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quarta-feira, janeiro 13, 2021

Da perda e do reencontro

 A minha vida teria tido menos momentos de doçura, se não tivesse tido a sorte de te conhecer e de privar contigo, para não falar de todas as coisas a que tive acesso - os autores, os livros, um bailado da Pina Bausch, os passeios na Gulbenkian, as músicas dos Pink Floyd, as longas conversas debaixo da sombra dos castanheiros, nas tardes de verão, ou, durante muitas madrugadas, na cozinha da tua casa, com vista para o parque de Monsanto - e que me tornaram, em parte, a pessoa que sou. 

Esta noite, sonhei contigo (algo raro) e nesse lugar, a que ascendi pelo sonho, também chegara a pandemia, a querer privar-nos desse abraço que eu queria muito que fosse real.

Talvez os sonhos sirvam também para isto, para nos reencontrarmos com aqueles que perdemos.

sexta-feira, julho 12, 2019

Irrompe em silêncio

«Quando nos confrontamos com a amizade sentimos todos a dificuldade de exprimi-la, pois entramos num campo onde não há espaço para muitas declarações, e soam despropositados os longos discursos… existem, sim, histórias de vida. Existem nomes, rostos, vivências… Existe o indizível da presença, a coreografia fiel e criativa dos gestos. Mesmo quando se trata de uma amizade intensa, a amizade não deixa de ser uma experiência discreta, ainda que gere marcas humanas e espirituais inapagáveis. (…) 
Um amigo, por definição, é alguém que caminha a nosso lado, mesmo se separado por milhares de quilómetros ou por dezenas de anos. O longe e a distância são completamente relativizados pela prática da amizade. De igual maneira, o silêncio e a palavra. Um amigo reúne estas condições que parecem paradoxais: ele é ao mesmo tempo a pessoa a quem podemos contar tudo e é aquela junto de quem podemos estar longamente em silêncio, sem sentir por isso qualquer constrangimento. A amizade cimenta-se na capacidade de fazer circular o relato da vida, a partilha das pequenas histórias, a nomeação verbal do lume mais íntimo que nos alumia. A amizade é fundamentalmente uma grande disponibilidade para a escuta, como se aquilo que dizemos fosse sempre apenas a ponta visível de um maravilhoso mundo interior e escondido, que não serão as palavras a expressar. (...)
O modo como uma grande amizade começa é misterioso. Podemos descrevê-lo como um movimento de empatia que se efetiva, um laço de afeição ou de estima que se estreita, mas não sabemos explicar como é que ele se desencadeia. Irrompe em silêncio a amizade.»

José Tolentino Mendonça

segunda-feira, novembro 02, 2015

Ao pé coxinho

Oiço, pela enésima vez, “A strange kind of love” do Peter Murphy, uma das “minhas” músicas, e penso como são estranhas algumas relações, de amor ou de amizade. São relações que se alimentam da distância, que seriam óptimas para uma das partes se os amantes ou amigos estivessem sós numa ilha deserta. Sem o peso da rotina, sem obrigações, sem o convívio obrigatório com a família e os amigos de parte a parte. Amores e amizades estranhos que só podem sobreviver se uma das partes ceder aos caprichos da outra parte, que só respiram se uma das partes der espaço e tempo à outra parte, sem contrapartidas.
A música chega ao fim e eu pergunto-me se podemos chamar amor ou amizade, ainda que “estranho”, a esse sentimento que, além de tudo o mais, é só de vez em quando, que, não raras vezes, prescinde da presença física, da convivência, do tempo partilhado.

A experiência, sobretudo a dos outros, diz-me que há relações assim, que se fazem ao pé coxinho, sem que o outro pé participe de forma ativa na caminhada e que, apesar das limitações, duram anos.


sábado, julho 04, 2015

domingo, fevereiro 03, 2013

Do prazer de conversar


(Imagem de Ada Breedveld)

Gosto de conversar. Aqueles que me conhecem bem sabem que é verdade. Outros julgam-me de poucas palavras. Talvez alguns até pensem que eu não tenho opinião sobre as coisas. 
Lembro-me de gostar de uma boa conversa desde muito cedo. Tive amigas próximas, se a memória não me trai, desde o início da escola primária, com as quais, além de brincar, conversava. Recordo que, pouco antes disso, uma das minhas primas, que é mais velha seis anos, me confiava os seus segredos, que eu guardava com fidelidade. Na adolescência, era capaz de passar tardes inteiras a explorar os mais diversos assuntos, que iam das ilusões ou desilusões amorosas, à música ou à literatura, com algumas amigas e uma ou outra prima. Quando não tinha por perto as minhas mais fiéis confidentes, trocava com elas cartas quilométricas, que incluíam, por vezes, "top secrets" escritos em inglês, não fosse algum adulto mais curioso lê-los.
Actualmente, continuo a gostar de palavras, escritas ou faladas, a valorizar uma conversa de horas, num "face to face", mais do que qualquer conversa por telefone ou diálogo escrito num chat ou no Facebook.
Dou-me hoje conta de que as melhores conversas me têm acontecido, por norma, com pessoas, homens ou mulheres, com as quais senti, quando as conheci, uma quase imediata empatia. Acredito até que as amizades mais sólidas e mais longas se sustentam de longas e boas conversas, da capacidade de dizermos o que nos vai na alma sem temermos julgamentos ou de saltarmos de uns temas para os outros com facilidade e o mesmo prazer, do sermos capazes de desfiar  rosários de palavras e de ouvir os outros fazerem o mesmo, sem que isso nos canse. 
Mau sinal é quando nos apercebemos que nos faltam as palavras com alguém que julgávamos próximo e quando o silêncio começa a ser um constrangimento. Por norma, tal acontece com pessoas cujas relações se alimentaram de vivências quotidianas. Faltando estas, faltam as palavras.
Este texto é, de certo modo, uma homenagem àqueles que, como eu, prezam a amizade e uma boa conversa e com os quais tenho tido o privilégio de passar agradáveis momentos, daqueles que, findos, me deixam a repetir as palavras do Sérgio Godinho: "Hoje soube-me a tanto/ Portanto/ Hoje soube-me a pouco (...)".

quarta-feira, maio 27, 2009

ainda sobre a amizade

- É amiga de todos os seus colegas?
A pergunta, vinda aparentemente do nada, apanhou-me de surpresa.
- Não, claro que não.
- Por que não? Não fala com todos?
- Sim, falo com todos, mas só sou amiga de alguns. Há pessoas que têm tudo para poderem ser amigas, contudo, por qualquer razão não o são. A amizade, como o amor, não tem explicação, constrói-se, requer tempo. Por que perguntas isso?
- É que, quando vejo os professores nos corredores da escola, parecem tão frios. (Em relação aos colegas, quis ele dizer.)
Não tive tempo de lhe explicar que as relações são mais complexas e têm mais matizes do que julgamos aos 16/ 17 anos e que, por vezes, aquilo que tomamos por amizade não é mais do que admiração, cordialidade, companheirismo de circunstância ou pura e simplesmente um entusiasmo que desfalece à primeira adversidade. Não lhe disse que o tempo que devemos dedicar à construção de uma amizade é sobretudo interior. Também não pude contar-lhe que, quando tinha a idade dele, bastava uma longa conversa numa tarde de praia para ter a ilusão de que tinha conquistado mais um amigo.
Estou para aqui a pensar que talvez não adiante nada que eu lhe fale de tudo isto, porque só o tempo poderá convencê-lo.

terça-feira, maio 26, 2009

Soneto do amigo

Enfim, depois de tanto erro passado Tantas retaliações, tanto perigo Eis que ressurge noutro o velho amigo Nunca perdido, sempre reencontrado. É bom sentá-lo novamente ao lado Com olhos que contêm o olhar antigo Sempre comigo um pouco atribulado E como sempre singular comigo. Um bicho igual a mim, simples e humano Sabendo se mover e comover E a disfarçar com o meu próprio engano. O amigo: um ser que a vida não explica Que só se vai ao ver outro nascer E o espelho de minha alma multiplica... Vinicius de Moraes

terça-feira, fevereiro 24, 2009

sobre a amizade

Talvez haja uma pitada de Eros no fundo de todas as relações humanas. (...) O Eros da amizade não precisa do corpo... longe disso, incomoda mais do que excita. (...) A amizade, pensava eu, é a relação mais nobre que pode haver entre os seres vivos humanos. É curioso, os animais conhecem-na também. Existe amizade, altruísmo, solidariedade entre os animais. Encontrei centenas de exemplos disso no mundo animal. Entre pessoas vi menos exemplos. (...) As simpatias que vi nascer entre pessoas diante dos meus olhos, acabaram por se afogar nos pântanos do egoísmo e da vaidade. A camaradagem, o companheirismo, às vezes, parecem amizade.
Sándor Márai, As velas ardem até ao fim

sexta-feira, setembro 26, 2008

parabéns!

Vive na capital, mas ama (inequivocamente)Trás-os-Montes, onde tem raizes, é fascinado pela língua mirandesa e toca gaita-de-fole. Há uns anos, trocou um exemplar do Astérix em mirandês e um convite de casamento, escrito na mesma língua, pelo meu estatuto de madrinha.
É um leitor assíduo, ainda que discreto, do Letras. Hoje faz anos. Como é tradição as madrinhas darem presentes aos afilhados, aqui vai um de que gostará certamente.
Parabéns, J.!

sexta-feira, setembro 05, 2008

em resposta

ao carinho que os vossos comentários traduzem, deixo-vos um singelo presente...

(Ada Breedveld)

P.S. - Logo, logo, passarei nas vossas casas para vos ler com mais atenção! :)

Por enquanto: votos de um óptimo fim-de-semana para todos!

quinta-feira, setembro 04, 2008

pois é, meninos,

(Ada Breedveld)
foi tão simples como se nos conhecessemos desde sempre. Imperaram a cumplicidade e a boa disposição. As horas que passámos juntas revelaram-se escassas para pôr a conversa em dia.
A pior parte coube ao A., que fez um esforço hercúleo para compreender e comunicar em português... valeram-lhe a boa vontade e o sentido de humor.
Além da companhia da prima e do A. e da certeza de novas amizades, fui presenteada com um calendário da Ada Breedveld, cujas imagens, findo 2009, hão-de dar cor às paredes da minha casa.

quarta-feira, junho 25, 2008

Esta foto, que ilustra a breve caminhada do fim de tarde de hoje, é a minha homenagem aos amigos, aos antigos e aos mais recentes, cujo afecto e generosidade eu espero saber retribuir e merecer.

As flores campestres que "colhi" são para a Beth, que faz hoje anos. Parabéns!

domingo, junho 01, 2008

um brinde aos amigos

(Imagem da net)

Houve comida brasileira, marroquina, inventada e sem nacionalidade específica, alguma bebida - moderada! - neste nosso segundo jantar de novidades, "evento" que veio para ficar e em que é suposto cada participante contribuir com um prato surpresa e que confeccione pela primeira vez. Mais importantes, contudo, foram o convívio e a boa disposição, que são a prova de que continuamos a gostar da companhia uns dos outros.
Apesar do ambiente descontraído e caloroso, não conseguimos evitar que, a espaços, as conversas traduzissem, num tom mais pessimista (ou será realista?), a preocupação com o preço crescente e escandaloso dos combustíveis, de bens essenciais como o pão e o leite, das taxas de juro (porque ninguém tem pais ricos e ter ido a um certo banco não mudaria a situação!), com o futuro dos filhos, com a nossa situação profissional e com outros tantos assuntos que não podem deixar de nos incomodar.

segunda-feira, abril 21, 2008

pequenos-grandes prazeres

Há dias, a pretexto de uma tertúlia, juntámo-nos em volta de frugal mesa. Regadas de bom vinho tinto e de sumo, para quem não aprecia o néctar dionisino, as palavras fluiram em rio morno e caloroso, espevitadas, de quando em vez, por genuínas gargalhadas, enquanto a comida, sem protesto, se ia deixando deglutir.
Na hora do queijo, dos doces e da fruta, convocámos os poetas, que, alternada e repetidamente, se foram revelando.
O telurismo de Torga, o sentido de justiça e o mar de Sophia, a rebeldia de Campos, a ironia de O'Neill e de Sá-Carneiro, a nostalgia de Al Berto e de Yeats, o amor-entrega/ sofrimento de Maria do Rosário Pedreira e o amor-fidelidade de Vinicius não podiam combinar melhor com os sabores de tão mundano manjar, que foi, sem que nos apercebessemos, roubando horas à madrugada e ao sono.
No final, congratulamo-nos dessas horas de entrega, da conversa amena e fácil, da boa disposição... de todos esses pequenos-grandes prazeres de que, com o tempo, nos temos vindo a privar e a que - soubemo-lo então - havíamos perdido o gosto.
À anfitriã, agradecemos o jantar e tão feliz ideia. Ficou a promessa de uma repetição... talvez ao ar livre, em lugar aprazível.
P.S. - Faltou-me o Eugénio... imperdoável esquecimento que alguém compensou sem que o soubesse.

domingo, abril 20, 2008

Amizade


O Félix, do Desambientado, atribuiu-me o sêlo da amizade - nunca tinha recebido nada parecido.

Muito obrigada!

É suposto passar o testemunho a dez amigos. Não o vou fazer, porque não é fácil...

sábado, março 01, 2008

Há muitos, muitos anos

houve pelo menos um Verão em que esta música se ouvia repetidamente nas rádios generalistas. Nesse tempo, era tudo ainda a feijões. Não tínhamos preocupações, embora, por vezes, nos lamentássemos da sorte e nos sentíssemos as pessoas mais infelizes do mundo. Podíamos passar horas e horas a semear palavras como quem come cerejas, noite dentro, sem que o corpo se ressentisse, sem que a PDI viesse importunar-nos como hoje. A verdade é que, nas férias - que eram loooongaaas -, compensávamos o deitar tarde levantando-nos ao meio-dia, na melhor das hipóteses.
Esta música lembra-me um Verão em Lisboa e as ininterruptas conversas, até de madrugada, com uma das minhas primas do coração. Não sei onde íamos vasculhar tanto para dizer, mas o que é certo é que não conseguíamos estar juntas sem conversar sobre os mais variados temas. Sobretudo, interpretávamos atitudes, dissecávamos sentimentos, trocávamos leituras. A distância física e temporal abrandava as palavras, mas não as calava, porque, depois de Agosto ou Setembro, e durante um ano, convocávamos a cumplicidade da escrita, em cartas, quase semanais, de 7 ou 8 páginas. Com o tempo, trocámos as cartas por emails e telefonemas. Já não passamos férias juntas, o ano que ficávamos sem nos ver tornou-se plural, contudo a amizade ganhou outras tonalidades, mais definidas e permanentes. Eu gosto desta música - talvez pelas recordações que me traz -, ela não... mas esta e outras divergências provam que não é preciso ouvir a mesma canção - ao contrário do que diz o Rui Veloso - para se gostar de alguém.