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quarta-feira, setembro 13, 2017

As mulheres

Mero devaneio nascido de impressões, não de certezas...

Nas lentas tardes da infância,
as mulheres desfiam histórias
de sofrimento antigo.

Num gesto mecânico,
as mãos, engelhadas e côncavas,
como garras de rapina,
abandonam o regaço,
para ajeitar a travessa do cabelo.

Sentadas nas toscas escaleiras de xisto,
trocam confidências e mezinhas,
receitas e rezas, as mulheres.

Com desvelo,
vêem crescer os filhos e as trepadeiras,
rente às paredes,
ao abrigo da canícula.

Pacientes, aguardam que o pão levede
nas masseiras e que a roupa aclare ao sol.
Com a mesma paciência,
perdoam aos homens,
eternos meninos inconsequentes,
as traições, as demoras
e os filhos em ventres alheios.

No interior das casas, a luz que entra
pelas telhas de vidro
ilumina os objectos quotidianos
que repousam sobre o oleado da mesa
e sobre o velho escano.

Nas lentas tarde da infância,
os homens marcam encontro na taberna
onde entornam copos de vinho
e jogam ao chincalhão e à batota,
esquecidos das mulheres
que os esperam,
com a mesa posta,

depois das ave-marias.

quinta-feira, março 09, 2017

Também eu


... conheço algumas,

da geração dos meus pais, que viveram e ainda vivem para a família, que são, como a avó Josefa do Saramago, traves da casa, silenciosas e resignadas.
Por vezes, oiço os filhos elogiar-lhes a força, o sacrifício de uma vida, mas são os mesmos que continuam a ocupá-las para que eles possam ter uma vida mais confortável e de certos mimos que só as mães sabem fazer daquela maneira. Os mesmos que lamentam a sorte dessas mulheres não são capazes de um gesto generoso que as liberte e as faça sentir mais do que escravas dos maridos, dos filhos, dos netos, da casa.
Infelizmente, apesar de vivermos em pleno século XXI, num país supostamente evoluído, convivo com mulheres da minha geração que, exercendo uma profissão, que lhes ocupa tempo fora e dentro de casa, continuam, em certa medida por opção, porque não souberam dizer «não» a tempo, a ser escravas da casa, do marido, dos filhos. São mulheres "modernas", que se preocupam com a aparência, que vestem de forma juvenil, que tomam café com as amigas a correr, porque em casa as espera um cesto de roupa para passar ou o jantar para fazer. São essas mulheres que se lamentam que surpreendo, não raras vezes, a apontar o dedo àquelas que procuram ter uma vida diferente e que "têm a sorte" de que os maridos as "ajudem". Nem umas têm azar, porque, frequentemente, são responsáveis por esse "azar", nem as outras têm sorte, têm só aquilo que deveria ser tão natural que não merecesse comentários e reflexões ou a necessidade de se celebrar um Dia da Mulher.

quarta-feira, novembro 16, 2016

Hotel room

Dá-se conta de que, à sua volta, há outras mulheres sós. 
Não raras vezes, dá consigo a perguntar-se: se o aspecto físico é, como muitas vezes lhe ocorre, um factor determinante para atrair o sexo oposto, como justificar que algumas dessas mulheres que, além de bem sucedidas profissionalmente, inteligentes e cultas, são fisicamente elegantes e preocupadas com a imagem, continuem sós, aparentemente irremediavelmente sós?

Continuação de uma "historieta" que teve o último "take" aqui.



Edward Hopper, "Hotel room"
.

quinta-feira, abril 28, 2016

Parar


Tenho andado preguiçosa para os comentários, é certo, mas isso não significa que não os leia. Obrigada por todos e pela vossa companhia.

Esta tarde, em que decidi faltar, por sentir que regressei cedo ao trabalho e que  estou a maltratar o meu pé, optei por ficar imóvel no sofá, com as pernas elevadas e uma mantinha por cima. Nada de internet. Em vez disso, vi um flme que queria ver: »As Sufragistas». Gostei. Aliás, gostei bastante. É impossível ficarmos indiferentes ao sofrimento e à determinação daquelas mulheres.

terça-feira, novembro 11, 2014

Coisas de mulher*

«Um comum fio invisível prende as mulheres aos astros. Harmonizadas com as estrelas, ainda que não o saibam, todas as mulheres têm vocação para o infinito. Nós, os homens, ao contrário, estamos soltos na imensidão como gravetos num rio. Talvez por isso, os homens sejam naturalmente nómadas, naturalmente solitários e egoístas, e as mulheres gregárias, altruístas, sedentárias. A sedentarização das civilizações seria, nesta perspectiva, um triunfo feminino.»


José Eduardo Agualusa, A Substância do Amor e Outras Crónicas

*Título da crónica à qual pertencem as palavras transcritas

sábado, março 08, 2014

Muitos dias felizes!


Por vezes, certos dias que o calendário assinala como especiais podem ser apenas o pretexto para reflectirmos sobre alguns assuntos ou para nos mimarmos, ainda que seja com uma simples flor.

Muitos dias felizes para todas as mulheres!

domingo, novembro 25, 2012

Há mulheres


que, por muito que possa murchar dentro e fora delas, por muito que a chuva e o vento as fustiguem, continuam belas e de cabeça erguida.

quinta-feira, março 08, 2012

Aquilo que urge mudar


«De acordo com as Estatísticas/Relatório Anual 2011, elaboradas pela Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), 19 mulheres por dia foram vítimas de violência doméstica em Portugal, no ano passado. No total foram registados 15.724 crimes de violência doméstica contra as mulheres.

Num momento em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, a APAV assinala que a mulher continua a ser a principal vítima de todos os tipos de crime, com 80% dos crimes praticados contra o sexo feminino. O autor do crime é predominantemente do sexo masculino (78%).

Traçando o perfil da vítima de crime, com base nos dados recolhidos pela APAV, verifica-se que: a vítima é mulher; tem entre os 35 e os 40 anos ou mais de 65 anos; é portuguesa; é casada; tem a sua família nuclear com filhos; trabalha por conta de outrem e reside nas grandes cidades.

Na área da violência doméstica verificaram-se mais 505 factos criminosos ao nível dos maus tratos físicos, relativamente a 2010; mais 427 factos nos maus tratos psíquicos; mais 55 factos criminosos no homicídio tentado e mais 5 mortes por homicídio consumado do que em 2010.

A APAV tem tido um papel determinante ao nível do apoio directo à vítima de crime, mas também na prevenção do crime, anterior à vitimação. Essa resposta tem-se traduzido na qualificação dos profissionais que prestam apoio às vítimas de crime, e na sensibilização do público em geral para essas temáticas.
Ao longo de 2011 a APAV realizou 421 acções de sensibilização sobre os temas da violência no namoro, violência doméstica e violência nas escolas, que envolveram 19.624 participantes.»

(Em www. apav.pt)

Texto e imagem "surripiados" do blogue da Marta. 

terça-feira, março 08, 2011

Mulheres

Para todas as mulheres, votos de um dia muito feliz.
"Mirem-se no exemplo/ Daquelas mulheres de Atenas" para que as vossas vidas não correspondam a esse modelo de submissão e de falta de vontade.



Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas:
Vivem pros seus maridos,
Orgulho e raça de Atenas.

Quando amadas, se perfumam,
Se banham com leite, se arrumam
Suas melenas.

Quando fustigadas não choram!
Se ajoelham, pedem imploram
Mais duras penas, cadenas.

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas:
Sofrem pros seus maridos,
Poder e força de Atenas.

Quando eles embarcam soldados
Elas tecem longos bordados,
Mil quarentenas.

E quando eles voltam, sedentos,
Querem arrancar, violentos,
Carícias plenas, obscenas.

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas:
Despem-se pros maridos,
Bravos guerreiros de Atenas.

Quando eles se entopem de vinho
Costumam buscar um carinho
De outras falenas,
Mas no fim da noite, aos pedaços,
Quase sempre voltam pros braços
De suas pequenas, Helenas.

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas:
Geram pros seus maridos,
Os novos filhos de Atenas.

Elas não têm gosto ou vontade,
Nem defeito, nem qualidade;
Têm medo apenas.

Não tem sonhos, só tem presságios.
O seu homem, mares, naufrágios...
Lindas sirenas, morenas.

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas:
Temem por seus maridos,
Heróis e amantes de Atenas.

As jovens viúvas marcadas
E as gestantes abandonadas,
Não fazem cenas.

Vestem-se de negro, se encolhem,
Se conformam e se recolhem
Às suas novenas, serenas.

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas:
Secam por seus maridos,
Orgulho e raça de Atenas.

Chico Buarque

segunda-feira, maio 31, 2010

Mulheres

Com algumas "inverdades" pelo meio...

segunda-feira, março 08, 2010

Mimos



Alguém, esta manhã, no meu local de trabalho, teve a simpática ideia de assinalar o dia, oferecendo a cada mulher uma rosa e dois poemas.

Mais simpático, contudo, seria que algumas dessas mulheres que hoje foram presenteadas deixassem de ser escravas da profissão, dos filhos, da casa e dos companheiros e que pudessem sentir-se respeitadas e, mais do que esposas e mães, mulheres.

A Mulher Mais Bonita do Mundo

(Gravura de Álvaro Cunhal - igual a uma que me ofereceram um dia)


estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

José Luís Peixoto, A Casa, a Escuridão


Para todas as mulheres...  para que se sintam bonitas, neste e em todos os dias do ano, mesmo que ninguém tenha a gentileza de lhes lembrar que estão e que são bonitas.

segunda-feira, junho 08, 2009

mulheres

"E os homens clamam no seu orgulho revoltante de machos:
- A mulher é um ser inferior... em geral de pouca inteligência; fútil, má e falsa.
Mas decerto. É isso. É isso porque a fizeram assim. Fizeram-na assim os homens, e ela mesma colaborou na sua destruição. As mães são as piores inimigas do seu sexo."
Mário de Sá-Carneiro, O Incesto
Por vezes, as mães são "as piores inimigas", sobretudo porque mimam demais os filhos (homens), não os ensinando a ter respeito por elas próprias e por quem, depois, as substitui.