Vou à varanda tirar alguma roupa, que resseca sob o sol intenso, do estendal e oiço - não posso deixar de ouvir - a vizinha do lado, enfermeira, que conversa com alguém ao telefone num tom audível em toda a rua. Dos fragmentos, ficou-me "Entretanto, fiquei com esta tosse. Vamos ver no que isto dá.". Antes disso, ouvi-a comentar que tencionava ir comprar alguns alimentos para ter em casa e, antes ainda, a subir e a descer as escadas do prédio, que não tem elevador.
O medo e a dúvida instalam-se em mim: será seguro ir visitar os meus pais, como costumo? Não temo por mim, mas temo muito por eles, ambos com 80 anos. Temo pelo meu irmão, que trabalha num serviço de saúde. Temos por todas as pessoas vulneráveis, conhecidas e desconhecidas.
Sinto, há dias, uma impressão de estranheza. Fui caminhar com uma amiga, depois de jantar alguns dias. Percebemos que o número de pessoas nas ruas, a caminhar, reduziu drasticamente. Comparo este silêncio aquele que se "ouve" nas noites em que neva. Nessas noites, há algo de mágico, pelo manto branco que tudo cobre, mas há também algo de "trágico", que causa apreensão por sabermos que estamos mais isolados e que, numa situação de emergência, será difícil prestar socorro a quem precise dele. Na situação que vivemos actualmente, há só esta impressão de "trágico"... nada de mágico.
Ontem, no programa "Governo Sombra", Ricardo Araújo Pereira dizia haver no ar "uma impressão de fim do mundo". Não é tanto. Esperemos que não seja.