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quinta-feira, novembro 16, 2017

Não é mais nem menos forte conforme as idades

Palavras de José Saramago, que nasceu num dia 16 de Novembro (1922):
«Aprendi que o sentimento do amor não é mais nem menos forte conforme as idades, o amor é uma possibilidade de uma vida inteira, e se acontece, há que recebê-lo. Normalmente, quem tem ideias que não vão neste sentido, e que tendem a menosprezar o amor como factor de realização total e pessoal, são aqueles que não tiveram o privilégio de vivê-lo, aqueles a quem não aconteceu esse mistério.»

domingo, março 12, 2017

Parabéns, Mãe!



Hoje a minha mãe celebra 77 primaveras. A minha inspiração para a homenagear não foi além de um bolo, uma sobremesa e um presente. Em contrapartida, a minha irmã expressou o amor que sente por ela, grande como o meu e o do meu irmão, na ilustração e nas palavras que agora publico.

domingo, fevereiro 12, 2017

Trabalhos de ourives


Maluda, "Romã", 1984
O amor era o avô
a descascar uma romã
para a avó.
As mãos trémulas,
inexactas,
o vagar do mundo
ou mundo devagar.
A tarde inteira uma romã
ou uma romã inteira.
Enquanto a avó na mesma sombra ao seu lado,
gato no regaço, dormia a sesta.


Raquel Serejo Martins, Aves de incêndio

quarta-feira, fevereiro 08, 2017

Amar perdidamente

Hoje fomos, de novo, conviver com os "menos jovens". Levámos amor em palavras e música. Falámos de cartas de amor ridículas, procurámos uma definição para o amor, quisemos amar perdidamente e demos um cravo e um lenço, e quase o coração, a um rapaz que passou. Em troca, recebemos relatos sobre o amor e o namoro noutros tempos.
Na assistência, havia um casal a caminho dos 100 anos - ele 95, ela 97. «Sabe, casámos em 1945, quando eu voltei da tropa.» - disse ele. «E fomos sempre felizes, com a graça de Deus,», acrescentou ela, orgulhosa. Apesar das diferenças físicas e culturais não pude deixar de me lembrar de uma foto vencedora do WorldPress Photo, que mostra o coreógrafo russo Igor Moiseyev (1906-2007) e a esposa no dia em que ele completou 101 anos.


Foto de Vladimir Vyaktin

domingo, setembro 04, 2016

Acerca de aves que (se) incendeiam

Eunice de Souza, uma poetisa goesa, refere, no título de um dos seus poemas, “Don´t look for my life in these poems”, ou seja, “Não procures a minha vida nestes poemas”, na tentativa, talvez, de manter longe dos olhares alheios a sua intimidade ou para que o leitor se distancie da mulher, do ser humano, e possa ver apenas o poeta-ficcionista, aquele que, como um romancista, fabrica personagens, intrigas e emoções.

Na verdade, ainda que o poeta procure, como escreveu Pessoa, ser um “fingidor”, isto é, aquele que dá forma às palavras, como o oleiro dá forma ao barro, assumindo-se, como o romancista, um construtor de ficções, não lhe é de todo possível higienizar o poema, libertando-o das suas vivências ou crenças.

A poesia da Raquel não é excepção. Porque recupera memórias, em particular da infância - de um tempo anterior à descoberta do amor e da saudade - e da juventude, bem como referências musicais, literárias, bíblicas, mitológicas, etc., torna-se imensamente rica, enriquecendo quem dela usufrui, como neste "Trabalhos de ourives":

O amor era o avô
a descascar uma romã
para a avó.
As mãos trémulas,
inexactas,
o vagar do mundo
ou mundo devagar.
A tarde inteira uma romã
ou uma romã inteira.
Enquanto a avó na mesma sombra ao seu lado,
gato no regaço, dormia a sesta.

ou em "Aves de incêndio":

E a dançar
chegou a tarde do nosso adeus,
uma tarde igual a todas as tardes
sem nuvens no céu ou ameaças de chuva,
apenas levemente mais fria,
porque já Outono
e nós aves de uma só estação,
aves de incêndio.


Nos poemas que integram Aves de Incêndio há versatilidade - na forma, nos temas, na linguagem -, sendo por isso capazes de surpreender o leitor a cada novo texto. Em quase todos eles, intuímos um “eu” lírico que veste, ao mesmo tempo, o papel de narrador, que se assume quase sempre como protagonista ou que partilha, com um interlocutor, esse protagonismo ou que, à semelhança de Reis ou de Horácio, lhe dá conselhos:

Aproveita todos os crepúsculos
obriga-te ao encanto
preserva o pasmo, a virtude do entusiasmo, 
e a curiosidade dos gatos.

("Chá-dançante")

Take a bike,
take a plane,
take a chance,
go to France,
find a fine romance.

("Like a couple of hot tomatoes" - título recuperado de uma canção interpretada pela Ella Fitzgerald)

Das palavras da Raquel emana uma certa rebeldia, que parece estar em dissonância com a pessoa serena que conhecemos, mas que se percebe desde logo no título da obra – Aves de incêndio. Este título parece ser a expressão de alguém que não se resigna com a sua condição de “bicho” terreno, que precisa de asas para se elevar do chão, do comum. Não é, contudo, uma ave que se quer exuberante. O voo que pretende executar não é de exibição, mas de liberdade, através do amor ou das memórias.


“Aves de incêndio” são os amantes, predispostos aos primeiros voos e ao incêndio dos sentimentos, ora regeneradores, ora destrutivos, dos quais sobra a amarga lembrança ou as cinzas.

Um amor velho e seco
como uma giesta,
folha de ervário,
corolário de todos os que o seguiram,
porque o amor quando acaba,
no âmago do coração quieto,
fica sempre amargo.

(Excerto de "Primeiro amor”)

Esta rebeldia exprime-a também no poema “1. Poema verde” (pág. 7), em que evoca o “Romance Sonambulo de García Lorca e no qual o “eu” poético, numa atitude irreverente a lembrar Régio ou Pessoa – Álvaro de Campos, rejeita as convenções, a “normalidade”, o caminho que um interlocutor, que pode ser singular ou plural, procura impor-lhe:

Não me peças para amadurecer
que não sou peça de fruta,
sou peça de outra engrenagem,
e a vida não é árvore nem fruteira.

ou na recusa da poesia e a entrega deliberada aos gestos prosaicos, num poema, que recupera, pela repetição das palavras de “Fim”, a ironia corrosiva de Mário de Sá-Carneiro:


Hoje estou-me nas tintas para a poesia,
quero apenas uma cerveja fria
e companhia.
Pode ser de um burro,
patudo, orelhudo
e obviamente ajaezado à andaluza.

(Poema 76.)


Na escrita poética da Raquel, como, aliás, na prosa, são recorrentes temas como o amor, o apego a Trás-os-Montes e às memórias da infância, o desencanto com o estado do país ou o peso da rotina.
O amor é, muitas vezes, um ritual iniciático, que prepara, ainda de forma inocente, a idade adulta. Ele pode significar doçura, cumplicidade, partilha, mas também é motivo de desencontros, desencanto e de dor.

Trás-os-Montes (T-o-M) são as raízes, o colo, o apelo telúrico, cantado tantas vezes por Torga que, como a Raquel, era um ser do campo emprestado à cidade (talvez a Raquel se sinta menos esse ser “emprestado”, considerando que hoje vivemos num mundo global).
T-o-M  são também a infância feliz, de um tempo anterior à dor, do tempo sem tempo, em que tudo parecia possível e ter uma saída, como escreveu Ruy Belo. Pelo contrário, para o “eu” lírico o presente representa a dor, o vazio, a solidão, a falta de rumo. No presente, é ainda ave, uma ave que desistiu de voar:

Com o tamanho
da minha solidão
fiz um elefante.
O maior mamífero sobre a terra.
E o meu elefante vai 
em passo pesado e lento,
a mesma pele espessa e parda,
incisivos de marfim,
peugadas redondas,
quase lunares.
Vai sem perigo de extinção,
cheio de solidão,
indistinguível na manada.

(Poema 72.)

Podia ser índio, pirata, astronauta,
todos os sonhos em embrião,
a vida no princípio e cheia de tesão.
Conhecia todos os animais da rua
e não havia sinais de trânsito
nem relógios a prender os meus gestos.
(...)
As mãos sempre sujas,
as amoras negras,
o pão escuro,
o cabelo curto
e ninguém sabia se eu era menino ou menina.

("Da invisibilidade dos camaleões")

sexta-feira, junho 03, 2016

Os enamoramentos

«[...] muitas de nós, mulheres, tendemos a ser optimistas e no fundo presunçosas, mais profundamente que os homens, que, no terreno amoroso, só o são passageiramente, esquecem-se de continuar a sê-lo: pensamos que hão-de mudar de atitude ou de convicções, que descobrirão paulatinamente que não podem passar sem nós, que seremos a excepção nas suas vidas ou as visitas que acabam por ficar, que por fim de hão-de fartar dessas outras invisíveis mulheres que começamos a duvidar que existam e preferimos pensar que não existem, à medida que vamos reincidindo com eles mais os vamos amando com grande pesar nosso; que seremos as eleitas se tivermos paciência de permanecer ao seu lado quase sem queixas nem insistências. Quando não provocamos imediatas paixões, acreditamos que a lealdade e a presença acabarão por ser premiadas e por ter mais durabilidade e mais força que qualquer arrebatamento ou capricho. Nesse caso sabemos que dificilmente nos sentiremos lisonjeadas [...].»

«Não podemos pretender ser os primeiros, ou os preferidos, somos apenas o que está disponível,os restos, as sobras, os sobreviventes,o que vai ficando, os saldos, e é com esse pouco nobre que se edificam os maiores amores e se fundam as melhores famílias, é essa a proveniência de nós todos, produto que somos da casualidade e do conformismo, dos descartes e das timidezes e dos fracassos alheios, e ainda assim daríamos às vezes fosse o que fosse para continuarmos junto de quem descartámos um dia de um sótão ou de um leilão [...].» 

Javier Marías, Os Enamoramentos

Uma análise lúcida e curiosa das relações humanas.

segunda-feira, maio 16, 2016

Flores (de papel)


Afonso Cruz, Flores

Quem não espera?


domingo, fevereiro 14, 2016

¿Por qué...?

Si no sabías amar, 
¿Por qué has despertado mi corazón dormido? 


Cantos afganos de amor (versão de Clara Janés)

sábado, fevereiro 13, 2016

Make a wish


Um "boneco" da mana

Felizmente, há quem tenha outros sonhos, que não passam necessariamente pelo casamento ou por uma vida de diversão. Não significa que uma coisa e outra sejam más, mas é bom que a felicidade não tenha de depender de uma dessas opções, nem o amor de datas para ser vivido ou confessado.

No tires las cartas de amor


Caerán los años. Te cansarán los libros.
Descenderás aún más
e, incluso, perderás la poesia.
El ruído de ciudad en los cristales
acabará por ser tu única música,
y las cartas de amor que habrás guardado
serán tu última literatura.

Joan Margarit

segunda-feira, janeiro 18, 2016

Quadrilha

Pena é que não possamos amar quem frontalmente confessa amor por nós e que tenhamos de sofrer por quem não consegue amar-nos, ou não consegue amar-nos como desejamos.

Hoje ocorreu-me Drummond de Andrade e a sua "Quadrilha":


domingo, dezembro 06, 2015

O amor não é tudo

O amor não é tudo: nem carne nem
bebida, nem é sono, lar da gente,
nem a tábua lançada para quem
se afunda e volta e afunda novamente.

O amor não pode encher o pulmão forte,
pôr osso no lugar, tratar humores,
embora tantos dêem a mão à morte
(enquanto o digo) só por desamores.

Bem pode ser, na hora mais doída,
ou da minha franqueza arrependida,
buscando alívio à dor, seja capaz

de vender teu amor por minha paz
ou trocar-te a lembrança pelo pão.
Bem pode ser que o faça. Acho que não.

Edna St. Vincent Millay

Será que não é? O que faríamos e o que seríamos se nos faltasse o amor das pessoas que amamos, o amor pela vida, por aquilo que é belo, pela música, ...?

É certo que talvez não devamos esperar que o amor que vivemos numa relação a dois possa ser a cura para todos os males, mas que essa forma de amor adoça a nossa existência não poderemos negá-lo.

segunda-feira, novembro 02, 2015

Ao pé coxinho

Oiço, pela enésima vez, “A strange kind of love” do Peter Murphy, uma das “minhas” músicas, e penso como são estranhas algumas relações, de amor ou de amizade. São relações que se alimentam da distância, que seriam óptimas para uma das partes se os amantes ou amigos estivessem sós numa ilha deserta. Sem o peso da rotina, sem obrigações, sem o convívio obrigatório com a família e os amigos de parte a parte. Amores e amizades estranhos que só podem sobreviver se uma das partes ceder aos caprichos da outra parte, que só respiram se uma das partes der espaço e tempo à outra parte, sem contrapartidas.
A música chega ao fim e eu pergunto-me se podemos chamar amor ou amizade, ainda que “estranho”, a esse sentimento que, além de tudo o mais, é só de vez em quando, que, não raras vezes, prescinde da presença física, da convivência, do tempo partilhado.

A experiência, sobretudo a dos outros, diz-me que há relações assim, que se fazem ao pé coxinho, sem que o outro pé participe de forma ativa na caminhada e que, apesar das limitações, duram anos.


sábado, julho 04, 2015

domingo, maio 17, 2015

Love is the key


"Love is the key", de Christian Schloe

quinta-feira, agosto 07, 2014

Mas...


(De repente, lembrei-me do filme "My blueberry nights".)

O amor é lindo mas
são horas de fechar o bar,
são horas de te salvar um pouco, miúda,
de te levar daqui para bem perto da felicidade,
de retribuir todas as tuas esperas
com o melhor sorriso e uma Lisboa
que amanheça a céu aberto
num pernilongo vagar traçado,
dois cafés e só um copo de água,
um oásis no deserto das próximas manhãs,
de te salvar um pouco, de riscar os templos,
de prolongar a música além do minuto final,
de te mostrar a faixa escondida.
Ana Salomé

(Surripiado daqui.)

sábado, fevereiro 15, 2014

It´s never too late



Quando fazia zapping pelas gravações automáticas, dei com este "Last chance Harvey", que, em português, tem o título de "A um passo do amor". Porque era o fim da tarde de sexta, momento da semana em que, sempre que posso, faço por estupidificar um pouco em frente à televisão, e porque gosto dos desempenhos do Dustin Hoffmann e da Emma Thompson, decidi parar o zapping e ficar por ali. 
"Last chance Harvey" não é, embora possa parecer, mais uma comédia romântica. É o encontro de duas pessoas desencantadas, com a vida e com elas próprias, e que, em pouco tempo, percebem que gostam de estar juntas. É também um filme sobre o medo de amar, de trocar uma vida solitária e "arrumada" pela "instabilidade" que uma nova relação pode trazer.

sexta-feira, fevereiro 14, 2014

Love letter

Sabes que é mais uma das muitas “tradições” da sociedade de consumo. Sabes que abominas almofadinhas em forma de coração. Chegas a ficar enjoada e a sentir os pés a colar-se ao chão de tanto mel. Acreditas até que não são as datas que ditam o amor. Ainda assim, não perdes a esperança de ser surpreendida com uma carta de amor a fazer conjunto com uma rosa (que está longe de ser a tua flor de eleição) ou um ramo delas (modesto, porque não és exigente e os tempos são de crise!).

quinta-feira, novembro 28, 2013

A strange kind of love



Há amores assim: estranhos. Não sabemos quando nem por que chegam. Na verdade, nem sabemos ao certo se são amor. São - disso temos a certeza - uma mescla de enlevo e de ternura. Tanto podem durar anos, como podem esfumar-se "enquanto o diabo esfrega um olho".

quarta-feira, novembro 13, 2013

Do amor

Olho para os meus pais, que já festejaram os 46 anos de casamento, e quero acreditar que é possível ser protagonista de um amor longo, no tempo e na intensidade. Percebo-o no tom de brincadeira que usam quando, por vezes, falam entre eles, no medo que perpassa nos olhos de cada um quando o outro fica doente ou até na irritação condescendente face aos defeitos de cada um.