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segunda-feira, dezembro 19, 2016

Aconchego


Imagem daqui

Precisa de sentir aconchego. Talvez por isso, coleccione fotografias de casas, que guarda em álbuns no Pinterest. Na verdade, não são fotografias de casas, mas de pequenos recantos, luminosos, com madeiras, brancos, plantas ou livros. Mais do que lugares de casas são lar. São espaços vazios de gente, mas com alma. Talvez por isso os sinta também um pouco seus.

segunda-feira, outubro 26, 2015

sexta-feira, janeiro 31, 2014

Há qualquer coisa de familiar

neste poema que surripiei daqui.



Georges Dussaud, "Duas mulheres com o cão" (Agrelos, Trás-os-Montes, 1981)

Em todos os poemas há
a casa. Para que tudo possa começar
onde deve começar. No pátio
e na escaleira da entrada. Na porta
pintada de verde com o forro de zinco. Nos retratos
a sépia pendurados nas paredes
da sala. Na pedra da lareira. Nos corredores
a dar para a sombra dos quartos. Na varanda.
O mundo é uma repetida enunciação.

Depois vem a luz do verão. A luz intensa
que em vez das palavras
desloca os objectos. Uma travessa
de cerâmica. Um pote de ferro. O assador
das castanhas. A luz que fica agarrada aos vidros
das janelas. A luz que espalha nas traves do soalho
os losangos de haver muitas
afastadas vozes misturadas
às folhas dos álamos jovens.

E o inverno. Para que a tempestade
traga de longe o rumor do vento nos arames
das vinhas. Para que uma sombra possa repetir
todas as sombras
que o labirinto da idade abateu
sobre os corações desabitados.

Em todos os poemas há
a casa. Porque a casa é também o lugar
das viagens. Numa manhã dos meses de junho

alguém fala do tempo antigo das mulheres do rio
de janeiro como se a sede
pudesse matar-se com a água do cântaro
arrumado ao lado do escano.

Uma fotografia guardada num álbum
de fotografias. Numa das salas da casa.
Numa das gavetas da cómoda
que não sabemos se alguém
haverá de abrir. O poema. A desvalorizada moeda.
Onde havia uma casa
e o verão e o inverno
subiram um dia a escaleira de pedra.


José Carlos Barros

quarta-feira, maio 08, 2013

As casas


As casas, à força de as habitarmos, 
ganham alma.
Com o tempo, nascem-lhes braços,
regaços espaçosos e corações enormes,
em que buscamos refúgio,
quando o exterior e, por vezes,
o nosso interior se revelam hostis.

Quando as deixamos,
alguma coisa do que fomos
fica com elas,
dos seus compartimentos vazios
desprende-se uma solidão quase humana.

Se cedermos à tentação de olhar para trás,
na despedida,
conseguimos intuir-lhes
uns olhos de cão triste e abandonado.


deep/ Janeiro de 2013

sábado, novembro 03, 2012

Enquanto aguardo

Aguardo. Enquanto isso, o meu olhar detém-se no quadro exterior que um rectângulo de janela emoldura. Enche quase todo o espaço uma casa bicolor, em que o branco predominante contrasta com um cinzento claro da parede da varanda, onde se recortam uma porta e uma janela. Serve-lhe de fundo um céu plúmbeo, opaco.
Dão cor à imagem o vermelho do telhado e o verde mostarda das folhas de uma árvore que se impõe à fachada da casa. As folhas da árvores agitam-se, obedecendo ao capricho de um vento moderado que torna mais frio o ambiente exterior.
A espaços, raios de sol iluminam a casa e as folhas da árvore, que ganham tons de oiro.
Observo este quadro e imagino que, embora muda, a casa há-de guardar muitas histórias, será a depositária de segredos e de inconfessadas mágoas.

terça-feira, janeiro 29, 2008

As casas,

à força de as habitarmos, ganham alma. Com o tempo, nascem-lhes braços, regaços espaçosos e corações enormes, em que buscamos refúgio, quando o exterior e, por vezes, o nosso interior se revelam hostis.
Quando as deixamos, sentimos que alguma coisa do que fomos ficou com elas e que dos seus compartimentos vazios se desprende uma solidão quase humana. Se caímos na asneira de olhar para trás, na despedida, conseguimos intuir-lhes uns olhos de cão triste e abandonado. Talvez por isso, tenha resistido à tentação de olhar para trás quando disse adeus à casa onde vivi desde os cinco aos dezassete anos e onde voltava todas as férias, até ao Natal passado.
Pelas janelas voltadas a norte dessa casa, chega-nos, de dia, a imagem de uma manta de retalhos em tons de verde e castanho, esporadicamente tingida de branco imaculado; à noite, através delas, o céu exibe-se em todo o seu esplendor estrelado. Por isso, ficar à janela era um passatempo feliz como outro qualquer... como as ininterruptas brincadeiras da infância na rua, onde o trânsito só havia de ser verdade uns anos depois.