(Vinca)
(Ranúnculo)
Não há, não,
duas folhas iguais em toda a criação.
Ou nervura a menos, ou célula a mais,
não há, de certeza, duas folhas iguais.
Limbo todas têm,
que é próprio das folhas;
pecíolo algumas;
baínha nem todas.
Umas são fendidas,
crenadas, lobadas,
inteiras, partidas,
singelas, dobradas.
Outras acerosas,
redondas, agudas,
macias, viscosas,
fibrosas, carnudas.
Nas formas presentes,
nos actos distantes,
mesmo semelhantes
são sempre diferentes.
Umas vão e caem no charco cinzento,
e lançam apelos nas ondas que fazem;
outras vão e jazem
sem mais movimento.
Mas outras não jazem,
nem caem, nem gritam,
apenas volitam
nas dobras do vento.
É dessas que eu sou.
Texto: António Gedeão, "Pastoral"
Imagens: deep
Este poema do sábio António Gedeão, ou Rómulo de Carvalho, lembra-me que, muitas vezes, nos esquecemos de que também não há duas pessoas iguais, de que todos temos formas diferentes de estar, de pensar e de que até os conceitos de bem-estar e de felicidade são diferentes. Por tantas vezes nos esquecermos dessas diferenças, procuramos, a todo o custo, em forma de conselho ou de crítica, impor aos outros a maneira "ideal" de ser, de pensar e até de sentir.
Há tempos, alguém dizia - e eu concordo plenamente - que a "tolerar" - como a "condescender"- subjaz uma certa superioridade de quem tolera em relação a quem é tolerado. É exactamente isso que fazemos com quem nos rodeia: raramente aceitamos e respeitamos; quando não rejeitamos de todo, toleramos, condescendemos...
Há dias, firmei no meu espírito a ideia de que não quero que me tolerem, mas de que também não quero ser diferente do que sou só para que me aceitem. Posso imitar os outros naquilo que eu considero haver neles de positivo, mas nem tudo o que os enforma me serviria, porque eu sou diferente e é essa diferença que me torna, aos olhos de alguns, especial.