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sábado, março 25, 2017

Duplo império


Ponte sobre o rio Douro, em Zamora
Atravesso as pontes mas
(o que é incompreensível)
não atravesso os rios, 
preso como uma seta
nos efeitos precários da vontade.
Apenas tenho esta contemplação
das copas das árvores
e dos seus prenúncios celestes,
mas não chego a desfazer
as flores brancas e amarelas
que se desprendem.
As estações não se conhecem,
como lhes fora ordenado,
mas tecem o duplo império
do amor e da obscuridade.

Pedro Mexia

quarta-feira, abril 13, 2011

Assim é... por aqui também...

Há nomes que ficam, sem préstimo, nas agendas,
transitam de ano para ano por inerência
ou desleixo, por vezes o nome próprio
é uma referência obscura, e nunca houve apelido.
Os números, em poucos anos,
passam de mnemónicas a criptogramas,
indicam sem dúvida que nos cruzámos
com gente que se cruza connosco,
que trocámos telefones como se
trocássemos alguma coisa,
mas tudo muda, os conhecidos
tornam-se amigos e depois desconhecidos.
Estes nomes, posso riscá-los
como se fosse velho e eles mortos,
mas os números, como uma praga,
acumulam-se, escritos
com tintas diferentes
e por vezes nas letras erradas.
Não posso desfazer-me das agendas
nem começar uma todos os anos,
mas já não sou o mesmo:
os números observaram as minhas idades
e talvez pudesse agora marcar este
que não me diz nada
e contar tudo
a alguém que não se lembra de mim.


Pedro Mexia, Menos por menos

sábado, fevereiro 14, 2009

Porque hoje é sábado

Há manhãs de sábado que são plácidas e refrescantes. Há os almoços mais longos de sábado e os jornais mais volumosos aos sábados. (...) Há um ócio do sábado que permite valorizar o estilo de vida. O lado bom da vida. Confesso que não acredito verdadeiramente na felicidade, mas acredito em momentos de felicidade. A felicidade absurda de acordarmos bem-dispostos. O vento no cabelo. Uma comédia romântica. As montras. Os transeuntes. Um café com natas. Se Deus está nos detalhes, a felicidade também. E o sábado é um dia de detalhes. Sobretudo para os que gozam o sábado, coisa que não é universal e ancestral. (...) Um desvio cómico que esvazia por momentos a tensão acumulada. É isso: o sábado é o comic relief da semana. Mergulhemos então no sábado como numa piscina pouco funda que nos deixa embaraçosamente acima da água. E brinquemos com isso. (...) Entro no espírito do sábado: nada de melancolia.

Pedro Mexia, Nada de Melancolia

Um dos meus momentos de felicidade é aquele em que tomo um café com a minha amiga mais antiga (depois dos meus irmãos e dos meus primos).
Este post é para ti, menina, a minha companheira dos sábados de manhã.
Um obrigada muito especial à Ana que me enviou o texto.