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sábado, julho 04, 2020

Lavar e reutilizar

Lembro-me de que, quando era criança, as pessoas, em particular as que viviam na aldeia, davam-se ao trabalho de lavar os sacos de plástico, por estes não serem de uso comum.  Quando iam ao soto (a mercearia onde se encontrava um pouco de tudo) comprar qualquer coisa, levavam-na, por norma, nas mãos ou no avental.Tenho até memória de ver, numa corda, a secar, um saco de uma qualquer marca de pronto a vestir, de um plástico mais resistente, que tinha sido costurado, para poder ser utilizado por mais tempo. A minha mãe ainda hoje lava e põe a secar alguns sacos, por considerar que é um desperdício deitar fora aquilo que ainda pode ser útil.
Durante quase toda a minha vida, guardei apenas os sacos limpos de supermercado (que fui, gradualmente, substituindo por outros mais resistentes, reutilizáveis) e da fruta e legumes, se inequivocamente limpos, deitando fora os sacos sujos. Nos últimos tempos, em tempos de pandemia, tenho dado comigo a lavar e a pôr ao sol tudo o que é saco, depois de limpas e arrumadas as compras.

domingo, junho 10, 2018

Redes sociais

Chego da aldeia, quando a noite começa a assomar. Chego com as baterias carregadas. De paisagem, de carinho e de pequenas ofertas. No estômago, a coalhada que comi em casa de uma das tias e a fatia de bolo que outra tia acabara de tirar do forno; em sacos, "amostras" das suculentas da mãe, as cerejas e as alfaces da horta do pai.
Uma tia fez a coalhada com o leite que o genro lhe ofereceu; a outra tia confecionou o bolo a partir de uma receita que há dias eu própria registei, de cabeça, numa folha de papel; as suculentas que a mãe me deu cresceram de rebentos que, há meses, uma senhora amiga prontamente lhe deu e, logo que os filhotes cresçam em minha casa e deles próprios nasçam filhotes hei-de oferecê-los a uma das minhas amigas, fã e coleccionadora de suculentas. Antes de entrar em casa, reparti as alfaces e as cerejas, com o meu irmão e uma amiga de longa data, a mais antiga, por sinal.
Assim, funcionam as redes sociais, sem símbolos, nem cores. Redes de afectos e da partilha que nasce dos afectos e da generosidade.

domingo, dezembro 03, 2017

Memórias do frio

Em repetição por aqui, porque Dezembro não é apenas o Natal e todo o consumismo inerente. Dezembro é, mais do que isso, as memórias do frio, dos gestos pequenos que enchiam o coração e das pessoas cuja presença serena nos abraçava.



Tu ignoras esse Natal
que persiste na minha memória
e me aconchega.

Falo desse Natal que é ainda o meu avô
a abrir, às manhãs frias, a porta
que dava para o cortinheiro*.

Ou um santo António
a assomar numa nota de vinte escudos,
a cor e o aroma das tangerinas
e das laranjas, que se ofertavam ao menino.

O Natal em que a roupa dormia, gelada, 
no estendal da varanda,
a chama e o calor da fogueira que procurávamos
depois da missa do galo, quando as luzes da aldeia
se apagavam.

Os almanaques do tio, o arroz doce da tia,
que repousava na sala que só se abria
para as visitas em dias de festa.

Foi num desses natais
que recebi o meu primeiro relógio.

A partir de então,
aprendi a voracidade das horas, 
o efeito corruptor do tempo.

deep, Dezembro de 2013

*quintal

terça-feira, setembro 27, 2016

Das memórias boas...


Resgato do baú um texto com alguns anos.

Assomo à varanda. Aqui é impossível não acreditarmos que a Terra é redonda. É difícil não nos sentirmos extasiados com tamanha beleza. O olhar, que, em dias claros, se perde pelos montes até ao planalto, embate agora numa cortina de água.

Num plano mais próximo, campos de verde novo alternam com terras recentemente lavradas.
Aproximo o olhar, que agora se fixa nos caminhos estreitos de terra batida, ladeados de muros de xisto que, como tentáculos, se estendem até às hortas, aos pomares, aos soutos, só depois aos olivais.
Sob a chuva miudinha, que se entranha no empedrado das ruas desertas (essas ruas que já foram de lama e de xisto e onde rolaram alegres carros feitos de tábuas e de rodas de charrua), nas árvores e nos telhados, e o fumo que se desprende das chaminés das poucas casas ainda habitadas, a aldeia é um ser melancólico e solitário, ofendido com a indiferença dos homens que se recolhem no calor das lareiras, no agasalho das casas. Também lhe viro as costas, quando um frio húmido me chega aos ossos. 
Sento-me no velho e pesado escano de madeira, em frente à lareira, onde pedaços de grossos troncos ardem. Memórias antigas teimam em roubar-me ao presente. O sabor inigualável da sopa de feijão vermelho que a tia cozinhava, à lareira, em panela de ferro. O aroma do café de mistura que se exalava do pote de barro preto. O tio que respondia em frases rimadas e que usava sempre colete, de cujo bolso pendia a corrente de um relógio. O rádio Westinghouse do tio que ele guardava tão religiosamente que só o víamos - e ouvíamos - quando coincidia a nossa visita com a hora do noticiário ou do terço. Os almanaques que, com o tempo, passámos a conhecer de cor. As conversas demoradas à lareira.
As histórias de tempos difíceis, de pobreza, de partilha e de bondade, apesar de tudo...

segunda-feira, novembro 11, 2013

Regresso às origens


Um dia, os pais decidem que querem o melhor para si próprios e para os filhos, por isso deixam a aldeia, onde não têm nada de seu. Porque querem que os filhos não regressem à terra, mandam-nos estudar.
Um dia, porque já nada os prende ao lugar onde educaram a descendência ou porque o apelo da terra é maior, regressam às origens. Aí, dedicam-se a acrescentar os pequenos pedaços de terra que receberam por herança e, cansados, reclamam que já não têm forças para tanto e que não há quem lhes preste ajuda. Os filhos, uns cientes das suas obrigações, outros por gosto, outros ainda por necessidade, retomam ou aprendem os trabalho do campo.

Assim têm sido os meus últimos fins-de-semana: horas seguidas de trabalho no campo, para o qual me faltam jeito e apetite. Há, contudo, algo que não posso negar: o trabalho do campo - talvez por me deixar o corpo exausto - limpa-me a alma.

quarta-feira, abril 30, 2008

da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo*....


(Tirada por mim em Março de 2008)

Assomo à varanda. Aqui é impossível não acreditar que a Terra é redonda. É difícil não nos sentirmos extasiados com tamanha beleza. O olhar, que, em dias claros, se perde pelos montes até ao planalto, embate agora numa cortina de água.
Num plano mais próximo, campos de verde novo alternam com terras recentemente lavradas.
Aproximo o olhar, que agora se fixa nos caminhos estreitos de terra batida, ladeados de muros de xisto que, como tentáculos, se estendem até às hortas, aos pomares, aos soutos, só depois aos olivais.

Sob a chuva miudinha, que se entranha no empedrado das ruas desertas (essas ruas que já foram de lama e de xisto e onde rolaram alegres carros feitos de tábuas e de rodas de charrua), nas árvores e nos telhados, e o fumo que se desprende das chaminés das poucas casas ainda habitadas, a aldeia é um ser melancólico e solitário, ofendido com a indiferença dos homens que se recolhem no calor das lareiras, no agasalho das casas. Também lhe viro as costas, quando um frio húmido me chega aos ossos.
Sento-me no velho e pesado escano de madeira, em frente à lareira, onde pedaços de grossos troncos ardem. Memórias antigas teimam em roubar-me ao presente. O sabor inigualável da sopa de feijão vermelho que a tia cozinhava, à lareira, em panela de ferro. O aroma do café de mistura que se exalava do pote de barro preto de Bisalhães. O tio que respondia em frases rimadas, que usava sempre colete, de cujo bolso pendia a corrente de um relógio, e que exibia um eterno bigodinho à Charlot. O rádio Westinghouse do tio que ele guardava tão religiosamente que só o víamos - e ouvíamos - quando coincidia a nossa visita com a hora do noticiário ou do terço. Os almanaques que, com o tempo, passámos a conhecer de cor. As conversas demoradas à lareira.
As histórias de tempos difíceis, de pobreza, de partilha e de bondade, apesar de tudo...

* Primeiro verso de um poema de Pessoa- Alberto Caeiro