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sábado, setembro 22, 2018

Revisitar poetas


Nunca te esqueci – é este um amor maior
que atravessa a vida e resiste à cicatriz
do tempo. O que ontem me disseste agora
o ouço, como se nada tivesse interrompido
a magia do instante em que as nossas bocas
se aguardavam na distância de um beijo e
o olhar tocava o corpo antes da mão. Se

hoje vieres por esse livro que deixaste (e cuja
lombada acariciei todos os dias que durou a tua
ausência como uma nesga de sol acaricia um
rosto no Inverno), encontrarás a sopa a fumegar
na mesa, e a camisa engomada no cabide, e os
lençóis da cama imaculados, e um corpo pronto
para qualquer aventura – e ainda o cão deitado
à porta, à tua espera, como na véspera de partires.

Porque os anos não contam para quem assim ama.

Maria do Rosário Pedreira, O canto do vento nos ciprestes

segunda-feira, abril 03, 2017

Traz-me uma casa do horizonte deserto


Edward Hopper, "Lighthouse hill"

Traz-me uma casa do horizonte deserto
lá onde o mar começa
e os meus olhos se fecham
trá-la pela carne da vaga
pedra a pedra conseguida
trá-la vaga, descoberta
de franquia, porta aberta
trá-la de coral e de limos
há-de reluzir nas colinas
há-de crescer de guarida
para quem nela entre e habite
trá-la hoje a hora que o sol posponte
e se veja já no horizonte
janelas, portadas abertas
gente a entrar, a sair delas
encontrando tesouros
fazendo descobertas.

Há séculos que não há caravelas
mas ainda se queimam círios
em muitas casas por dentro
sem rosto sem remetente
sem que um pássaro
possa desabrochar numa flor.

José Ribeiro Marto, Pastoreio

Com votos de feliz aniversário ao autor!

quinta-feira, fevereiro 02, 2017

Chegamos de mãos vazias


Edward Hopper, "Hotel New York"
Chegamos de mãos vazias.
Trazemos os ouvidos
cansados de muitas histórias inúteis, 
o olhar vago, o coração gasto
de tantas esperas vãs...
Do amor não sobra mais
do que a espuma do café
que borda o interior da chávena,
a esperança, essa, parece querer partir
na primeira passa do cigarro
que fumamos apressados...
Como se alguém nos esperasse
num qualquer aconchego,
como se houvesse ainda
caminhos que valha a pena
palmilhar,
como se pudesse
ainda um qualquer rio
conduzir-nos à imensidão
do mar, em que possamos,
para sempre,
perder-nos...

deep, Janeiro de 2013

sábado, dezembro 03, 2016

Summer in the city


Edward Hopper, Summer in the city

Despertou mais tarde do que planeara. A luz entrava, farta, através das janelas altas, sem estores. Reparou que ele dormia ainda, alheio ao dia e ao seu despertar. Mónica levantou-se e tomou um banho rápido. Procurou que todos os seus gestos fossem silenciosos. Regressou ao quarto, vestiu-se e reparou que ele não se mexera. Continuava, como minutos antes, de barriga para baixo, nu, sobre o lençol.
Mónica sentou-se na borda da cama. Era uma cama de solteiro, sem graça, como o quarto, que parecia reflectir a frieza e o sentido sobretudo prático de quem o habitava.
A noite não fora de amor. Talvez tão só o cumprir de uma rotina a que ambos se tinham habituado e que não quebravam por inércia. Há algum tempo que era assim.
Conheceram-se num fim de tarde, quando ambos entraram num café para fugir da chuva que àquela hora desabava impiedosa sobre o mundo. Ocuparam mesas próximas. Pouco depois, ela abordou-o para lhe pedir lume. Por delicadeza e por uma espécie de gratidão, não conseguiu evitar responder aos comentários dele sobre as contrariedades do tempo.
Rapidamente, os encontros, primeiro falsamente casuais, depois combinados, cederam lugar ao encontro dos corpos. Deixaram de frequentar o café, acordando encontrar-se no quarto dele, quase sempre depois do trabalho. Para ele era fácil. Ela, em contrapartida, teve de se inscrever num curso de línguas, para justificar os dias em que chegava a casa depois da hora habitual. Conseguira, com a cumplicidade de uma amiga, ficar com ele algumas noites.
Apesar de ela ser mais velha do que ele, o interesse de Thomas lisonjeou-a. Fê-la sentir-se novamente mulher. Esqueceu as rugas, algumas cabelos brancos que começavam a despontar na sua cabeleira escura, os quilos que acumulara com a idade. Percebeu que estava pronta para voltar a amar e para ser amada. 
Nos primeiros tempos, viveu num enlevo que lhe suprimiu o discernimento. Chegou a acreditar que era amada. Desculpava-lhe as repetidas desatenções, a falta de pequenos gestos de delicadeza. Nunca,em meses, ele tivera a gentileza de a surpreender com um mimo. A Mónica não interessavam bens materiais. Talvez não passasse de uma romântica. Dava valor a pequenos gestos. Bastavam uma flor, um livro, um postal para se sentir especial. Gostava da sensação de se sentir amada, de pensar que fora, por instantes, o centro da preocupação de alguém.
O tempo curou-lhe a cegueira, trazendo-lhe a certeza do egoísmo dele. Sentiu-se muitas vezes usada, humilhada até, mas temia sentir-lhe a falta, por isso adiava a despedida.
Levantou-se, pegou no casaco e na mala e, como a mulher da canção, «saiu para a rua, decidida». Fora, experimentou o calor do sol sobre a pele e, naquele instante, soube que renascia.

deep, 02, 03 e 04 de Dezembro de 2016

(Texto sujeito a alterações.)


terça-feira, novembro 29, 2016

Exercício de escrita


Edward Hopper, "Automat" (1927)

O dia revelara-se soalheiro e ameno. Contudo, a noite chegara fria e quase sem aviso, por isso Cordélia, que passara a tarde de loja em loja, na busca ansiosa dos últimos presentes de Natal, decidiu refugiar-se no primeiro café que encontrou. O espaço, que estava àquela hora um pouco vazio, agradou-lhe.
Sentou-se, pediu um café e, enquanto bebia o líquido quente e amargo, em sorvos lentos, permaneceu quieta, absorta em pensamentos. O ambiente estava aquecido, mas o frio entrara de tal modo em si que, durante largos minutos, não conseguiu desfazer-se do sobretudo verde e do chapéu, nem mesmo da luva da mão esquerda. Apesar de estar já um pouco fora de moda, gosta deste seu casaco verde de fazenda, com gola e punhos de pêlo. Comprou-o, como o chapéu de abas que usava, numa viagem que fez com uma amiga a Paris, há alguns anos. Trazem-lhe, portanto, boas memórias.
Distraiu-se, entretanto, a observar o espaço em volta. Apreciou a larga mesa circular, com tampo branco a contrastar com o castanho muito escuro do remate e das cadeiras. Notou, depois, que havia, no parapeito da larga janela, onde se reflectiam as filas de luzes do tecto, uma taça de vidro e de pé alto, cheia de fruta. Pareceu-lhe ter sido apenas esquecida. Notou, também, que, à sua esquerda, um corrimão metálico levava ao piso inferior. «Talvez seja uma escada de acesso aos arrumos», pensou.

Ocorreu-lhe que poderia, como outras mulheres, forçar uma conversa com as pessoas da mesa ao lado, sob qualquer pretexto, mas, embora fosse afável, a timidez impedia-a de gestos ousados. Tinha amigos e família, é certo, mas, em casa, esperava-a apenas um gato, que, em tempos fora brincalhão e arisco, e que, com a idade, se tornara preguiçoso e bonacheirão.

quarta-feira, novembro 16, 2016

Hotel room

Dá-se conta de que, à sua volta, há outras mulheres sós. 
Não raras vezes, dá consigo a perguntar-se: se o aspecto físico é, como muitas vezes lhe ocorre, um factor determinante para atrair o sexo oposto, como justificar que algumas dessas mulheres que, além de bem sucedidas profissionalmente, inteligentes e cultas, são fisicamente elegantes e preocupadas com a imagem, continuem sós, aparentemente irremediavelmente sós?

Continuação de uma "historieta" que teve o último "take" aqui.



Edward Hopper, "Hotel room"
.

domingo, novembro 29, 2015

Nessa luz de sol morno


Edward Hopper, "Coffee"
Há um esquisso de intimidade
nesse aroma de café
que inaugura a manhã e que,
a conta-gotas,
se imiscui no cheiro
permanente dos livros.

Há um secreto aconchego
nessa luz de sol morno
que entra pela janela,
nesse silêncio cortado, a espaços,
pelas vozes abafadas dos vizinhos.

[...]

O que falta do texto está aqui.

quinta-feira, novembro 12, 2015

Tisana 387

Estou triste e só. Ligo o rádio. Oiço duas das últimas Canções de Strauss. Sinto de uma maneira profunda a sua fluidez cromática, a sua riqueza orquestral. Os metais soam como vibrantes florestas. A voz da cantora é a de uma grande ave solitária. Sinto-me um lobo sem alcateia. Quando se está muito só o gemido transforma-se em uivo.




Ana Hatherly, 463 tisanas
Imagem: Edward Hopper, "Espera"

quarta-feira, julho 08, 2015

Não mais dos teus olhos

Em repetição por aqui... porque sim!


Edward Hopper, Summer in the city
Não mais dos teus olhos
brotam aves, quando amanhece
e a luz desenha geometrias
no chão, nas paredes,
e nos telhados em frente.

A manhã chega tarde ao teu corpo,
despido agora da ternura
que o meu corpo reclama ainda.

Nascem, nos teus dedos,
gestos lentos e inábeis,
despojos de carícias antigas,
memórias de um tempo
que nos pertenceu.

As palavras, em desconcerto
com os seus referentes,
vagueiam, cansadas,
entre o quarto e a porta da rua,
numa ânsia absoluta de redenção.

Deep, 09 de Junho de 2015

terça-feira, junho 09, 2015

Não mais dos teus olhos


Edward Hopper, "Summer in the city"

Não mais dos teus olhos
brotam aves, quando amanhece
e a luz desenha geometrias
no chão, nas paredes,
e nos telhados em frente.

A manhã chega tarde ao teu corpo,
despido agora da ternura
que o meu corpo reclama ainda.

Nascem, nos teus dedos,
gestos lentos e inábeis,
despojos de carícias antigas,
memórias de um tempo
que nos pertenceu.

As palavras, em desconcerto
com os seus referentes,
vagueiam, cansadas,
entre o quarto e a porta da rua,
numa ânsia absoluta de redenção.


Deep, 09 de Junho de 2015

Não mais que um apontamento...

terça-feira, maio 27, 2014

Así pasan los años



Pasan los años,
y aunque la vida me acusa de inmovilidad,
también yo he viajado.
Como una partícula de polvo
he revoloteado por la casa y me he prendido a los libros.
Como un insecto he reposado a la orilla de las acequias,
o simplemente he sido una mujer que de tarde en tarde
ha mirado hacia el mar
buscando barcos olvidados por la neblina
y que vuelven a la memoria,
sin esperanza distinta de la muerte.
Lauren Mendinueta (escritora colombiana, n. 1977)

Imagem: "Automat" de Edward Hopper