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quarta-feira, janeiro 10, 2018

Instantes



Belas palavras do amigo Zé Marto

segunda-feira, abril 03, 2017

Traz-me uma casa do horizonte deserto


Edward Hopper, "Lighthouse hill"

Traz-me uma casa do horizonte deserto
lá onde o mar começa
e os meus olhos se fecham
trá-la pela carne da vaga
pedra a pedra conseguida
trá-la vaga, descoberta
de franquia, porta aberta
trá-la de coral e de limos
há-de reluzir nas colinas
há-de crescer de guarida
para quem nela entre e habite
trá-la hoje a hora que o sol posponte
e se veja já no horizonte
janelas, portadas abertas
gente a entrar, a sair delas
encontrando tesouros
fazendo descobertas.

Há séculos que não há caravelas
mas ainda se queimam círios
em muitas casas por dentro
sem rosto sem remetente
sem que um pássaro
possa desabrochar numa flor.

José Ribeiro Marto, Pastoreio

Com votos de feliz aniversário ao autor!

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

O rouxinol de Bernardim

O rouxinol de Bernardim
era teu ou era o meu
quando veio de madrugada
tecer seu canto no muro do jardim?
E após breve pousada
levou os séculos voando
quando perto já de ti,
vim abrir para dentro as portadas.
Ouviam-se carros nas estradas
o rouxinol desaparecia, voava.
À procura de uma árvore
destroçada sobre a terra exangue
na paisagem, vidros partidos, papéis,
galhos, jornais, a tinta a sangue.


No jardim de minha casa
há sempre uma rima de Bernardim
que canta aflita de madrugada,
como se houvesse uma levada
e essa fosse a do teu amor por mim!


José Ribeiro Marto, Pastoreio

sábado, julho 04, 2009

traz-me uma casa do horizonte deserto

Imagem: Lighthouse Hill de Edward Hopper
Traz-me uma casa do horizonte deserto lá onde o mar começa e os meus olhos se fecham trá-la pela carne da vaga pedra a pedra conseguida trá-la vaga, descoberta de franquia, porta aberta trá-la de coral e de limos há-de reluzir nas colinas há-de crescer de guarida para quem nela entre e habite trá-la hoje a hora que o sol posponte e se veja lá no horizonte janelas, portadas abertas gente a entrar, a sair delas encontrando tesouros fazendo descobertas Há séculos que não há caravelas mas ainda se queimam círios em muitas casas por dentro sem rosto sem remetente sem que um pássaro possa desabrochar numa flor. José Ribeiro Marto, Pastoreio Obrigada, Poeta!

sábado, junho 20, 2009

em tosca tentativa poética

quero felicitar o poeta José Marto (que já tive o gosto de conhecer), pelo lançamento do livro Pastoreio, que terá hoje lugar. 
Com muita pena minha, não poderei estar presente.

Também de suor e sangue
também de abismo
também de comunhão...
se desenham as palavras
que revelam o poema.

Também de pó de estrelas
e de águas límpidas
também de brisa
também de orvalho
também de insectos
e de rastejantes criaturas
que só o poeta, demiurgo do universo,
inscreve nas pedras do tempo.

Parabéns, poeta!

domingo, junho 22, 2008

a paisagem muda


(Manhufe, Amadeo de Souza Cardozo)

povoamento: longa estrada ainda sem valados sem a murteira o bálsamo o penacho despontando ao céu aberto as silvas de entremeio beijando as mãos das crianças por amoras só as casas velhas esventradas a terra mexendo os laivos das cepas ao longe as casas novas descansam do vento os telhados erguem-se ao dobrar do pinhal ladram os cães ao silêncio surdo param vendo gente rara olhando o areal a mulher velha perdeu a voz fala consigo a morte dando milho aos pombos traz um rádio de bolso quando se lembra das horas quando há dúvida no sol posto partem os vizinhos para a vila voam carros na lassidão da estrada vê-se a descoberto o lixo houve vento de madrugada ao longe passa o comboio descarrega-se a carrinha com restos coisas várias com que se faz uma mobília só os pinheiros secos se levantam chão acima tudo desolado e selvagem tudo degradado na viagem tudo como tal se vê ainda 


José Ribeiro Marto, in o longínquo privar dos dias, 2005

terça-feira, junho 10, 2008

a luz as sombras a penumbra

como tudo se refracta na luz o limoeiro a cal o berço a casa perdida por dentro os retratos guardados nas gavetas os cortinados sonolentos uma pevide de abóbora numa colher pedindo nascimento a luz invasora nos móveis procurando memória nascente no fogo do silêncio encontrando-se indo embora voltando agasalhando por dentro onde se treme outro frio ainda de calor transparente sempre a mesma fragilidade a mesma pedra intacta buscando perenidade o mesmo clarão de fogueira os mesmos destroços com que acolhemos os ossos e somos deles a vida inteira José Ribeiro Marto

terça-feira, maio 27, 2008

da janela

(Tirada por mim em Março)
há um gato no telhado de zinco passeando a sua pele cortês mede a sua passada pela intriga armadilhada da mulher que no chão dá leite a outros três a mulher levanta-se veste os olhos no dar cobra o dia à noite as fugas do adormecer a morte não quer passar a mulher vê-se com o coração de sair veste de raposa o pescoço andando na porta ou na janela sai lenta a fugir o gato lento sem surpresa no telhado passeia erra independente
José Ribeiro Marto

sexta-feira, maio 23, 2008

Votos de bom, óptimo, fim-de-semana

traduzidos numa imagem e em palavras:
(Foto tirada por mim, no sábado passado)
as coisas mais simples são as que voam: um pássaro desaparecendo no ar azul , a dança de uma borboleta num junquilho molhado , um réptil procurando respirar no cerco de uma mão indolente o pulso de um coração na levada do vento, escrevendo-se no horizonte as coisas simples: são as que voam, as que crescem nas sombras abertas das árvores, são o piar voado dos pássaros, a fuga repentina dos gatos, são a nossa sede e o nosso rosto aceso; são um grito alado como uma lança dando semente à terra as coisas simples são as molas e os estendais a mulher debruçada sobre a corda contando os anéis pelos dedos do que ainda falta fazer do fogo do fogão que falta subir de uma mesa posta cansada sem resposta as coisas mais simples diz ela: é o sol, mas mal o olha, é o céu, e é um pecado procurar nele estrelas primordiais, é o mar distante, as areias infindas tudo o que é simples, ela sabe nomear não sabe observar, porque isso é da conta de outros dias e ela vive a perguntar
José Ribeiro Marto

sexta-feira, abril 18, 2008

Inaugurei este dia em divertida cavaqueira, num bar, com os companheiros de cinema. A conversa prolongou-se, mais amena, em casa, com a minha vizinha - e amiga, sobretudo amiga -, que fez questão de trazer duas fatias de bolo, que acompanhámos com ginginha de Alcobaça. Preparo-me agora para quatro horas de sono, não sem antes postar um poema que me foi gentilmente oferecido pelo seu autor. Do resto do dia, sei, por enquanto, que vai ser de trabalho e de muita chuva. O resto se verá depois... O poema, então... 


Comum conviver 


conheci um dia na praia de Abrigados um barco cheio de redes brancas verdes fateixas ferros nós de cordame muitos objectos me eram alheios o esventrado barco ao sol em derrame eu colhi as redes nos olhos levei-as da praia vi sinais nas casas espelhando nas paredes o brio do calor muita gente de regresso muito andar preso muita gente parada vigiando as estradas só uma osga vibrando no rigor branco da cal aos meus olhos deram espanto e destemor uma osga pela encosta de um beiral era festa desdenhosa e de asco indeciso o réptil pressentia na sua casa branca a luz da noite acendida de dia no eixo horizontal pensei em grande festa curiosa as pessoas não olhando apaziguadas queriam no entanto para sempre no reino de réptil obscuro insurrecto luminoso escondido ancestral ali pedia-se a morte bem alto a osga formigando na parede avançando e parando um instante rindo delas as crianças o medo sentia-se no falar presente o asco o medo a surpresa o querê-la morta de rajada num ritual de gestos de olhos circundantes procuravam enterrá-la num chão fundo sem a guarda das surpresas mas o osga de cauda caída pisada continuava o seu trajecto pela parede da casa mais gente se desorganizava vendo o dorso belo reluzente o peito suposto branco ardente a cabeça ferida do calor causava náusea ao veraneante nasua fé de morta inaugural só depois erguiam os olhos ao céu ao sol vendo-se viver no interior da justeza deste mundo sem uma osga na parede irradiante exploradora com um moscardo certo no dorso pululante toda a tarde se falou do acontecimento toda a gente se levantou mais toda a fala cruzou eternidades toda a gente falou de seus inimigos naturais à noite na praia o firmamento cruzou-me com a morte na espessura do meu tempo soube-me mais infinito embora o soubesse há muito tempo
a osga formigando ou vista distraída no telhado folgava por entre telhas à cobiça das abelhas com o medo tão comum às quezílias partiam as famílias com o susto de quem gosta de matar por muito tempo se falou por não se ter o gosto de ver morrer sem pisar um réptil no seu comum viver 


(José Ribeiro Marto)

 Um bem haja ao poeta!