Mostrar mensagens com a etiqueta Fernando Pinto do Amaral. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Fernando Pinto do Amaral. Mostrar todas as mensagens

domingo, fevereiro 10, 2019

Rostos

Depois de tanto tempo, experimenta
sair pé ante pé do teu inútil
abrigo subterrâneo,
afasta o medo ao menos uma vez
e sobe num rompante decidido
as escadas de incêndio do coração.

Depois de tudo isso, não desistas
de contemplar de novo o planeta,
a paisagem lunar do teu corpo,
a terra calcinada onde nasceu
a erva radioactiva a que chamavas
paixão e era só
alarme falso, anúncio colorido
onde brilhava a luz extraterrestre
dos rostos, tantos rostos onde os sinos
tocavam a rebate.

Depois de tantas fugas sem perdão,
dos truques que falhaste, dos feitiços
que já não funcionam,
o que tens a perder? Já não sabes
manejar bem o astrolábio
e a bússola não é de confiança,
mas agora não tens, nunca tiveste
qualquer alternativa.

Depois de tantos rostos,
ouves ainda a noite, coração?
Conheces a matéria de que é feito
o vento quando bate
em rostos como esses? Saberás
decifrar pela milésima vez
a razão sem razão, o sentido
que nunca fez sentido da palavra amor?

Fernando Pinto do Amaral, Poemas Escolhidos

terça-feira, janeiro 24, 2017

Sombras

[...]

As pessoas - tu sabes - as pessoas são feitas 
de vento 
e deixam-se arrastar pela mais bela 
respiração das sombras, 
pela morte que repete os mesmos gestos 
quando o crepúsculo fica a sós connosco 
e a noite se redime com uma estrela 
a prometer salvar-nos.


[...]


Fernando Pinto do Amaral, Pena Suspensa

segunda-feira, janeiro 23, 2017

Eco


Vagas são as promessas e ao longe,
muito longe, uma estrela.
Cruel foi sempre o seu fulgor:
sonâmbulas cidades, ruas íngremes,
passos que dei sem onde.
Era esse o meu reino, e era talvez essa
a voz da própria lua.
Aí ficou gravada a minha sede.
Aí deixei que o fogo me beijasse
pela primeira vez.
Agora tenho as mãos vazias,
regresso e sei que nada me pertence
— nenhum gesto do céu ou da terra.
Apenas o rumor de breves sombras
e um nome já incerto que por mágoa
não consigo esquecer.
Fernando Pinto do Amaral, Poemas Escolhidos

segunda-feira, julho 29, 2013

Em voz baixa


Desce ao abismo.
Bebe o sangue da terra e absorve-o
por cada poro do teu corpo
como se cada ferida fosse o preço
de outra ferida maior.

Desce ao abismo e vê
como trabalha o ódio,
como o ensinam às crianças,
como é fácil a morte.

Há uma estrela de seis pontas
que só te pede vida,
um céu onde te aguarda desde sempre
a porta mais estreita.

Não tenhas medo:
desce ao abismo e estende agora
a tua mão. Com ela
agarras outra mão e atravessas
a noite
o deserto
um espelho de mil faces que te mostra
a cor de cada rosto.

Dá o primeiro passo, recupera
a sede mais antiga,
o primeiro milagre, a “confiança
da árvore no seu fruto”.

Lê de novo esse livro em voz baixa:
cada palavra que disseres
celebra ainda a tua dor       
e brilha como as lágrimas de Deus
em cada vértice da estrela.

Fernando Pinto do Amaral, Poemas escolhidos

quarta-feira, outubro 19, 2011

Podes ficar aqui?

Podes ficar aqui?
Não vás embora,


precisarei de mais alguns minutos,
horas, dias, semanas, meses, anos,
eternidades para te esquecer…


Fernando Pinto do Amaral

terça-feira, maio 31, 2011

Eco

Vagas são as promessas e ao longe,
muito longe, uma estrela.


Cruel foi sempre o seu fulgor:
sonâmbulas cidades, ruas íngremes,
passos que dei sem onde.


Era esse o meu reino, e era talvez essa
a voz da própria lua.
Aí ficou gravada a minha sede.
Aí deixei que o fogo me beijasse
pela primeira vez.


Agora tenho as mãos vazias,
regresso e sei que nada me pertence
— nenhum gesto do céu ou da terra.
Apenas o rumor de breves sombras
e um nome já incerto que por mágoa
não consigo esquecer.


Fernando Pinto do Amaral, Poemas Escolhidos

terça-feira, janeiro 18, 2011

Zeitgeist

Os meus contemporâneos falam muito
e dizem: «Então é assim»,
com o ar desenvolto de quem se alimenta
do som da própria voz, quando começam
a explicar longamente as actuais tendências
das artes ou das letras ou das sociedades
a pouco e pouco iguais umas às outras
neste primeiro mundo em que nascemos,
agora que o segundo deixou de existir
e que o terceiro, mais guerra, menos fome,
continua abstracto, em folclore distante.


Parece que está morta a metafísica
e que a verdade adormeceu, sonâmbula,
nos corredores vazios onde, às escuras,
se vão cruzando alguns milhões de frases
dos meus contemporâneos. Todavia,
falam de tudo com o entusiasmo
de quem lança «propostas» decisivas
e percorre as «vertentes» de novos caminhos
para a humanidade, enquanto saboreiam
a cerveja sem álcool, o café
sem cafeína e sobretudo
o amor sem amor, pra conservarem
o equilíbrio físico e mental.


Os meus contemporâneos dizem quase sempre
que não são moralistas, e é por isso
que forçam toda a gente, mesmo quem não quer,
a ser livre, saudável e feliz:
proíbem o tabaco e o açúcar
e se por vezes sofrem, tomam comprimidos
porque a alegria é uma questão de química
e convém tê-la a horas certas, como
o prazer vigiado por preservativos
e outros sempre obrigatórios cintos
de segurança, pra que um dia possam
sentir que morrem cheios de saúde.


Quando contemplo os meus contemporâneos
entre as conversas trendy e os lugares da moda,
«tropeço de ternura», queria ser
pelo menos tão ingénuo como eles,
partilhar cada frémito dos lábios,
a labareda vã das gargalhadas
pela madrugada fora. No entanto,
assedia-me a acédia de ficar
assim, mais preguiçoso do que um Oblomov
à escala portuguesa - ó doce anestesia
a invadir-me o corpo, a libertar-me
desse feitiço a que se chama o «espírito
do tempo» em que vivemos, sob escombros
de um céu desmoronado em mil pequenos cacos
ainda luminosos, virtuais
estrelas que se apagam e acendem
à flor de todos os écrans
que os meus contemporâneos ligam e desligam
cada dia que passa, nunca se esquecendo
de carregar nas teclas necessárias
para a operação save
e assim alcançarem a eternidade.


Fernando Pinto do Amaral, Poesia Reunida, 1990-2000