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sexta-feira, dezembro 18, 2015

Numb


Joanne Nam, "Numb"
[...]
O meu sono é uma noite noite fechada a sete chaves
dentro do medo que eu tenho da verdade dos dias.
Se vivi outras vidas foi somente para preparar,
com cuidado de alquimista, a voz com que me revelo nesta.

José Jorge Letria, Produto Interno Lírico

sexta-feira, julho 03, 2015

Mudança de pele



Às vezes apetece-me começar a viver uma outra vida,
com outro rosto, outra morada, outra identidade,
sem contudo deixar de ser eu, sempre e só eu,
e acreditem que gostava de ficar sentado numa esplanada,
numa cadeira branca de palhinha, a ver-me ser outro
sem deixar de ser eu, com os mesmos tiques,
com a mesma exaltada paixão pelo timbre da palavra,
com o mesmo vício dos livros, que é o único
que verdadeiramente tenho e que me custa os olhos da cara.
Mas é impossível, paciência. Resta-me a transfiguração
naquilo que escrevo, compulsivamente, como um asmático
a tentar libertar-se do ar que lhe oprime o peito.
E para dizer a verdade, que é coisa que a poesia
não tem necessariamente que dizer, não sei ao certo
o que poderia ser se chegasse a ser outro.
O que faria eu sem outra identidade? Seria astronauta,
veterinário por amor aos bichos, corretor de bolsa
transformado em pintor impressionista como o meu querido
Gauguin, cinzelador de metais raros e preciosos,
ourives de corte, cronista das tragédias sociais?
Creio que nenhuma das hipóteses me agradaria
e voltaria a ser aquilo que sempre fui,
heterónimo de mim mesmo, a fugir de mim aos ziguezagues,
cobra largando a pele dos ódios e dos medos
sem se importar com a estação em que a mudança se opera
(e para que a rima não falte), seja ela Inverno ou Primavera.

José Jorge Letria, Produto Interno Lírico

terça-feira, julho 08, 2014

Eu também quero trazer-te aqui

Hei-de trazer-te aqui


Hei-de trazer-te aqui para te mostrar 
os pequenos barcos brancos 
que levam o Verão desenhado nas velas 
e trazem no bojo a alegria dos arquipélagos 
onde se ama sem azedume nem pressa. 
Aqui, temos a ilusão breve 
de que os dias sabem a pólen 
e esvoaçam nas asas das abelhas 
como cartas eternamente sem resposta.

José Jorge Letria, Capela dos Ócios


Encontrei o texto aqui e pareceu-me a legenda perfeita para a imagem do Pico que captei há dois dias, a partir de São Jorge.


sexta-feira, junho 03, 2011

As cidades cúmplices


As cidades são a minha fuga, o meu refúgio,
o meu lugar de não ter nome, de não ter casa.
Fujo para as cidades para me perder de mim,
para só me encontrar nos livros que trago
dos esconderijos mais secretos das cidades.
As cidades são as minhas cúmplices. Elas sabem-no.
(...)
Deixo nelas, como penhor da alma, o fio de uma saudade
que o tempo se encarrega de cortar
no ponto em que a ausência sabe a mágoa.


J. Jorge Letria, Produto Interno Lírico

Uma noite fechada a sete chaves

(...)
O meu sono é uma noite noite fechada a sete chaves
dentro do medo que eu tenho da verdade dos dias.
Se vivi outras vidas foi somente para preparar,
com cuidado de alquimista, a voz com que me revelo nesta.

José Jorge Letria, Produto Interno Lírico

domingo, janeiro 30, 2011

Apenas as lembranças

Podes levar tudo menos as lembranças,
peço-te, eu não sou um poeta do amor,
eu que sempre fui pudico ao nomear os sentimentos.
Há coisas que nunca podem chegar a ser ditas,
ainda que sejam sentidas até ao desespero das lágrimas.
Essas pertencem ao coração e não à escrita,
e não há álcool nem lume que as apague,
que as consuma, que as devore. São as coisas abissais
e absolutas que não se resolvem como teoremas
ou equações de entreter a quadrícula das páginas.
Se quiseres, eu apago a luz para não me veres chorar,
eu que já há muito esqueci como se chora,
eu que sequei todas as lágrimas nos gélidos mistérios
da aflição das noites, nos simulacros.
Poupa as esperanças, como se poupasses
os corais ou as anémonas na última viagem
até ao casulo da profundeza do mar.
Poupa-me, poupando o resto de mim
no pouco que sobra de nós. Não insistas.
As cegonhas vão e voltam, os corvos salpicam
de tinta nocturna o ilusório sossego das tardes.
Nenhuma porta se fechará à tua passagem,
porque eu já não sei amar, porque eu desisti
de me deixar amar. Que fiquem apenas as lembranças,
oferendas prometidas à felicidade que se esquiva.


José Jorge Letria, Produto Interno Lírico