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sábado, dezembro 07, 2019

Ecce homo

Desbaratamos deuses, procurando
Um que nos satisfaça ou justifique.
Desbaratamos esperança, imaginando
Uma causa maior que nos explique.

Pensando nos secamos e perdemos
Esta força selvagem e secreta,
Esta semente agreste que trazemos
E gera heróis e homens e poetas.

Pois Deuses somos nós. Deuses do fogo
Malhando-nos a carne, até que em brasa
Nossos sexos furiosos se confundam,

Nossos corpos pensantes se entrelacem
E sangue, raiva, desespero ou asa,
Os filhos que tivermos forem nossos.


Do poeta José Carlos Ary dos Santos, que nasceu num dia 7 de Dezembro (1937)

sexta-feira, dezembro 20, 2013

Quando um homem quiser


Desejo, a todos quantos ainda me visitam, um Natal Feliz e, sobretudo, um 2014 pleno de momentos felizes.

sexta-feira, janeiro 18, 2013

Ecce homo


Desbaratamos deuses, procurando
Um que nos satisfaça ou justifique.
Desbaratamos esperança, imaginando
Uma causa maior que nos explique.

Pensando nos secamos e perdemos
Esta força selvagem e secreta,
Esta semente agreste que trazemos
E gera heróis e homens e poetas.

Pois Deuses somos nós. Deuses do fogo
Malhando-nos a carne, até que em brasa
Nossos sexos furiosos se confundam,

Nossos corpos pensantes se entrelacem
E sangue, raiva, desespero ou asa,
Os filhos que tivermos forem nossos.
José Carlos Ary dos Santos

Do poeta Ary, que partiu num dia 18 de Janeiro (1984)...

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Soneto - Ary dos Santos

Fecham-se os dedos donde corre a esperança,
Toldam-se os olhos donde corre a vida.
Porquê esperar, porquê, se não se alcança
Mais do que a angústia que nos é devida?

Antes aproveitar a nossa herança
De intenções e palavras proibidas.
Antes rirmos do anjo, cuja lança
Nos expulsa da terra prometida.

Antes sofrer a raiva e o sarcasmo,
Antes o olhar que peca, a mão que rouba,
O gesto que estrangula, a voz que grita.

Antes viver do que morrer no pasmo
Do nada que nos surge e nos devora,
Do monstro que inventámos e nos fita.

José Carlos Ary dos Santos

Foi num dia 18 de Janeiro, mas de 1984, que o poeta partiu...

domingo, janeiro 18, 2009

lembrar o poeta

Minha laranja amarga e doce 
meu poema 
feito de gomos de saudade 
minha pena 
pesada e leve 
secreta e pura 
minha passagem para o breve, breve 
instante da loucura 

Minha ousadia 
meu galope 
minha rédea 
meu potro doido 
minha chama 
minha réstia 
de luz intensa 
de voz aberta 
minha denúncia do que pensa 
do que sente a gente certa 

Em ti respiro 
em ti eu provo 
por ti consigo 
esta força que de novo 
em ti persigo 
em ti percorro 
cavalo à solta 
pela margem do teu corpo 

Minha alegria 
minha amargura 
minha coragem de correr contra a ternura. 

Por isso digo 
canção castigo 
amêndoa travo corpo alma amante amigo 
por isso canto 
por isso digo 
alpendre casa cama arca do meu trigo. 

Meu desafio 
minha aventura 
minha coragem de correr contra a ternura. 



(Ary dos Santos) ... que partiu no dia 18 de Janeiro de 1984 ("recordou-mo" a Hipatia).

segunda-feira, janeiro 12, 2009

A cidade é um chão de palavras pisadas


A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança  a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância  e a palavra medo.

A cidade é um saco  um pulmão que respira
pela palavra água  pela palavra brisa
A cidade é um poro  um corpo que transpira
pela palavra sangue  pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.


 (Ary dos Santos) Música: "As Cidades" (Rodrigo Leão)