Todos, em maior ou menor grau, conscientes ou não, tendemos à autopromoção. Fazêmo-lo, porque acreditamos ser a forma de os outros nos aceitarem, porque queremos dar-nos a conhecer. Outras vezes é uma maneira de quebrarmos silêncios que nos são penosos. Há, no entanto, aquelas pessoas que, ao mínimo pretexto, usam a autopromoção para diminuir os outros, tentando provar que são superiores. Acontece que o enunciar ostensivo das qualidades, das vitórias ou dos pertences, ao contrário do que parece, esconde um complexo de inferioridade que a pessoa prefere ignorar por lhe ser demasiado doloroso, tornando-se, assim, mais fácil, comprazer-se na dor do outro.
Por norma, essas pessoas têm uma certa - para não dizer "muita" - dificuldade em aceitar a diferença, em reconhecer que nem todos tivemos as mesmas vivências e oportunidades. Estas, assim como os lugares onde vivemos podem tornar-nos diferentes de outras pessoas, mas não necessariamente mais pobres.
Seremos mais sábios se soubermos integrar o que aqueles que nos parecem culturalmente inferiores têm para nos oferecer humanamente. Para nos deixarmos surpreender, precisamos de tempo e paciência. Há pessoas que, nunca tendo praticamente saído do lugar onde nasceram, têm mais para ensinar do que outras que correram mundo. São pessoas que se revelaram corajosas, ainda que nunca tivessem enfrentado leões ou escalado montanhas. Conhecem a alma humana, conservando, apesar disso, a inocência primeira no coração e no olhar.
No Verão passado, despedi-me de uma dessas pessoas. Não frequentou a escola para além da antiga terceira classe. Exceptuando escassas visitas a Lisboa, não saiu de um raio de 60 / 80 quilómetros. As suas leituras estavam restritas à Bíblia e às vidas dos santos. Era frontal como conheço poucos, mas justa. Trabalhou o campo até bem perto dos 90 anos, não se esquivando a qualquer tipo de tarefa, até aos trabalhos reservados por tradição aos homens. Era meiga nas repreensões e espontânea nos elogios.
Contava que, em jovem, atravessou repetidamente a serra, exposta à noite e aos rigores do Inverno transmontano para ir, sozinha, à vila mais próxima vender os produtos do seu esforço.
Assumia como ofensa que alguém que entrasse em sua casa não aceitasse comer ou beber o que oferecia com simplicidade. Não tendo sido mãe nem avó, desempenhou esses papéis na perfeição. Apesar do convívio estreito, penalizo-me por não ser capaz de lhe seguir o exemplo na serenidade e no sentido de justiça.