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quinta-feira, novembro 24, 2016

Homem


Leonardo Da Vinci, "Homem Vitruviano"

Inútil definir este animal aflito.
Nem palavras,
nem cinzéis,
nem acordes,
nem pincéis
são gargantas deste grito.
Universo em expansão.
Pincelada de zarcão
desde mais infinito a menos infinito.

António Gedeão, Movimento Perpétuo

Rómulo de Carvalho nasceu num dia 24 de Novembro (1906). Em sua homenagem, em 1997, instituiu-se em Portugal o Dia Nacional da Cultura Científica, que se comemora no aniversário cientista.

terça-feira, novembro 24, 2015

Homem

Inútil definir este animal aflito.
Nem palavras,
nem cinzéis,
nem acordes,
nem pincéis,
são gargantas deste grito.
Universo em expansão.
Pincelada de zarcão
Desde mais infinito a menos infinito.

Do poeta António Gedeão e do homem Rómulo de Carvalho, que nasceu num dia 24 de Novembro (1906)

sábado, março 21, 2015

Todo o tempo é de poesia


Imagem encontrada aqui.
Todo o tempo é de poesia
Desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.
Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia
Todo o tempo é de poesia
Entre bombas que deflagram.
Corolas que se desdobram.
Corpos que em sangue soçobram.
Vidas que a amar se consagram.
Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.

Todo o tempo é de poesia.
Desde a arrumação do caos
à confusão da harmonia.

António Gedeão, Movimento Perpétuo (1956)

segunda-feira, fevereiro 03, 2014

Poema do coração


(Desenho da autoria da minha irmã)

Eu queria que o Amor estivesse realmente no coração,
e também a Bondade,
e a Sinceridade,
e tudo, e tudo o mais, tudo estivesse realmente no coração.
Então poderia dizer-vos:
"Meus amados irmãos,
falo-vos do coração",
ou então:
"com o coração nas mãos".

Mas o meu coração é como o dos compêndios.
Tem duas válvulas (a tricúspida e a mitral)
e os seus compartimentos (duas aurículas e dois ventrículos).
O sangue ao circular contrai-os e distende-os
segundo a obrigação das leis dos movimentos.

Por vezes acontece
ver-se um homem, sem querer, com os lábios apertados,
e uma lâmina baça e agreste, que endurece
a luz dos olhos em bisel cortados.
Parece então que o coração estremece.
Mas não.
Sabe-se, e muito bem, com fundamento prático,
que esse vento que sopra e ateia os incêndios,
é coisa do simpático.
Vem tudo nos compêndios.

Então, meninos!
Vamos à lição!
Em quantas partes se divide o coração?


António Gedeão, Poesias Completas

quarta-feira, fevereiro 06, 2013

As árvores...




... crescem sós. E a sós florescem.

Começam por ser nada. Pouco a pouco
se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.

António Gedeão (excerto de poema)

sábado, março 07, 2009

a todas as mulheres...

Luísa sobe, sobe a calçada, sobe e não pode que vai cansada. (...) Saiu de casa de madrugada; regressa a casa é já noite fechada. Na mão grosseira, de pele queimada, leva a lancheira desengonçada. Anda Luísa, Luísa sobe, sobe que sobe, sobe a calçada. (...) Chegou a casa não disse nada. Pegou na filha, deu-lhe a mamada; bebeu da sopa numa golada; lavou a loiça, varreu a escada; deu jeito à casa desarranjada; coseu a roupa já remendada; despiu-se à pressa, desinteressada; caiu na cama de uma assentada; chegou o homem, viu-a deitada; serviu-se dela, não deu por nada. (...) Na manhã débil, sem alvorada, salta da cama, desembestada; puxa da filha, dá-lhe a mamada; veste-se à pressa, desengonçada; anda, ciranda, desaustinada; range o soalho a cada passada; salta para a rua, corre açodada, galga o passeio, desce a calçada, chega à oficina à hora marcada, puxa que puxa, larga que larga, puxa que puxa, larga que larga, puxa que puxa, larga que larga, puxa que puxa, larga que larga; (...). António Gedeão, Calçada de Carriche em especial a uma amiga que tem sido um exemplo de grande coragem...

domingo, novembro 02, 2008

não há duas folhas iguais

(Vinca)
(Ranúnculo)
Não há, não, duas folhas iguais em toda a criação. Ou nervura a menos, ou célula a mais, não há, de certeza, duas folhas iguais. Limbo todas têm, que é próprio das folhas; pecíolo algumas; baínha nem todas. Umas são fendidas, crenadas, lobadas, inteiras, partidas, singelas, dobradas. Outras acerosas, redondas, agudas, macias, viscosas, fibrosas, carnudas. Nas formas presentes, nos actos distantes, mesmo semelhantes são sempre diferentes. Umas vão e caem no charco cinzento, e lançam apelos nas ondas que fazem; outras vão e jazem sem mais movimento. Mas outras não jazem, nem caem, nem gritam, apenas volitam nas dobras do vento. É dessas que eu sou. Texto: António Gedeão, "Pastoral"
Imagens: deep Este poema do sábio António Gedeão, ou Rómulo de Carvalho, lembra-me que, muitas vezes, nos esquecemos de que também não há duas pessoas iguais, de que todos temos formas diferentes de estar, de pensar e de que até os conceitos de bem-estar e de felicidade são diferentes. Por tantas vezes nos esquecermos dessas diferenças, procuramos, a todo o custo, em forma de conselho ou de crítica, impor aos outros a maneira "ideal" de ser, de pensar e até de sentir.
Há tempos, alguém dizia - e eu concordo plenamente - que a "tolerar" - como a "condescender"- subjaz uma certa superioridade de quem tolera em relação a quem é tolerado. É exactamente isso que fazemos com quem nos rodeia: raramente aceitamos e respeitamos; quando não rejeitamos de todo, toleramos, condescendemos...
Há dias, firmei no meu espírito a ideia de que não quero que me tolerem, mas de que também não quero ser diferente do que sou só para que me aceitem. Posso imitar os outros naquilo que eu considero haver neles de positivo, mas nem tudo o que os enforma me serviria, porque eu sou diferente e é essa diferença que me torna, aos olhos de alguns, especial.