várias árvores.
Sobe às árvores mas não apoquentes os pássaros nos ninhos.
Deixa o sol entrar mesmo se tiveres de fechar os olhos.
Preserva a transparência e o silêncio.
Usa barbatanas porque debaixo de água podes voar.
Lê muitos livros e joga ping-pong.
Lê a Mafalda do Quino e o Corto do Pratt.
Embarca em todas as viagens dentro e fora do teu corpo.
Atenta nas cores do Outono. Novembro também é um mês bom.
Procura todos os dias uma pequena alegria e se não encontrares nenhuma dança.
Chora sem medo e em casos de incêndio.
Bebe chá sempre com companhia, pelo menos de um gato.
Se tiveres tempo tem um cão.
Podes comer chocolate todos os dias se tiver no mínimo 80% de cacau.
Aprende a gostar do vento, de favas e de ópera. São muitas as coisas de que não se gosta à primeira e há músicas antigas de que vais gostar muito mais.
Separam-nos quase quatro décadas e, quando tiveres a minha idade, se eu ainda existir, não te esqueças de me contar o que sentes dentro do corpo, à flor da pele e debaixo dos pés, sempre que ouves os Verdes Anos na guitarra do Carlos Paredes.
Não abuses de ti nem de ninguém.
Descobre o significado íntimo das palavras.
Tenta aprender todas as línguas do mundo.
Sê estrangeiro de ti.
Sê tenaz no amor mas não insistas no amor nos corações errados.
Sê o que quiseres, com a condição de seres feliz.
Por definição desliga a televisão.
Tem noção que não precisas de matar para viver, basta plantar e semear, todavia treina e mantém afinada a pontaria.
Respeita a lentidão das lesmas.
Experimenta pintar, e se como eu fores mesmo mau mas te der prazer, pinta e está-te nas tintas para os outros e para o resultado.
Como regra: não percas tempo, anda depressa mas respira devagar.
Percebe, a cada segundo, a velocidade a que bate o teu coração.
Guarda que a única coisa que é para sempre é morrer.
Urgente é apenas a alegria, o amor e a ferida.
Diz que não gostas quando não gostas.
Nunca te esqueças da delicadeza e que uma pedra é uma pedra é uma pedra.
Olha que a esperança nem sempre é uma menina de confiança e desistir pode ser uma grande vitória.
Evita viver a crédito, não te permitas ser refém de meros objectos e grava, escreve na mão para lembrar, tatua se necessário, que não há coisa de maior preço do que o teu tempo.
Procura a companhia dos teus poetas preferidos.
Faz amigos sob a condição do encanto e da ternura.
Não acredites em muitas coisas inexplicáveis.
Desculpa as asneiras dos teus pais, tu sabes mais.
E espero, eu sentada à tua espera, que nunca falte aos dias dos meus olhos o barulho do teu sorriso.

Raquel Serejo Martins

sábado, outubro 17, 2015

Cada coisa a seu tempo


Telhados da Mouraria

Pois é, Lisboa,eu queria muito reconciliar-me contigo, mas, convenhamos, ultimamente arranjaste motivos, para somar aos que já tinha, para me afastar de ti. Sei bem que a culpa não é só tua. Na verdade, tu até te esforças por seres simpática: exibes sempre esse sorriso franco de cidade luminosa voltada para o rio, expias as tuas dores em fados que cantam dores alheias, insinuas-te em sete colinas. Ainda que reconheça e aprecie tudo isso, não estou preparada para um encontro - nem a promessa de que será na companhia do Pessoa me convence! Por enquanto, além dos quinhentos quilómetros que nunca superaremos, há um mar de mágoas a separar-nos.
Sabes bem que nem sempre me foste adversa, ainda que nunca tenha conseguido sentir-me completamente à vontade na tua presença. (Não te ofendas, mas continuo a preferir o Douro e a cidade cinzenta que o abraça.) Sabes bem que aprendi muito contigo, que me proporcionaste muitos momentos felizes. Não quero parecer ingrata. Só preciso de tempo. Sim, é só uma questão de tempo. Uma cidade antiga como tu está habituada a esperar. Sei, por isso, que esperarás por mim. Há que saber esperar, pois, como escreveu o poeta Pessoa, «Cada coisa a seu tempo tem seu tempo».