quarta-feira, dezembro 18, 2019

Memórias

Porque o Natal também se faz de boas memórias... 

Tu ignoras esse Natal
que persiste na minha memória
e me aconchega.
Falo desse Natal que é ainda o meu avô
a abrir a porta que dava para o cortinheiro
às manhãs frias.
Ou um santo António
a assomar numa nota de vinte escudos,
a cor e o aroma das tangerinas
e das laranjas, que se ofertavam ao menino.
O Natal em que a roupa dormia, gelada,
no estendal da varanda,
a chama e o calor da fogueira que procurávamos
depois da missa do galo, quando as luzes da aldeia
se apagavam.
Os almanaques do tio, o arroz doce da tia,
que repousava na sala que só se abria
para as visitas em dias de festa.
Foi num desses natais
que recebi o meu primeiro relógio.
A partir de então,
aprendi a voracidade das horas,
o efeito corruptor do tempo,
deep, dezembro de 2013

sábado, dezembro 07, 2019

Ecce homo

Desbaratamos deuses, procurando
Um que nos satisfaça ou justifique.
Desbaratamos esperança, imaginando
Uma causa maior que nos explique.

Pensando nos secamos e perdemos
Esta força selvagem e secreta,
Esta semente agreste que trazemos
E gera heróis e homens e poetas.

Pois Deuses somos nós. Deuses do fogo
Malhando-nos a carne, até que em brasa
Nossos sexos furiosos se confundam,

Nossos corpos pensantes se entrelacem
E sangue, raiva, desespero ou asa,
Os filhos que tivermos forem nossos.


Do poeta José Carlos Ary dos Santos, que nasceu num dia 7 de Dezembro (1937)

domingo, dezembro 01, 2019

Dezembro

Dezembro vem do latim “Decem”, que significa dez. O nome tem origem na posição que ocupava no antigo calendário romano. O décimo mês do ano.

Daqui.

Feliz Dezembro para quem passa.

terça-feira, novembro 12, 2019

Que deste Outono

Que deste outono,
Que se verte pelo chão
Em oiro e sangue,
Saiba colher o doce fruto
E agradecer o amor da terra
Que a meus pés se prostra.

Que nestes dias de sol morno
E luz macia
Não perca o trilho

Que há-de levar-me ao sul,
Ao mais íntimo de mim.

Que saiba perdoar o vento
Que, de mansinho, me despenteia
Os sonhos...

Deep, Setembro de 2012






domingo, novembro 03, 2019

terça-feira, outubro 29, 2019

sábado, outubro 19, 2019

14 anos

Há 14 anos, nascia este blogue. É estranho como parece longínquo e, ao mesmo tempo, tão próximo esse início. Desde então, conheci muitas pessoas, algumas das quais fora do espaço virtual. Todas, de uma ou de outra forma, contribuíram para que me tornasse uma pessoa mais rica.
Nos últimos tempos, a prosa dos dias tem-me roubado a disposição e o tempo para pôr esta "casa" em ordem e para ler assiduamente os blogues que costumava frequentar. Ainda assim, não penso desistir. 
Obrigada a todos quantos têm contribuído para que ainda haja, por aqui, paredes e tecto!

Junto à água

Os homens temem as longas viagens
os ladrões da estrada, as hospedarias,
e temem morrer em frios leitos
e ter sepultura em terra estranha.

Por isso os seus passos os levam
de regresso a casa, às vontades da infância,
ao velho portão em ruínas, à poeira
das primeiras, das únicas lágrimas.

Quantas vezes em
desolados quartos de hotel
esperei em vão que me batesses à porta,
voz da infância, que o teu silêncio me chamasse!

E perdi-vos para sempre entre prédios altos,
sonhos de beleza, e em ruas intermináveis,
e no meio das multidões dos aeroportos.
Agora só quero dormir um sono sem olhos

e sem escuridão, sob um telhado por fim.
À minha volta estilhaça-se
o meu rosto em infinitos espelhos
e desmoronam-se os meus retratos na moldura.

Só quero um sítio onde pousar a cabeça.
Anoitece em todas as cidades do mundo,
acenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos
onde o meu coração, falando, vagueia.

Manuel António Pina, Um sítio onde pousar a cabeça

terça-feira, outubro 01, 2019

domingo, setembro 22, 2019

Parabéns, parabéns!

Votos de muitos dias felizes para a ana e para a CC!
Abraços


(Um desenho da mana)

Para ser grande, sê inteiro: nada
        Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
        No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
        Brilha, porque alta vive.
14-2-1933
Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa.