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quarta-feira, outubro 24, 2018

De volta aos piercings e aos bordados

Li, "de raspão", que a Fernanda Câncio ridicularizou, nas redes sociais, a Dina Aguiar pelo facto de esta ter o hábito de se despedir diariamente dos espectadores com um "Até amanhã, se Deus quiser". Não sei se a Dina Aguiar é crente (suponho que o seja) e se a expressão decorre dessa crença ou se é um automatismo de alguém que, tendo, como eu, uma origem rural e de província, interiorizou essas e outras expressões. Eu não uso a expressão e é muito raramente que vejo o programa, mas, nas poucas vezes que o vi, não reparei nesse hábito da apresentadora, talvez porque tal não me provoque urticária. 
Podemos sempre advogar que o canal é público e laico, mas talvez não tenhamos o direito de impedir que a apresentadora "denuncie" publicamente a sua crença.
Quanto às palavras e à atitude da Fernanda Câncio entendo-as como um sinal de pouca tolerância e da arrogância de alguém pensa que só somos cultos se formos urbanos e citadinos e que Portugal se restringe à capital.
Este episódio, com contornos de fait-divers, lembra-me um texto que escrevi há tempos e leva-me, de novo, ao conceito de "tolerância". Talvez eu própria esteja a ser pouco tolerante com uma das partes...

segunda-feira, julho 23, 2018

Cumplicidades


Um dia, deu-se conta de que é um espírito rebelde. Não conseguindo libertar-se de regras, convenções e obrigações, sejam legais, sociais ou sentimentais, fá-lo através da leitura. Talvez não seja coincidência o facto de se ter apaixonado, primeira na adolescência, e depois na transição desta para a a idade adulta, por personagens que procuram, pela aventura ou pela errância, ir contra as convenções. Quem sabe se Holden, de The Catcher in the Rye, ou Larry, de O Fio da Navalha, e outras personagens das quais se foi, ao longo de décadas,  tornando cúmplice, não são o seu alter-ego, que não sabe outra forma de se exprimir?

sábado, junho 30, 2018

Para a eventualidade de

Ela foi coleccionando, como toda a gente (supõe), uma lista secreta de músicas românticas, para a eventualidade de aparecer alguém com quem possa ouvi-las e, quem sabe, dançá-las.
Felizmente, há músicas que têm esse carácter das coisas eternas.

domingo, abril 22, 2018

Suposições

Aquilo que na ficção são segundas oportunidades que o Universo, a conspirar, dá às pessoas, na realidade não passam de coincidências.


sexta-feira, abril 20, 2018

Jamais se detém Kronos

A mulher que está a 363 dias de completar 50 anos olha-se ao espelho e sabe que o tempo não perdoa. Há dias, contudo, em que se sente ainda, apesar das rugas, do cepticismo e dos recentes cabelos brancos, a adolescente dos anos 80, insegura e insatisfeita, que adorava música e longas conversas com as amigas.

terça-feira, novembro 28, 2017

Apaziguar a alma


"Fumo" de Miguelanxo Prado

Protege a cabeça com um gorro de lã e as mãos com luvas. Deixa a cara descoberta. Gosta de sentir no rosto este frio cortante que anestesia a ponta do nariz. (Castigar o corpo para esvaziar e apaziguar a alma.) Os pés, enfiados numas sapatilhas, cumprem diligentes a caminhada, enquanto a conversa flui com as companheiras. Passa pouco das 21h, mas, no percurso correspondente a 1 hora, não vêem vivalma. Homens e animais refugiam-se no calor e no conforto das habitações, incapazes de suportar a frio que começa a pôr sobre os tejadilhos dos carros uma camada de gelo fina e brilhante.

sexta-feira, novembro 24, 2017

Fui despedir-me


Fui despedir-me de ti. Não de ti, na verdade. Fui despedir-me da tua forma física.
Vesti uma túnica azul céu e pus sobre ela um lenço com pequenas flores a lembrar o campo.
Comprei-te um ramo de margaridas, uma das tuas flores preferidas. Por ser feriado, havia menos lojas de flores abertas, por isso não encontrei as amarelas, só brancas. Um ramo simples, sem enfeites nem etiquetas. Que importa que os outros saibam que tas ofereci? Isto fica entre nós, como as longas conversas que tivemos durante anos e que, muitas vezes, à distância, apaziguaram a tua e a minha solidão.
Acautelei, no bolso, não fosse alguém lembrar-se de programar uma tertúlia para a despedida, um estreito volume com a poesia de Caeiro. Sei que o teu eleito era o Campos, mas que também nutrias pelo Mestre alguma simpatia.

Fui despedir-me de ti no outono, quando era suposto haver folhas secas no chão.

Um devaneio escrito, no dia 5 de Outubro, em homenagem a um amigo, e que hoje dedico também ao Pedro Rolo Duarte, que, não sendo um amigo, era alguém que respeitava e cujas crónicas costumava ler também aqui.

sábado, junho 03, 2017

Anónima e silenciosa


Pintura de Graça Morais

Os vários filhos e netos saíram da igreja, na frente do cortejo, amparados pelos  respectivos companheiros. Cada um entregue à sua dor. No meio da multidão (ele era um senhor conhecido e respeitado), atónita e curvada, seguia a companheira de muitos anos (mais de meio século), guiada pela mão diligente do funcionário da funerária, que a segurava pelo cotovelo esquerdo. Seguia, como sempre fez, anónima, silenciosa e discreta até na dor.

domingo, abril 30, 2017

Talvez tenha de ser assim

Há momentos em que sentimos mais que as pessoas à volta de afastam. Percebemos que, nalguns casos, não há retrocesso. Nunca, como nos últimos tempos, vi tanta gente afastar-se. Aos poucos, ficam apenas os amigos mais antigos e, ainda assim, nem todos, Felizmente, com a idade, tornamo-nos mais resistentes às perdas.

sábado, março 25, 2017

Era bom, era

Dizem-lhe que está igual. Dizem-lhe que os anos não passam por ela. O espelho costuma dizer-lhe o contrário. Os vincos multiplicam-se no seu rosto. A um ritmo pouco acelerado, é certo. Os cabelos brancos começam a surgir, espetados, por entre a cabeleira castanha. As roupas, um pouco mais largas, afiançam-lhe que as pessoas mentem. Porque são simpáticas - ou querem parecê-lo. Porque não encontram outras palavras para gastar os minutos ou segundos que distam do encontro à despedida. Ou talvez as pessoas, essas que lhe dizem, com um sorriso, aparentemente franco, que está igual, tenham uma visão distorcida pelo tempo que passou e, por isso, já não se lembrem de como ela era há anos.
É certo, porém, que há dias, como hoje, em que se sente mais jovem, em que esquece a idade e os estragos que esta e a falta de cuidado foram operando em si. Talvez seja dos ténis que há dias se ofereceu e que usa até no local de trabalho, ou do anoraque com capuz debruado a pelo, igual ao de algumas adolescentes que conhece. Ou talvez seja só uma vontade grande de não envelhecer que os outros, os que lhe dirigem comentários elogiosos, vêem nela.

sábado, março 11, 2017

Dentro de uma bolha

Coloca os auscultadores sem fios que comprou há dias, irmana-os com o telemóvel. Procura um álbum de Karunesh no Youtube e, enquanto se entrega às tarefas de casa, sente-se dentro de uma bolha onde só ela cabe.


quinta-feira, março 09, 2017

Também eu


... conheço algumas,

da geração dos meus pais, que viveram e ainda vivem para a família, que são, como a avó Josefa do Saramago, traves da casa, silenciosas e resignadas.
Por vezes, oiço os filhos elogiar-lhes a força, o sacrifício de uma vida, mas são os mesmos que continuam a ocupá-las para que eles possam ter uma vida mais confortável e de certos mimos que só as mães sabem fazer daquela maneira. Os mesmos que lamentam a sorte dessas mulheres não são capazes de um gesto generoso que as liberte e as faça sentir mais do que escravas dos maridos, dos filhos, dos netos, da casa.
Infelizmente, apesar de vivermos em pleno século XXI, num país supostamente evoluído, convivo com mulheres da minha geração que, exercendo uma profissão, que lhes ocupa tempo fora e dentro de casa, continuam, em certa medida por opção, porque não souberam dizer «não» a tempo, a ser escravas da casa, do marido, dos filhos. São mulheres "modernas", que se preocupam com a aparência, que vestem de forma juvenil, que tomam café com as amigas a correr, porque em casa as espera um cesto de roupa para passar ou o jantar para fazer. São essas mulheres que se lamentam que surpreendo, não raras vezes, a apontar o dedo àquelas que procuram ter uma vida diferente e que "têm a sorte" de que os maridos as "ajudem". Nem umas têm azar, porque, frequentemente, são responsáveis por esse "azar", nem as outras têm sorte, têm só aquilo que deveria ser tão natural que não merecesse comentários e reflexões ou a necessidade de se celebrar um Dia da Mulher.

terça-feira, fevereiro 21, 2017

Pequenos desafios


(Sarah-Jane Szikora)

Executar tarefas que nos empurram para fora da zona de desconforto da rotina pode ser muito gratificante. Ainda que essas tarefas nos roubem horas ao sono e ao lazer . Ainda que significam responder mais cedo ao apelo do despertador e a conceder, sem qualquer tipo de gratificação. horas extraordinárias à entidade patronal.
Protesto, barafusto, discordo, mas, na hora H, quando me propõem um desafio, por pequeno que seja, não consigo dizer «Não». Sempre pelo desafio.

sábado, fevereiro 18, 2017

Paradoxos

Preciso de pôr trabalho em ordem. O silêncio desconcentra-me. A música ajuda-me a manter a concentração. As melodias ritmadas e mais alegres distraem-me. As melancólicas permitem-me a abstração, mas entristecem-me. Não está fácil...






sexta-feira, fevereiro 10, 2017

O mau da fita


És agora, oficial e efectivamente, o "mau da fita" de um filme de péssimo argumento e de piores desempenhos. A mim coube-me o papel mais difícil, a ti o pior desempenho.
Há actores assim, como tu, desleixados, que não estudam os papéis, nem sabem estar em sintonia com a forma de actuar dos companheiros com os quais contracenam. Há actores assim, como tu, a quem faltam a generosidade e a argúcia para salvar os piores argumentos. Há actores assim, como tu, que iludem, com palavras balofas, qualquer realizador experiente e que, em acção, se revelam uma fraude.
E, não, não foi por causa de uma Rita qualquer que tudo começou. Foi só por tua causa, don-Juan-de-nem-trazer-por-casa, que tudo acabou.

quarta-feira, fevereiro 01, 2017

Only you




... é a música que oiço na Radar FM, enquanto adianto, lentamente, algum trabalho. Na escada, os miúdos da frente, de 9 e 6 anos, fazem o alarido costumeiro e perturbam a minha paz.
Entretanto, a voz da Beth Gibbons deu a vez a David Sylvian. Nada má esta selecção da Radar, talvez um pouco melancólica para quem acordou cinzenta como o dia e adoentada, o suficiente para ficar em casa, algo raro em mim.

terça-feira, janeiro 31, 2017

Cadernos



Não colecciono apenas cacos e marcadores de livros, também tenho um certo fascínio por cadernos, por isso, de vez em quando, lá vem mais um ter comigo. Os dois representados nas fotos, de má qualidade (as fotos, não os cadernos!), são as últimas ofertas. Um bem haja a quem mos ofereceu!
O primeiro, adquirido no Louvre Michaelense, exibe, na capa, um desenho da minha irmã, através do qual se publicita uma das especialidades da casa, "O segredo", um bolo de chocolate. O segundo, que, na verdade, é o primeiro, porque está comigo há mais tempo, começa hoje a fazer-me companhia assídua, no registo dos meus "devaneios". Espero poder enchê-lo de sabedoria!

Insubstituíveis

Costuma dizer-se que não há ninguém insubstituível. Considero que nem sempre é verdade. Podemos ser facilmente substituíveis numa função, mas não como pessoas, porque, passando o cliché, somos seres únicos e, nesse sentido, insubstituíveis. Tal, contudo, não quer dizer que não possamos ser dispensáveis. Com a idade, aprendemos a afastar as pessoas que nos magoam e nos desconsideram. Essas passam a ser as dispensáveis. (Porquê insistir em manter perto quem nos desconsidera e magoa, com gestos, omissões ou cinismo?)
Insubstituíveis são as pessoas que nos faltaram pela morte e que fizeram diferença nas nossas vidas, porque nos ensinaram a ser melhores, porque foram generosas na distribuição das horas, porque estiveram connosco quando precisámos. Insubstituíveis são as pessoas que continuam a fazer-nos falta depois de muitos anos e nas quais pensamos em primeiro lugar quando gostaríamos de ter um desabafo, de pedir um conselho ou de partilhar uma música ou uma passagem de um livro.

segunda-feira, dezembro 19, 2016

Sketches do quotidiano

Ele conduz o seu Mercedes topo de gama com destreza, mas falta-lhe gentileza para segurar portas.

Ela ocupa dois lugares, quando estaciona o seu Mercedes desportivo. Segundo disse um dia, para não correr riscos. Não tem por hábito cumprimentar quando entra num espaço.


Aconchego


Imagem daqui

Precisa de sentir aconchego. Talvez por isso, coleccione fotografias de casas, que guarda em álbuns no Pinterest. Na verdade, não são fotografias de casas, mas de pequenos recantos, luminosos, com madeiras, brancos, plantas ou livros. Mais do que lugares de casas são lar. São espaços vazios de gente, mas com alma. Talvez por isso os sinta também um pouco seus.