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domingo, fevereiro 17, 2019

Metáforas


Erika Khun

sábado, setembro 22, 2018

Revisitar poetas


Nunca te esqueci – é este um amor maior
que atravessa a vida e resiste à cicatriz
do tempo. O que ontem me disseste agora
o ouço, como se nada tivesse interrompido
a magia do instante em que as nossas bocas
se aguardavam na distância de um beijo e
o olhar tocava o corpo antes da mão. Se

hoje vieres por esse livro que deixaste (e cuja
lombada acariciei todos os dias que durou a tua
ausência como uma nesga de sol acaricia um
rosto no Inverno), encontrarás a sopa a fumegar
na mesa, e a camisa engomada no cabide, e os
lençóis da cama imaculados, e um corpo pronto
para qualquer aventura – e ainda o cão deitado
à porta, à tua espera, como na véspera de partires.

Porque os anos não contam para quem assim ama.

Maria do Rosário Pedreira, O canto do vento nos ciprestes

sexta-feira, junho 15, 2018

Waiting for the time to fly


Duy Huynh, "Waitting for the time to fly"

Espero pelo tempo
em que possa voar.

Espero pelo tempo
em que a cinza 
dê, de novo, lugar à chama.

Aguardo, de olhos fixos
no relógio inerte,
o momento em que 
nos meus braços
se desenhem asas.

Pouco sei do Sul
e do voo das aves,
da dureza das rochas.
Sonho-me, porém, águia
a medir distâncias.

Deep, 27 de Abril de 2015

segunda-feira, abril 30, 2018

Como as árvores


(Duy Huynh)
Inclino-me, como as árvores,
à passagem do vento,
rendo-me aos seus doces sussurros,
sedutor incorrigível, quando a tarde declina...

Inclino-me, quando impetuoso,
rompe pelos caminhos e sibila
nas folhas.

Inclino-me, mas não parto...

Como as árvores, tenho raízes
que me prendem ao chão
e ramos no lugar dos braços.

Como elas, acolho, sem os abraçar,
os pássaros que buscam agasalho

Oiço-os cantar – e quero ser ave.
Vejo-os voar – e quero, no lugar dos ramos,
no lugar dos braços, ter asas.

deep, abril de 2015

Em repetição por aqui.

segunda-feira, abril 23, 2018

O que apetece


Maxwell Doig

... mas, por ora, não pode ser.

Celebrar o livro

«Os livros, esses animais opacos por fora, essas donzelas. Os livros caem do céu, fazem grandes linhas rectas e, ao atingir o chão, explodem em silêncio. Tudo neles é absoluto, até as contradições em que tropeçam. E estão lá, aqui, a olhar-nos de todos os lados, a hipnotizar-nos por telepatia. Devemos-lhes tanto, até a loucura, até os pesadelos, até a esperança em todas as suas formas.»
José Luís Peixoto, Abraço


Maria Helena Vieira da Silva, "A Biblioteca", 1949



segunda-feira, fevereiro 19, 2018

Do baú...


Soizick Meister
Magros de sentimentos
Arrastamo-nos por dias
De modorra e de silêncio.

Buscamos, na luz opaca,
Agasalho para um coração
exilado de abraços e de ternura.

Procuramos, na monótona cor,
a flor rubra, o sopro
que nos falha, a voz
que em nós finda.

Deslizamos, sonâmbulos,
pela berma do que fomos,
onde não restam seiva ou sangue,
onde já não pousam cantos
nem voos de aves.

Ali, onde as sementes
se esqueceram
de amadurecer flores.
Ali, onde nos sobram horas
e braços
para tão pouca vida.

deep, Abril de 2013

segunda-feira, janeiro 29, 2018

Tanta gente


Caspar David Friedrich, Caminhante sobre o mar de névoa (1818)

«Todos estamos sozinhos, Mariana. Sozinhos e muita gente à nossa volta. Tanta gente, Mariana! E ninguém vai fazer nada por nós. Ninguém pode. Ninguém queria, se pudesse. Nem uma esperança.»

Maria Judite de Carvalho, Tanta gente, Mariana

segunda-feira, outubro 30, 2017

Antes o mito



(Pintura de Erica Hopper)
Somos muitas vezes Penélope
tecendo, não a esperança,
mas as horas que suprimem
a presença de Ulisses

Não é o herói de Tróia
que esperamos.
Antes o mito.

Deep, março de 2017

Tosco devaneio resgatado do baú...

sábado, junho 03, 2017

Anónima e silenciosa


Pintura de Graça Morais

Os vários filhos e netos saíram da igreja, na frente do cortejo, amparados pelos  respectivos companheiros. Cada um entregue à sua dor. No meio da multidão (ele era um senhor conhecido e respeitado), atónita e curvada, seguia a companheira de muitos anos (mais de meio século), guiada pela mão diligente do funcionário da funerária, que a segurava pelo cotovelo esquerdo. Seguia, como sempre fez, anónima, silenciosa e discreta até na dor.

segunda-feira, abril 03, 2017

Traz-me uma casa do horizonte deserto


Edward Hopper, "Lighthouse hill"

Traz-me uma casa do horizonte deserto
lá onde o mar começa
e os meus olhos se fecham
trá-la pela carne da vaga
pedra a pedra conseguida
trá-la vaga, descoberta
de franquia, porta aberta
trá-la de coral e de limos
há-de reluzir nas colinas
há-de crescer de guarida
para quem nela entre e habite
trá-la hoje a hora que o sol posponte
e se veja já no horizonte
janelas, portadas abertas
gente a entrar, a sair delas
encontrando tesouros
fazendo descobertas.

Há séculos que não há caravelas
mas ainda se queimam círios
em muitas casas por dentro
sem rosto sem remetente
sem que um pássaro
possa desabrochar numa flor.

José Ribeiro Marto, Pastoreio

Com votos de feliz aniversário ao autor!

segunda-feira, fevereiro 27, 2017

Poema quotidiano



Imagem de Jamie Heiden

É tão depressa noite neste bairro 
Nenhum outro porém senhor administrador 
goza de tão eficiente serviço de sol 
Ainda não há muito ele parecia 
domiciliado e residente ao fim da rua 
O senhor não calcula todo o dia 
que festa de luz proporcionou a todos 
Nunca vi e já tenho os meus anos 
lavar a gente as mãos no sol como hoje 
Donas de casa vieram encher de sol 
cântaros alguidares e mais vasos domésticos 
Nunca em tantos pés 
assim humildemente brilhou 
Orientou diz-se até os olhos das crianças 
para a escola e pôs reflexos novos 
nas míseras vidraças lá do fundo 

Há quem diga que o sol foi longe demais 
Algum dos pobres desta freguesia 
apanhou-o na faca misturou-o no pão 
Chegaram a tratá-lo por vizinho 
Por este andar... Foi uma autêntica loucura 
O astro-rei tornado acessível a todos 
ele que ninguém habitualmente saudava 
Sempre o mesmo indiferente 
espectáculo de luz sobre os nossos cuidados 
Íamos vínhamos entrávamos não víamos 
aquela persistência rubra. Ousaria 
alguém deixar um só daqueles raios 
atravessar-lhe a vida iluminar-lhe as penas? 

Mas hoje o sol 
morreu como qualquer de nós 
Ficou tão triste a gente destes sítios 
Nunca foi tão depressa noite neste bairro 

Do poeta Ruy Belo, que nasceu num dia 27 de Fevereiro (1933)

domingo, fevereiro 12, 2017

Trabalhos de ourives


Maluda, "Romã", 1984
O amor era o avô
a descascar uma romã
para a avó.
As mãos trémulas,
inexactas,
o vagar do mundo
ou mundo devagar.
A tarde inteira uma romã
ou uma romã inteira.
Enquanto a avó na mesma sombra ao seu lado,
gato no regaço, dormia a sesta.


Raquel Serejo Martins, Aves de incêndio

quarta-feira, fevereiro 08, 2017

Dime cual es el puente


David Cunningham, "Reflections over 3rd Ave"

Dime cuál es el puente que separa
tu vida de la mía,
en qué hora negra, en qué ciudad lluviosa,
en qué mundo sin luz está ese puente
yo lo cruzaré.



Amalia Bautista

quinta-feira, fevereiro 02, 2017

Chegamos de mãos vazias


Edward Hopper, "Hotel New York"
Chegamos de mãos vazias.
Trazemos os ouvidos
cansados de muitas histórias inúteis, 
o olhar vago, o coração gasto
de tantas esperas vãs...
Do amor não sobra mais
do que a espuma do café
que borda o interior da chávena,
a esperança, essa, parece querer partir
na primeira passa do cigarro
que fumamos apressados...
Como se alguém nos esperasse
num qualquer aconchego,
como se houvesse ainda
caminhos que valha a pena
palmilhar,
como se pudesse
ainda um qualquer rio
conduzir-nos à imensidão
do mar, em que possamos,
para sempre,
perder-nos...

deep, Janeiro de 2013

terça-feira, janeiro 24, 2017

Sombras

[...]

As pessoas - tu sabes - as pessoas são feitas 
de vento 
e deixam-se arrastar pela mais bela 
respiração das sombras, 
pela morte que repete os mesmos gestos 
quando o crepúsculo fica a sós connosco 
e a noite se redime com uma estrela 
a prometer salvar-nos.


[...]


Fernando Pinto do Amaral, Pena Suspensa

sexta-feira, janeiro 20, 2017

As palavras


São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Do Eugénio de Andrade, que nasceu num dia 19 de Janeiro (1923)



Pintura de Cristina Valadas

sábado, dezembro 03, 2016

Summer in the city


Edward Hopper, Summer in the city

Despertou mais tarde do que planeara. A luz entrava, farta, através das janelas altas, sem estores. Reparou que ele dormia ainda, alheio ao dia e ao seu despertar. Mónica levantou-se e tomou um banho rápido. Procurou que todos os seus gestos fossem silenciosos. Regressou ao quarto, vestiu-se e reparou que ele não se mexera. Continuava, como minutos antes, de barriga para baixo, nu, sobre o lençol.
Mónica sentou-se na borda da cama. Era uma cama de solteiro, sem graça, como o quarto, que parecia reflectir a frieza e o sentido sobretudo prático de quem o habitava.
A noite não fora de amor. Talvez tão só o cumprir de uma rotina a que ambos se tinham habituado e que não quebravam por inércia. Há algum tempo que era assim.
Conheceram-se num fim de tarde, quando ambos entraram num café para fugir da chuva que àquela hora desabava impiedosa sobre o mundo. Ocuparam mesas próximas. Pouco depois, ela abordou-o para lhe pedir lume. Por delicadeza e por uma espécie de gratidão, não conseguiu evitar responder aos comentários dele sobre as contrariedades do tempo.
Rapidamente, os encontros, primeiro falsamente casuais, depois combinados, cederam lugar ao encontro dos corpos. Deixaram de frequentar o café, acordando encontrar-se no quarto dele, quase sempre depois do trabalho. Para ele era fácil. Ela, em contrapartida, teve de se inscrever num curso de línguas, para justificar os dias em que chegava a casa depois da hora habitual. Conseguira, com a cumplicidade de uma amiga, ficar com ele algumas noites.
Apesar de ela ser mais velha do que ele, o interesse de Thomas lisonjeou-a. Fê-la sentir-se novamente mulher. Esqueceu as rugas, algumas cabelos brancos que começavam a despontar na sua cabeleira escura, os quilos que acumulara com a idade. Percebeu que estava pronta para voltar a amar e para ser amada. 
Nos primeiros tempos, viveu num enlevo que lhe suprimiu o discernimento. Chegou a acreditar que era amada. Desculpava-lhe as repetidas desatenções, a falta de pequenos gestos de delicadeza. Nunca,em meses, ele tivera a gentileza de a surpreender com um mimo. A Mónica não interessavam bens materiais. Talvez não passasse de uma romântica. Dava valor a pequenos gestos. Bastavam uma flor, um livro, um postal para se sentir especial. Gostava da sensação de se sentir amada, de pensar que fora, por instantes, o centro da preocupação de alguém.
O tempo curou-lhe a cegueira, trazendo-lhe a certeza do egoísmo dele. Sentiu-se muitas vezes usada, humilhada até, mas temia sentir-lhe a falta, por isso adiava a despedida.
Levantou-se, pegou no casaco e na mala e, como a mulher da canção, «saiu para a rua, decidida». Fora, experimentou o calor do sol sobre a pele e, naquele instante, soube que renascia.

deep, 02, 03 e 04 de Dezembro de 2016

(Texto sujeito a alterações.)


terça-feira, novembro 29, 2016

Exercício de escrita


Edward Hopper, "Automat" (1927)

O dia revelara-se soalheiro e ameno. Contudo, a noite chegara fria e quase sem aviso, por isso Cordélia, que passara a tarde de loja em loja, na busca ansiosa dos últimos presentes de Natal, decidiu refugiar-se no primeiro café que encontrou. O espaço, que estava àquela hora um pouco vazio, agradou-lhe.
Sentou-se, pediu um café e, enquanto bebia o líquido quente e amargo, em sorvos lentos, permaneceu quieta, absorta em pensamentos. O ambiente estava aquecido, mas o frio entrara de tal modo em si que, durante largos minutos, não conseguiu desfazer-se do sobretudo verde e do chapéu, nem mesmo da luva da mão esquerda. Apesar de estar já um pouco fora de moda, gosta deste seu casaco verde de fazenda, com gola e punhos de pêlo. Comprou-o, como o chapéu de abas que usava, numa viagem que fez com uma amiga a Paris, há alguns anos. Trazem-lhe, portanto, boas memórias.
Distraiu-se, entretanto, a observar o espaço em volta. Apreciou a larga mesa circular, com tampo branco a contrastar com o castanho muito escuro do remate e das cadeiras. Notou, depois, que havia, no parapeito da larga janela, onde se reflectiam as filas de luzes do tecto, uma taça de vidro e de pé alto, cheia de fruta. Pareceu-lhe ter sido apenas esquecida. Notou, também, que, à sua esquerda, um corrimão metálico levava ao piso inferior. «Talvez seja uma escada de acesso aos arrumos», pensou.

Ocorreu-lhe que poderia, como outras mulheres, forçar uma conversa com as pessoas da mesa ao lado, sob qualquer pretexto, mas, embora fosse afável, a timidez impedia-a de gestos ousados. Tinha amigos e família, é certo, mas, em casa, esperava-a apenas um gato, que, em tempos fora brincalhão e arisco, e que, com a idade, se tornara preguiçoso e bonacheirão.

quarta-feira, novembro 16, 2016

Hotel room

Dá-se conta de que, à sua volta, há outras mulheres sós. 
Não raras vezes, dá consigo a perguntar-se: se o aspecto físico é, como muitas vezes lhe ocorre, um factor determinante para atrair o sexo oposto, como justificar que algumas dessas mulheres que, além de bem sucedidas profissionalmente, inteligentes e cultas, são fisicamente elegantes e preocupadas com a imagem, continuem sós, aparentemente irremediavelmente sós?

Continuação de uma "historieta" que teve o último "take" aqui.



Edward Hopper, "Hotel room"
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