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segunda-feira, outubro 30, 2017


Samuel, o narrador-protagonista de "A invenção do amor", de José Ovejero, refere-se aos amigos:

«Adoro as nossas discussões inúteis, o gozo da repetição, que nos recorda quem somos. Não conversamos para chegar a uma conclusão, mas para ouvir os outros a rebater qualquer argumento nosso, saber que podemos contar com eles, que não nos vão deixar sozinhos com as nossas contradições.»

«Dá vontade de os abraçar a todos, de os consolar, de os amar por se encontrarem tão perdidos.»

terça-feira, novembro 04, 2014

Personagens cúmplices

Embora seja um lugar comum dizer-se que os livros são boa companhia, que são amigos indispensáveis, só há dias tomei verdadeiramente consciência de que, quando leio, também o faço para me sentir mais acompanhada. Não são concretamente os livros, ou as histórias narradas, que me servem de companhia, mas as personagens.
Nas minhas últimas leituras - A invenção do amor, de José Ovejero, e Elegia para um americano, de Siri Hustvedt, os narradores, que assumem, simultaneamente, os papéis de protagonistas, são homens que vivem sós, o primeiro (Samuel) solteiro, o segundo (Erik) divorciado. Leio as suas narrativas, adivinho-lhes as vozes e imagino como seria assumir o papel da vizinha ou amiga, que partilha confidências e reflexões, no terraço de Samuel, com vista sobre Madrid, ou na sala da casa de tijolo vermelho de Erik, numa zona residencial de Nova Iorque. 
Recentemente, cedi aos encantos de Vasco, o narrador autodiegético de Pretérito Perfeito, da Raquel Serejo Martins, e noutros tempos, aos de Holden, o protagonista do The Catcher in the Rye, de J. D. Salinger, sobre o qual escrevi recentemente, e de Larry, personagem principal de O Fio da Navalha, de Somerset Maugham. O primeiro encantou-me, talvez, pela fragilidade e pela aura de bom rapaz, o segundo pela irreverência e pela imaturidade, o terceiro pelo desejo de liberdade e pela personalidade misteriosa.
A cumplicidade que estabelecemos com as personagens não finda com o fim das leituras. Há personagens que nos acompanham ao longo dos anos e que, em certa medida, nos transformam. Porque nos espelhamos nelas e nos colocam num frente a frente com os nossos fantasmas, porque são aquilo que desejaríamos ser, porque sentimos que, em certas alturas,são as únicas "pessoas" capazes de nos compreender.

domingo, outubro 26, 2014

Das minhas leituras

«Não nos conhecemos. É impossível conhecer outra pessoa, embora em certos momentos sejamos capazes de intuir o que se prepara para dizer ou está a pensar. Há sempre um recanto escuro, uma faceta que, mesmo ao fim de muitos anos, não deixaria de nos surpreender, talvez até de nos aterrorizar, caso a descobríssemos. Em algum lugar de nós mesmos, estamos sozinhos, ninguém nos pode acompanhar, mas isso não é motivo para rejeitarmos ou menosprezarmos esse território em que podemos entrar pela mão de alguém, talvez alargando-o, conquistando às ervas daninhas zonas onde semear.»


«Envelhecer torna-nos feios, não há volta a dar, e pergunto-me se, apesar de tudo, será possível continuarmos a olhar-nos com desejo; ou se o desejo será substituído por outro sentimento que agora não conheço ou não identifico. Sinto curiosidade, é a primeira vez, por saber que vida podemos levar com alguém que está há décadas ao nosso lado. Será isto conformismo, apego ao desconhecido por receio à solidão? Renúncia à paixão, ao desejo autêntico? Ou haverá alguma coisa que compense a perda, embora neste momento não me passe pela cabeça sequer o que poderá ser?»

José Ovejero, A invenção do amor