segunda-feira, junho 18, 2018

Leituras

«Uma vez desperta a minha atenção, não me foi difícil descobrir que tinha inimigos. Na minha profissão, em primeiro lugar, e depois na minha vida social. A uns, tinha prestado serviços. A outros, deveria tê-los prestado. Tudo isso, em suma, estava na ordem das coisas, e descobri-o sem grande mágoa. Em contrapartida, foi-me mais difícil e doloroso admitir que tinha inimigos entre pessoas que mal ou absolutamente nada conhecia. Sempre tinha pensado, com a ingenuidade de que já lhe dei algumas provas, que os que não me conheciam não poderiam deixar de gostar de mim, se chegassem a privar comigo. Pois bem, nada disso! Encontrei inimizades sobretudo entre os que não me conheciam senão muito por alto, e sem que eu próprio os conhecesse. Suspeitavam, sem dúvida, de que eu vivia em plenitude e num livre abandono à felicidade: isso não se perdoa. O ar do êxito, ostentado de uma certa maneira, é capaz de pegar raiva a um asno.»
«Somos todos casos excepcionais. Todos queremos apelar de qualquer coisa! Cada qual exige ser inocente, a todo o custo, mesmo que para isso seja preciso inculpar o género humano e o céu. (...) Mas estes patifes querem a absolvição, isto é, a irresponsabilidade, e tiram, sem vergonha, justificações da natureza ou desculpas das circunstâncias, mesmo que sejam contraditórias. O essencial é que sejam inocentes, que as suas virtudes, pela graça do nascimento, não possam ser postas em dúvida, e que os seus crimes, nascidos de uma infelicidade passageira, nunca sejam senão provisórios. Já lhe disse, trata-se de escapar ao julgamento. Como é difícil escapar e melindroso fazer, ao mesmo tempo, com que se admire e desculpe a própria natureza, todos procuram ser ricos. Porquê? Já o perguntou a si mesmo? Por causa do poder, certamente. Mas sobretudo porque a riqueza nos livra do julgamento imediato, nos retira da turba do metropolitano para nos fechar numa carroçaria niquelada, nos isola em vastos parques guardados, em carruagens-cama, em camarotes de luxo. A riqueza, caro amigo, não é ainda a absolvição, mas a pena suspensa, sempre fácil de conseguir...»

Albert Camus, A Queda

domingo, junho 17, 2018

sábado, junho 16, 2018

Maravilha


Surripiada do mural de Facebook do amigo Eduardo Barrento.

Razão de ser

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?


Paulo Leminski

Mas como é que eu levo o lanche à minha avó?

Um congresso em Montesinho

depois de três dias de
comunicações e mesas redondas sobre
a conservação do lobo
o capuchinho vermelho pediu a
palavra e disse
tudo muito certo
mas como é que eu levo
o lanche
à minha avó?

José Carlos Barros 

sexta-feira, junho 15, 2018

Waiting for the time to fly


Duy Huynh, "Waitting for the time to fly"

Espero pelo tempo
em que possa voar.

Espero pelo tempo
em que a cinza 
dê, de novo, lugar à chama.

Aguardo, de olhos fixos
no relógio inerte,
o momento em que 
nos meus braços
se desenhem asas.

Pouco sei do Sul
e do voo das aves,
da dureza das rochas.
Sonho-me, porém, águia
a medir distâncias.

Deep, 27 de Abril de 2015

quinta-feira, junho 14, 2018

Podiam ser minhas as palavras

... se eu escrevesse assim.

Finalmente


Jacek Yerka

Decidiu, finalmente, pôr pilhas nos quatro relógios: os três de pulso e o da parede da cozinha. Veremos se é desta que acertam o passo com o coração e a vida começa a dar sinais de alguma aceleração. 


quarta-feira, junho 13, 2018

Somos inverno

Somos só cansaço,
um cansaço velho, gasto, bafiento,
somos cansados incapazes de mudança,
sem memória da última dança,
do último beijo,
da palavra amor,
somos tempestades sem bonança,
somos o pior do outro,
assassinos de gestos de ternura,
assassinos de sonhos,
somos só censura, dentadura e ditadura,
somos serial killers,
somos inquilinos em processo judicial,
somos senhorios, somos gentios, somos doentios,
somos sempre Inverno,
somos sem chuva,
somos só gelo de congelador,
somos o frigorífico vazio,
somos as cadeiras à mesa vazias,
dois corpos na cama, dois montes de lixo,
duas lixeiras nos subúrbios da cidade,
a cama uma cidade entupida de trânsito,
vamos a lugar nenhum,
temos lugar nenhum,
a nossa tragédia, doméstica e particular,
e é Primavera, há canto de pássaros,
até no lixo nascem flores,
mas não nos tocamos, nem por acaso.


Raquel Serejo Martins

Surripiado do mural de Facebook da autora.

Papoilas


As primeiras que "colhi" este ano.