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sexta-feira, junho 29, 2018

Fazer o quê?

«A vida diluí-nos o corpo e a memória, afoga-nos os sonhos, encaixa-nos na rotina, embrulha-nos as mãos, segura-nos os pés, finge que nos ama, finge que não é preciso lutar. Aprendi com o meu avô que ser feliz não é um direito, é uma obrigação. É preciso fazer tudo para ser feliz. Mas fazer o quê? Respirar. Marcar a hora de acordar no despertador. Deixar o coração bater. Pôr peixe a descongelar para o jantar. Regar as flores dos vasos. Levar o cão à rua. Passar uma camisa. Queimar um pau de incenso. Abrir uma janela. Espanar um tapete. Cortar o cabelo. Comer uma romã. Fazer o quê?»
Raquel Serejo Martins, A Solidão dos Inconstantes

quarta-feira, junho 13, 2018

Somos inverno

Somos só cansaço,
um cansaço velho, gasto, bafiento,
somos cansados incapazes de mudança,
sem memória da última dança,
do último beijo,
da palavra amor,
somos tempestades sem bonança,
somos o pior do outro,
assassinos de gestos de ternura,
assassinos de sonhos,
somos só censura, dentadura e ditadura,
somos serial killers,
somos inquilinos em processo judicial,
somos senhorios, somos gentios, somos doentios,
somos sempre Inverno,
somos sem chuva,
somos só gelo de congelador,
somos o frigorífico vazio,
somos as cadeiras à mesa vazias,
dois corpos na cama, dois montes de lixo,
duas lixeiras nos subúrbios da cidade,
a cama uma cidade entupida de trânsito,
vamos a lugar nenhum,
temos lugar nenhum,
a nossa tragédia, doméstica e particular,
e é Primavera, há canto de pássaros,
até no lixo nascem flores,
mas não nos tocamos, nem por acaso.


Raquel Serejo Martins

Surripiado do mural de Facebook da autora.

terça-feira, fevereiro 27, 2018

Já tinha saudades


Começou a cair pouco depois das 14h. Ainda não parou, apesar de ser agora menos intensa.

Trouxe-me à memória as palavras da Raquel:

«(...) tenho saudades da neve, tudo branco, limpo, frio, silencioso, uma pureza quase virginal que tudo cobre, que tudo envolve, que tudo cinge. Uma pureza líquida que torna terra dócil e macia a cada passo que damos, uma pureza que nos transforma em manchas, borrões, sussurros, burburinhos, sombras num cenário quase transparente, quase silencioso. Um silêncio estranho, um silêncio em que conseguimos ouvir bater o coração da terra.
Lembro-me que abria a janela, e ali ficava, tempos sem fim, a olhar para as marcas que as pessoas deixavam na rua, a olhar para as árvores, despidas e vestidas de branco (...). Nada era triste, talvez tudo um nada melancólico (...).
Fazia frio, um frio sólido e silencioso, mas todos estavam na rua e toda a gente brincava. Estávamos isolados do mundo, mas tão próximos uns dos outros.»

Raquel Serejo Martins, A Solidão dos Inconstantes

domingo, novembro 19, 2017

Não quero

Surripiado do mural de Facebook da autora:
Não quero enganar o tempo,
ser eternamente jovem,
mas envelhecer com calma,
ter raízes e folhas, ser lugar de fazer ninho,
abrigar pássaros, tão frágeis os pássaros,
dar frutos e beijos nas bocas que importam,
perceber como mudam as estações,
fazer as viagens sem pressa,
provar o vento, o mar, a neve, a chuva,
perceber as coisas simples,
as mais difíceis de perceber,
o mistério do amor, da amizade,
dos olhos o brilho e dos sorrisos involuntários.
Não quero ser o primeiro da fila,
um atleta de competição, um funcionário modelo,
não preciso de muitas coisas nem de muitas certezas,
que nas minhas costas, a somar ao lirismo, digam
que não ando em cardume,
que sou uma pessoa decente,
uma pessoa de poucos vícios,
tabaco, livros, discos, gatos, sapatos, amigos,
das que despreza a avareza,
que se comove com a bondade,
com o invisível da beleza,
com a ignorante inocência da adolescência.
E não quero ter vergonha
da minha inexplicável tristeza,
de chorar demasiadas vezes,
de esconder do avesso a dor,
das minhas dúvidas e das minhas dívidas,
de cumprir o que prometo,
do meu perene cansaço,
de me vestir em frente a um espelho,
de perceber o peso das palavras,
de não ter quase nada para dizer,
do tamanho do meu silêncio,
de andar contigo de mãos dadas na rua,
de ter de mim tamanha saudade.

Raquel Serejo Martins

domingo, fevereiro 12, 2017

Trabalhos de ourives


Maluda, "Romã", 1984
O amor era o avô
a descascar uma romã
para a avó.
As mãos trémulas,
inexactas,
o vagar do mundo
ou mundo devagar.
A tarde inteira uma romã
ou uma romã inteira.
Enquanto a avó na mesma sombra ao seu lado,
gato no regaço, dormia a sesta.


Raquel Serejo Martins, Aves de incêndio

terça-feira, janeiro 17, 2017

À sombra do vulcão



Às vezes o coração é um vulcão em sossego,
as horas dos dias passam a medo
mas levantas-te cedo, cumpres a rotina
e acabas a noite, com a televisão ligada,
a dormir no sofá da sala.
Às vezes o coração é um vulcão em erupção,
a solidão enche tudo, a lava lava, a cinza ofusca,
cada dia uma guerra etrusca,
e acabas a noite sem dormir
numa cama qualquer.

Surripiado do mural de Facebook da autora, a Raquel Serejo Martins

domingo, novembro 20, 2016

Flores de domingo

Limpou o pó,
espanou os tapetes,
aspirou e passou a esfregona,
pelas madeiras passou cera,
fez a cama de lavado,
lavou os vidros das janelas,
os espelhos,
o candeeiro do tecto da sala,
o fogão e o forno,
o boião aquário com dois peixes,
mudou a areia da caixa do gato,
regou as plantas nos vasos,
cortou as folhas secas,
fez uma sopa para a semana,
comeu um prato de sopa,
saiu de casa para tomar café,
o seu único vício,
mentira, café, arrumações e limpezas,
de regresso a casa comprou flores,
uma extravagância,
um ramo de flores que pagaria os cafés de um mês inteiro,
pois é, pensou, a relevância do dinheiro,
e enquanto arrumava as flores,
tão competente que podia ter sido florista,
não sabe mas seria uma florista feliz,
não admite mas é uma contabilista triste,
uma a uma, as horas de um dia, duas dúzias,
deu por si a pensar
se conseguisse arrumar o coração
como arruma a casa
podia dizer que era feliz.

Raquel Serejo Martins

Surripiado do mural de Facebook da autora.
Apesar de o meu domingo ter sido bem diferente, em boa companhia.

sábado, outubro 29, 2016

Aves de incêndio


Se estivesse por perto, também ia...



Old habits die hard

Depois ficamos velhos,
percebemos que o tempo um instante
que nada de novo a jusante,
que terminou a viajem do elefante.
Old buddies com um coração a boiar no corpo,
em razoável estado de conservação,
como se diz das casas usadas para venda,
ou comestível,
como os de vaca no talho,
olhar vítreo de rodovalho
uma solidão de espantalho,
constantemente a precisar de agasalho
ou de não mais que um abraço.


Raquel Serejo Martins, Aves de incêndio, poética edições

terça-feira, setembro 06, 2016

Banquete

Deixei o meu coração no forno,
é só aqueceres e tens jantar.
O que sobrar dá ao gato.
Eu sempre gostei do gato.

Raquel Serejo Martins, Aves do incêndio

domingo, setembro 04, 2016

Acerca de aves que (se) incendeiam

Eunice de Souza, uma poetisa goesa, refere, no título de um dos seus poemas, “Don´t look for my life in these poems”, ou seja, “Não procures a minha vida nestes poemas”, na tentativa, talvez, de manter longe dos olhares alheios a sua intimidade ou para que o leitor se distancie da mulher, do ser humano, e possa ver apenas o poeta-ficcionista, aquele que, como um romancista, fabrica personagens, intrigas e emoções.

Na verdade, ainda que o poeta procure, como escreveu Pessoa, ser um “fingidor”, isto é, aquele que dá forma às palavras, como o oleiro dá forma ao barro, assumindo-se, como o romancista, um construtor de ficções, não lhe é de todo possível higienizar o poema, libertando-o das suas vivências ou crenças.

A poesia da Raquel não é excepção. Porque recupera memórias, em particular da infância - de um tempo anterior à descoberta do amor e da saudade - e da juventude, bem como referências musicais, literárias, bíblicas, mitológicas, etc., torna-se imensamente rica, enriquecendo quem dela usufrui, como neste "Trabalhos de ourives":

O amor era o avô
a descascar uma romã
para a avó.
As mãos trémulas,
inexactas,
o vagar do mundo
ou mundo devagar.
A tarde inteira uma romã
ou uma romã inteira.
Enquanto a avó na mesma sombra ao seu lado,
gato no regaço, dormia a sesta.

ou em "Aves de incêndio":

E a dançar
chegou a tarde do nosso adeus,
uma tarde igual a todas as tardes
sem nuvens no céu ou ameaças de chuva,
apenas levemente mais fria,
porque já Outono
e nós aves de uma só estação,
aves de incêndio.


Nos poemas que integram Aves de Incêndio há versatilidade - na forma, nos temas, na linguagem -, sendo por isso capazes de surpreender o leitor a cada novo texto. Em quase todos eles, intuímos um “eu” lírico que veste, ao mesmo tempo, o papel de narrador, que se assume quase sempre como protagonista ou que partilha, com um interlocutor, esse protagonismo ou que, à semelhança de Reis ou de Horácio, lhe dá conselhos:

Aproveita todos os crepúsculos
obriga-te ao encanto
preserva o pasmo, a virtude do entusiasmo, 
e a curiosidade dos gatos.

("Chá-dançante")

Take a bike,
take a plane,
take a chance,
go to France,
find a fine romance.

("Like a couple of hot tomatoes" - título recuperado de uma canção interpretada pela Ella Fitzgerald)

Das palavras da Raquel emana uma certa rebeldia, que parece estar em dissonância com a pessoa serena que conhecemos, mas que se percebe desde logo no título da obra – Aves de incêndio. Este título parece ser a expressão de alguém que não se resigna com a sua condição de “bicho” terreno, que precisa de asas para se elevar do chão, do comum. Não é, contudo, uma ave que se quer exuberante. O voo que pretende executar não é de exibição, mas de liberdade, através do amor ou das memórias.


“Aves de incêndio” são os amantes, predispostos aos primeiros voos e ao incêndio dos sentimentos, ora regeneradores, ora destrutivos, dos quais sobra a amarga lembrança ou as cinzas.

Um amor velho e seco
como uma giesta,
folha de ervário,
corolário de todos os que o seguiram,
porque o amor quando acaba,
no âmago do coração quieto,
fica sempre amargo.

(Excerto de "Primeiro amor”)

Esta rebeldia exprime-a também no poema “1. Poema verde” (pág. 7), em que evoca o “Romance Sonambulo de García Lorca e no qual o “eu” poético, numa atitude irreverente a lembrar Régio ou Pessoa – Álvaro de Campos, rejeita as convenções, a “normalidade”, o caminho que um interlocutor, que pode ser singular ou plural, procura impor-lhe:

Não me peças para amadurecer
que não sou peça de fruta,
sou peça de outra engrenagem,
e a vida não é árvore nem fruteira.

ou na recusa da poesia e a entrega deliberada aos gestos prosaicos, num poema, que recupera, pela repetição das palavras de “Fim”, a ironia corrosiva de Mário de Sá-Carneiro:


Hoje estou-me nas tintas para a poesia,
quero apenas uma cerveja fria
e companhia.
Pode ser de um burro,
patudo, orelhudo
e obviamente ajaezado à andaluza.

(Poema 76.)


Na escrita poética da Raquel, como, aliás, na prosa, são recorrentes temas como o amor, o apego a Trás-os-Montes e às memórias da infância, o desencanto com o estado do país ou o peso da rotina.
O amor é, muitas vezes, um ritual iniciático, que prepara, ainda de forma inocente, a idade adulta. Ele pode significar doçura, cumplicidade, partilha, mas também é motivo de desencontros, desencanto e de dor.

Trás-os-Montes (T-o-M) são as raízes, o colo, o apelo telúrico, cantado tantas vezes por Torga que, como a Raquel, era um ser do campo emprestado à cidade (talvez a Raquel se sinta menos esse ser “emprestado”, considerando que hoje vivemos num mundo global).
T-o-M  são também a infância feliz, de um tempo anterior à dor, do tempo sem tempo, em que tudo parecia possível e ter uma saída, como escreveu Ruy Belo. Pelo contrário, para o “eu” lírico o presente representa a dor, o vazio, a solidão, a falta de rumo. No presente, é ainda ave, uma ave que desistiu de voar:

Com o tamanho
da minha solidão
fiz um elefante.
O maior mamífero sobre a terra.
E o meu elefante vai 
em passo pesado e lento,
a mesma pele espessa e parda,
incisivos de marfim,
peugadas redondas,
quase lunares.
Vai sem perigo de extinção,
cheio de solidão,
indistinguível na manada.

(Poema 72.)

Podia ser índio, pirata, astronauta,
todos os sonhos em embrião,
a vida no princípio e cheia de tesão.
Conhecia todos os animais da rua
e não havia sinais de trânsito
nem relógios a prender os meus gestos.
(...)
As mãos sempre sujas,
as amoras negras,
o pão escuro,
o cabelo curto
e ninguém sabia se eu era menino ou menina.

("Da invisibilidade dos camaleões")

sexta-feira, agosto 26, 2016

Aves de Incêndio

A Raquel Serejo Martins, de quem já tive a honra de apresentar Pretérito Perfeito, tem um novo livro, desta vez de poesia. A autora e a editora, Virgínia do Carmo, da Poética Edições, dirigiram-me um convite que muito me honra: apresentar Aves de Incêndio em Trás-os-Montes. A apresentação terá lugar amanhã, na Biblioteca Municipal de Alfândega da Fé, e integra o "VI Encontro de Escritores Transmontanos". 
Se estiverem por perto, não deixem de aparecer!

Deixo-vos o programa e o primeiro de muitos poemas.


1. Poema Verde

Não me peças para amadurecer
que não sou peça de fruta, 
sou peça de outra engrenagem, 
e a vida não é árvore nem fruteira. 
Depois ninguém sabe o que é a vida, 
a vida vai-se fazendo, 
ou vai-se sem mais, 
sem chegar a ser inteira. 
E eu quero continuar verde 
como o mar, 
verde como um poema de Lorca, 
verde como o verde dos meus olhos, 
verde apesar do comprimento dos dias, verde 
às vezes de raiva, que com duas patas 
também se pode ser cão, verde 
por saber o que é a tristeza 
e a inutilidade da alegria ao ponto de cortar os pulsos, 
mesmo quando temos vários corações a bater fora do  
                                                                          [corpo.

Raquel Serejo Martins, Aves de Incêndio, Poética Edições


quinta-feira, dezembro 10, 2015

Resposta às tuas e às minhas perguntas

A propósito da "Desiderata", a Raquel partilhou comigo o link para este texto tão bonito, que a própria escreveu.

Sê nómada.
Não tenhas medo de leões nem de professores de matemática.
Todos os dias come um pouco de sol e um pouco de verde.
Planta várias árvores.
Sobe às árvores mas não apoquentes os pássaros nos ninhos.
Deixa o sol entrar mesmo se tiveres de fechar os olhos.
Preserva a transparência e o silêncio.
Usa barbatanas porque debaixo de água podes voar.
Lê muitos livros e joga ping-pong.
Lê a Mafalda do Quino e o Corto do Pratt.
Embarca em todas as viagens dentro e fora do teu corpo.
Atenta nas cores do Outono. Novembro também é um mês bom.
Procura todos os dias uma pequena alegria e se não encontrares nenhuma dança.
Chora sem medo e em casos de incêndio.
Bebe chá sempre com companhia, pelo menos de um gato.
Se tiveres tempo tem um cão.
Podes comer chocolate todos os dias se tiver no mínimo 80% de cacau.
Aprende a gostar do vento, de favas e de ópera. São muitas as coisas de que não se gosta à primeira e há músicas antigas de que vais gostar muito mais.
Separam-nos quase quatro décadas e, quando tiveres a minha idade, se eu ainda existir, não te esqueças de me contar o que sentes dentro do corpo, à flor da pele e debaixo dos pés, sempre que ouves os Verdes Anos na guitarra do Carlos Paredes.
Não abuses de ti nem de ninguém.
Descobre o significado íntimo das palavras.
Tenta aprender todas as línguas do mundo.
Sê estrangeiro de ti.
Sê tenaz no amor mas não insistas no amor nos corações errados.
Sê o que quiseres, com a condição de seres feliz.
Por definição desliga a televisão.
Tem noção que não precisas de matar para viver, basta plantar e semear, todavia treina e mantém afinada a pontaria.
Respeita a lentidão das lesmas.
Experimenta pintar, e se como eu fores mesmo mau mas te der prazer, pinta e está-te nas tintas para os outros e para o resultado.
Como regra: não percas tempo, anda depressa mas respira devagar.
Percebe, a cada segundo, a velocidade a que bate o teu coração.
Guarda que a única coisa que é para sempre é morrer.
Urgente é apenas a alegria, o amor e a ferida.
Diz que não gostas quando não gostas.
Nunca te esqueças da delicadeza e que uma pedra é uma pedra é uma pedra.
Olha que a esperança nem sempre é uma menina de confiança e desistir pode ser uma grande vitória.
Evita viver a crédito, não te permitas ser refém de meros objectos e grava, escreve na mão para lembrar, tatua se necessário, que não há coisa de maior preço do que o teu tempo.
Procura a companhia dos teus poetas preferidos.
Faz amigos sob a condição do encanto e da ternura.
Não acredites em muitas coisas inexplicáveis.
Desculpa as asneiras dos teus pais, tu sabes mais.
E espero, eu sentada à tua espera, que nunca falte aos dias dos meus olhos o barulho do teu sorriso.

Raquel Serejo Martins

terça-feira, novembro 04, 2014

Personagens cúmplices

Embora seja um lugar comum dizer-se que os livros são boa companhia, que são amigos indispensáveis, só há dias tomei verdadeiramente consciência de que, quando leio, também o faço para me sentir mais acompanhada. Não são concretamente os livros, ou as histórias narradas, que me servem de companhia, mas as personagens.
Nas minhas últimas leituras - A invenção do amor, de José Ovejero, e Elegia para um americano, de Siri Hustvedt, os narradores, que assumem, simultaneamente, os papéis de protagonistas, são homens que vivem sós, o primeiro (Samuel) solteiro, o segundo (Erik) divorciado. Leio as suas narrativas, adivinho-lhes as vozes e imagino como seria assumir o papel da vizinha ou amiga, que partilha confidências e reflexões, no terraço de Samuel, com vista sobre Madrid, ou na sala da casa de tijolo vermelho de Erik, numa zona residencial de Nova Iorque. 
Recentemente, cedi aos encantos de Vasco, o narrador autodiegético de Pretérito Perfeito, da Raquel Serejo Martins, e noutros tempos, aos de Holden, o protagonista do The Catcher in the Rye, de J. D. Salinger, sobre o qual escrevi recentemente, e de Larry, personagem principal de O Fio da Navalha, de Somerset Maugham. O primeiro encantou-me, talvez, pela fragilidade e pela aura de bom rapaz, o segundo pela irreverência e pela imaturidade, o terceiro pelo desejo de liberdade e pela personalidade misteriosa.
A cumplicidade que estabelecemos com as personagens não finda com o fim das leituras. Há personagens que nos acompanham ao longo dos anos e que, em certa medida, nos transformam. Porque nos espelhamos nelas e nos colocam num frente a frente com os nossos fantasmas, porque são aquilo que desejaríamos ser, porque sentimos que, em certas alturas,são as únicas "pessoas" capazes de nos compreender.

terça-feira, abril 22, 2014

Experiências gratificantes


Além dos dias de lazer que me concedi, em que assumi o papel de turista na capital e na Invicta (aqui apenas de passagem), dos telefonemas e das mensagens dos amigos e familiares, dos presentes, do bolinho feito pela mana e do almoço confeccionado pela mãe, apresentar o livro da Raquel Serejo Martins - Pretérito Perfeito - constituiu uma bela e gratificante oferta de aniversário.

(A foto foi uma gentileza da mana.)

quinta-feira, abril 17, 2014

Pretérito Perfeito


Há algum tempo, depois de ter lido Pretérito Perfeito, da Raquel Serejo Martins, e de ter escrito uma nota aqui no blogue, recebi um convite da própria autora, que muito me honra: fazer a apresentação da obra na livraria Poética, em Macedo de Cavaleiros.
Confesso que fiquei, simultaneamente, surpreendida e assustada. Ainda que os livros façam parte do meu mundo, como pessoa e como profissional, assumir a responsabilidade de apresentar um livro que li e que está nas prateleiras das livrarias, das maiores às mais pequenas, das que têm nome sonante às mais familiares, não deixa de me causar um friozinho na barriga.
Se puderem, apareçam para uma conversa com a autora, no próximo Sábado, pelas 15h30. Certamente não se arrependerão.

quinta-feira, dezembro 05, 2013

T-o-M

«O silêncio de uma noite de Inverno em Trás-os-Montes é inexplicável, é irreproduzível.
E dentro do silêncio os sons perfeitos.
O som da lenha que arde e crepita nas lareiras, a canção do fogo que conheço desde a infância, o som do gato que se espreguiça, o som dos passos em pantufas, o som de um fósforo que se acende, o som da chaleira, do ferver da água para fazer chá, de cidreira (...).»

«Zero graus, tudo congelado, os sons, as estrelas no céu, as roupas nos estendais, porque congeladas, consistentes como bacalhaus a secar ao sol, o bafo das chaminés e das bocas, os vidros embaciados, a luz dos candeeiros da rua, dos faróis dos quase nenhuns carros que passam.»

Raquel Serejo Martins, Pretérito Perfeito

terça-feira, novembro 26, 2013

Pretérito Perfeito (II)

Não sei com precisão há quanto tempo me tornei cúmplice de Vasco, a personagem central e narrador de Pretérito Perfeito, o último livro da Raquel Serejo Martins. Talvez tenha sido há um mês, talvez mais. Não que não goste do livro. Pelo contrário. Outras leituras - estas obrigatórias - têm-me permitido apenas um convívio espaçado com o Vasco, um homem de 33 anos, que tem da tenra juventude e da infância as memórias mais acesas, um homem que carrega a inocência dessas vivências e a fragilidade de alguém que sabe que tem os dias contados. Talvez por isso o sintamos, não homem, mas menino.
É pela voz do próprio Vasco que, desde as primeiras páginas, entramos na sua casa e seguimos até ao terraço, onde nos sentimos a salvo, na hora em que o sol se põe sobre o Tejo. São também as palavras deste homem-menino que nos conduzem pelo Outono de Lisboa ou pelos bares da moda de outros tempos, ou por outros lugares que a sua cultura e curiosidade evocam.
À medida que a narrativa se tece, uma vezes num estilo torrencial, outras ritmado, quase musical, tornamo-nos cúmplices de Vasco. Cúmplices das memórias, do seu quotidiano e - muito - da sua dor, do desespero, do vazio. Vasco deixa de ser, a certa altura, apenas a personagem, para ocupar o lugar do amigo de infância que, para nós, nunca deixa de ser menino e que não queremos perder. Chegamos, por isso, a desejar que os médicos se tenham enganado.

Pretérito Perfeito (I)

«Para que serviu a minha vida? Pergunto-me e não sei responder. Por mais que pense, não sei responder.
Com certeza, apenas sei dizer que tentei ser feliz e que acho que nunca fiz mal a ninguém e mesmo assim, melhor salvaguardar a afirmação enxertando entre vírgulas, depois do nunca, a palavra conscientemente, porque no fundo nós não sabemos o que fazemos aos outros, em bom rigor só conhecemos a nossa intenção no fazer e mesmo nisso somos tantas vezes cínicos e fáceis a convencer-nos que as nossas intenções são obviamente as melhores intenções, que não podiam deixar de ser as melhores intenções, depois, os resultados, em regra, são incapazes de revelar a qualidade das intenções, ou não fossem as melhores intenções causadoras das maiores desgraças, dos maiores desastres, depois, dizem que de boas intenções está o inferno cheio.»

Raquel Serejo Martins, Pretérito Perfeito

segunda-feira, março 25, 2013

Nem sempre é assim


«(...) mas a solidão também vicia. Uma solidão que nos faz perder a paciência para quase tudo e quase todos.»

«Sinto-me areia. Areia depois do mar. As pessoas. As mãos. Os sorrisos. As conversas. Os pés. Os dedos. Tudo passa por mim. Tudo deixa marcas. Marcas profundas que se afundam pele dentro, que se enterram no meu corpo. Chegam a magoar. Deixam cicatriz. Fazem tatuagens. Depois mirram, acanham-se, contraem-se, desaparecem. Abandonam-me. Perdem-se no oceano imenso, nesse mar, que sem amor de amar, porque é só mar, só água e sal e mais nada, leva para longe o meu passado, arrebatando, apagando tudo o que me toca.»

Excertos de A Solidão dos Inconstantes, de Raquel Serejo Martins, cuja leitura está a escassas páginas do fim.

sábado, março 16, 2013

Às vezes...


(Rio Sabor)

«Às vezes estou tão à toa que não passo de um rio à procura de um lugar para desaguar. Para desaguar a tristeza, a melancolia e a solidão, que meto dentro de uma garrafa, fecho cuidadosamente, atiro para longe e espero que vagueie à deriva em alto mar, sem nunca chegar à palma de uma mão (...).»

Raquel Serejo Martins, A Solidão dos Inconstantes