sexta-feira, junho 10, 2022

O tempo acaba o ano, o mês e a hora

(Desconheço a autoria da imagem)

O tempo acaba o ano, o mês e a hora,
A força, a arte, a manha, a fortaleza;
O tempo acaba a fama e a riqueza,
O tempo o mesmo tempo de si chora.

O tempo busca e acaba o onde mora
Qualquer ingratidão, qualquer dureza;
Mas não pode acabar minha tristeza,
Enquanto não quiserdes vós, Senhora.

O tempo o claro dia torna escuro
E o mais ledo prazer em choro triste;
O tempo, a tempestade em grão bonança.

Mas de abrandar o tempo estou seguro
O peito de diamante, onde consiste
A pena e o prazer desta esperança.

Luís de Camões

quinta-feira, maio 05, 2022

T-o-M





Chaves: castelo, rio Tâmega, Termas Romanas e ponte de Trajano

 

A Peça (Em 4 Turnos)


... é o novo trabalho da Peripécia Teatro. Estreia hoje, às 21h30, no Teatro de Vila Real. 

Como sou uma privilegiada, pude assistir ao ensaio geral, de que me ficaram algumas impressões:

    O teatro tem o dom, que partilha com outras formas de arte, de nos fazer rir, de nos comover, de nos obrigar a ver a realidade com outros olhos. Assim acontece com “A Peça (em 4 Turnos)”, o novo trabalho da Peripécia Teatro, que alia, como a companhia nos tem habituado, ao talento e à versatilidade, a reflexão sobre o que não convém esquecer e algumas notas de cómico.

                Em palco, quatro atores e um músico, que é também, a seu tempo, interveniente na ação como personagem. A música, ora melódica, ora agressiva, marca a dramaticidade ou a conflituosidade, interior ou exterior, da ação. São também protagonistas algumas bicicletas, polivalentes nas suas funções. O movimento das rodas traduz a monotonia dos dias e do trabalho árduo e mecânico, a vigilância e a opressão das forças visíveis e ocultas do poder, ininterruptas - como as máquinas e como os turnos - e opressivas.

                “A Peça (em 4 Turnos)” é uma peça sobre opressores e oprimidos, sobre patrões e operários, sobre o medo e a delação, a luta e a resistência, mas também sobre a liberdade (e a libertação), o amor, a amizade e o companheirismo.

                Quatro são os turnos das grandes fábricas, mas quatro são também as vidas reais trazidas a cena pelos atores.

                “A Peça (em 4 Turnos)” revela-se uma reflexão sobre o compromisso que a arte, em particular o teatro, deve ter com as pessoas, a lembrar Brecht ou Sttau Monteiro. Por isso, em cena, há operários que, nas (escassas) horas livres, são atores – ou pretendem sê-lo. Para driblar a opressão. Para enfrentar a vigilância do Estado e da Igreja. Para contrariar a monotonia. Para se fazerem ouvir. Para poderem ser o que quiserem, tendo a ilusão de que, sendo outros, o mundo é mais justo e os dias menos penosos. Para acordarem e agitarem consciências. Para que as pessoas abram as cabeças. São operários de punho erguido, com “consciência operária”, como alguém refere na própria peça.

                Neste novo trabalho da Peripécia Teatro, entretecem-se fios de diferentes épocas e diferentes vozes. Nele, evocam-se as ditaduras de Salazar, de Franco e de Pinochet e os poetas, de cá e de além-mar, que os ditadores torturaram e mataram, mas não silenciaram, porque vivem na memória das gerações seguintes. “A Peça (em 4 Turnos)” é (ainda) sobre o nosso tempo, pois enquanto houver opressores e oprimidos não podemos deixar que a cortina se feche.


 

segunda-feira, abril 11, 2022

terça-feira, março 08, 2022

A propósito...

 Transcrevo para esta página um texto que escrevi esta manhã para ser publicado noutro espaço.

          O Dia Internacional da Mulher que hoje, 8 de março, se celebra, foi instituído pela ONU em 1977, para celebrar as conquistas e para homenagear as mulheres que fizeram um percurso de luta, no sentido da igualdade. Celebrar este dia na atualidade é também uma forma de lembrar que a meta ainda não está atingida, que há muitas batalhas para travar.

            Basta olharmos à nossa volta para percebermos que a mulher continua a ser, na maior parte dos casais, a principal responsável pelas tarefas domésticas e pela educação dos filhos. São as mulheres que, depois de um dia de trabalho, tratam não só da lida da casa, como são sobretudo elas que se assumem como encarregados de educação dos filhos, que vão à escola ou que faltam ao trabalho quando eles ficam doentes. São as mulheres que, quase sempre, abdicam das carreiras ou de certos sonhos, para os maridos ou os filhos possam concretizar os seus. A este propósito, recordo uma entrevista do escritor peruano Mario Vargas Llosa, em que ele dizia que não teria chegado onde chegou na sua carreira se a esposa não tivesse garantido a resolução das questões domésticas (prosaicas, mas necessárias!). De quantos sonhos abdicou ela?

            Apesar de todas as alterações à constituição, que preconiza que as mulheres devem ter maior representatividade na política e em cargos de chefia, a realidade mostra-nos que houve progresso, mas não aquele que seria o ideal.

            Socialmente, a mulher continua  a ser vista por muitos homens – e pelas próprias mulheres também! - como um ser incapaz de levar a cabo certas tarefas e uma presa fácil. Toda a mulher que ouse entrar sozinha numa oficina ou num bar noturno é olhada como um "elemento estranho" e alguém a quem é fácil seduzir ou enganar. Até a própria linguagem que se usa para condenar os comportamentos das mulheres é mais discriminatória, diminuitiva e, entre os homens, não raras vezes obscena.

            Diariamente, lemos ou vemos notícias que nos provam que a mulher continua a ser a principal vítima de violência doméstica e de outros tipos de crime.

            Nos últimos dias, quando nos ligamos aos meios de comunicação ou às redes sociais, deparamos com notícias e testemunhos de mulheres que fogem da guerra e que, tendo deixado os maridos na Ucrânia, procuram garantir a segurança dos filhos. São mulheres desesperadas, mas são, sobretudo, mulheres corajosas, que partem sem saberem aquilo que as espera no fim da linha, que chegam a países de acolhimento, como o nosso, sem conhecerem a língua e sem terem alguém ou um emprego que as espere. É principalmente para essas mulheres – mães, filhas, avós – que hoje dirijo a minha homenagem.

Feliz Dia Internacional da Mulher!

Termino com dois excertos do poema “Calçada de Carriche”, de António Gedeão, que é uma homenagem às mulheres.

 Luísa sobe,

sobe a calçada

sobe e não pode

que vai cansada.

Sobe Luísa,

sobe que sobe

sobe a calçada.

Saiu de casa

de madrugada;

regressa a casa

é já noite fechada.

 

[...]

 

Chegou a casa

não disse nada.

Pegou na filha,

deu-lhe a mamada;

bebeu a sopa

numa golada;

lavou a loiça,

varreu a escada;

deu jeito à casa

desarranjada;

coseu a roupa

já remendada;

despiu-se à pressa,

desinteressada;

caiu na cama

de uma assentada;

chegou o homem,

viu-a deitada;

serviu-se dela,

não deu por nada.

 

[...]


quarta-feira, dezembro 08, 2021

São assim as árvores


São assim as árvores: cúmplices e companheiras num aparente mutismo. Por vezes, sob o impulso do vento, esse agitador, sussurram-nos suaves melodias, outras parecem protestar de uma raiva desconhecida, agitando os ramos e as frágeis folhas.

São incoerentes as árvores: vestem-se quando o calor se avizinha e despem-se, atirando com fingida displicência a folhagem ao chão, quando o frio ameaça e, depois, se impõe.

São assim as árvores: generosas – e gratas - na partilha do fruto, da lenha e da sombra, numa obediência voluntária às necessidades dos homens.

Como anciãos experientes e sábios, as árvores falam-nos, sem voz que se oiça, do tempo, do que passou e do que há de vir.

São assim as árvores: monumentos de raízes no chão e de braços erguidos ao céu, agradecendo a chuva que as alimenta e o sol que as ilumina e revigora.
deep, 08/12/2021

domingo, novembro 28, 2021

Wattpad

 

Quando era miúda, gostava de ler. Como não tinha muitos recursos para comprar livros nem as duas livrarias da vila ofereciam uma diversidade de títulos apetecíveis, frequentava a biblioteca pública, uma sala da Gulbenkian, instalada no edifício da Câmara Municipal. Aliás, era nas traseiras desse mesmo edifício que estacionavam as carrinhas cinzentas da Biblioteca Itinerante.

Talvez por gostar de ler, nasceu em mim, quando frequentava o 9.º ano, a vontade de escrever uma espécie de conto, que ocupou todo um caderno de tamanho A5, de capa com um padrão de xadrez. Partilhava este gosto com uma colega com quem, no 10.º, competiria na leitura de todos os policiais de Agatha Christie e de A. A. Fair que havia na biblioteca.

Hoje, algumas adolescentes (só tenho conhecimento de raparigas) – fiquei a sabê-lo há dias – usam aplicações para ler e para escrever histórias, entre as quais o Wattpad. Ainda não fiz a inscrição, para me certificar da qualidade e do teor dos textos, mas não deixo de ficar satisfeita por saber que há, entre as novíssimas gerações, quem leia e quem escreva, num momento em que eu pensava que já não havia remédio. 

segunda-feira, novembro 15, 2021

O meu Outono







Não é lazer... é trabalho de fim-de-semana.

 

quarta-feira, setembro 22, 2021

Felicidades, muitas...

Um nascer do Sol em Trás-os-Montes e um poema para a ana e para a CC, que hoje estão de Parabéns.



Indago a forma definitiva do outono.
Um diálogo pode mudar a paisagem.
Fazer nascer um poema.
Criar obsessões.
Destruir emboscadas.
Cada instante é a metamorfose
de uma asfixia interior.
Confundo os caracteres e um imaginário
se revela numa iconografia fantástica.
Nas entrelinhas, um espectáculo de ironias
reitera entregas e recusas
como um dever por cumprir.
Graça Pires, Outono: lugar frágil, 1994

 

sexta-feira, setembro 10, 2021

Brilha o céu, tarda a noite

 


Mário de Carvalho, Um Deus passeando pela brisa da tarde