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sexta-feira, dezembro 05, 2025

É quase Natal

 Porque o Natal está quase aí e também se faz de boas memórias... 



Tu ignoras esse Natal
que persiste na minha memória
e me aconchega.
Falo desse Natal que é ainda o meu avô
a abrir a porta que dava para o cortinheiro
às manhãs frias.
Ou um santo António
a assomar numa nota de vinte escudos,
a cor e o aroma das tangerinas
e das laranjas, que se ofertavam ao menino.
O Natal em que a roupa dormia, gelada,
no estendal da varanda,
a chama e o calor da fogueira que procurávamos
depois da missa do galo, quando as luzes da aldeia
se apagavam.
Os almanaques do tio, o arroz doce da tia,
que repousava na sala que só se abria
para as visitas em dias de festa.
Foi num desses natais
que recebi o meu primeiro relógio.
A partir de então,
aprendi a voracidade das horas,
o efeito corruptor do tempo.

deep, dezembro de 2013

Este ano, infelizmente, é menos uma pessoa querida à mesa. Restam as boas memórias e a saudade.

sábado, julho 04, 2020

Lavar e reutilizar

Lembro-me de que, quando era criança, as pessoas, em particular as que viviam na aldeia, davam-se ao trabalho de lavar os sacos de plástico, por estes não serem de uso comum.  Quando iam ao soto (a mercearia onde se encontrava um pouco de tudo) comprar qualquer coisa, levavam-na, por norma, nas mãos ou no avental.Tenho até memória de ver, numa corda, a secar, um saco de uma qualquer marca de pronto a vestir, de um plástico mais resistente, que tinha sido costurado, para poder ser utilizado por mais tempo. A minha mãe ainda hoje lava e põe a secar alguns sacos, por considerar que é um desperdício deitar fora aquilo que ainda pode ser útil.
Durante quase toda a minha vida, guardei apenas os sacos limpos de supermercado (que fui, gradualmente, substituindo por outros mais resistentes, reutilizáveis) e da fruta e legumes, se inequivocamente limpos, deitando fora os sacos sujos. Nos últimos tempos, em tempos de pandemia, tenho dado comigo a lavar e a pôr ao sol tudo o que é saco, depois de limpas e arrumadas as compras.

quarta-feira, dezembro 18, 2019

Memórias

Porque o Natal também se faz de boas memórias... 

Tu ignoras esse Natal
que persiste na minha memória
e me aconchega.
Falo desse Natal que é ainda o meu avô
a abrir a porta que dava para o cortinheiro
às manhãs frias.
Ou um santo António
a assomar numa nota de vinte escudos,
a cor e o aroma das tangerinas
e das laranjas, que se ofertavam ao menino.
O Natal em que a roupa dormia, gelada,
no estendal da varanda,
a chama e o calor da fogueira que procurávamos
depois da missa do galo, quando as luzes da aldeia
se apagavam.
Os almanaques do tio, o arroz doce da tia,
que repousava na sala que só se abria
para as visitas em dias de festa.
Foi num desses natais
que recebi o meu primeiro relógio.
A partir de então,
aprendi a voracidade das horas,
o efeito corruptor do tempo,
deep, dezembro de 2013

domingo, julho 28, 2019

Memórias

dos 80's...

domingo, dezembro 03, 2017

Memórias do frio

Em repetição por aqui, porque Dezembro não é apenas o Natal e todo o consumismo inerente. Dezembro é, mais do que isso, as memórias do frio, dos gestos pequenos que enchiam o coração e das pessoas cuja presença serena nos abraçava.



Tu ignoras esse Natal
que persiste na minha memória
e me aconchega.

Falo desse Natal que é ainda o meu avô
a abriràs manhãs frias, a porta
que dava para o cortinheiro*.

Ou um santo António
a assomar numa nota de vinte escudos,
a cor e o aroma das tangerinas
e das laranjas, que se ofertavam ao menino.

O Natal em que a roupa dormia, gelada, 
no estendal da varanda,
a chama e o calor da fogueira que procurávamos
depois da missa do galo, quando as luzes da aldeia
se apagavam.

Os almanaques do tio, o arroz doce da tia,
que repousava na sala que só se abria
para as visitas em dias de festa.

Foi num desses natais
que recebi o meu primeiro relógio.

A partir de então,
aprendi a voracidade das horas, 
o efeito corruptor do tempo.

deep, Dezembro de 2013

*quintal

domingo, novembro 26, 2017

Também não sei

Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.
Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,
que te procuram.

Herberto Helder

Há poemas, datas e pessoas que não esquecemos, por mais que o tempo passe e as rugas e cabelos brancos se mulipliquem e as mágoas se acumulem...

segunda-feira, novembro 13, 2017

O soto


Os pesos da balança do soto da tia

Na aldeia havia dois: o soto do senhor A., que herdara do pai, um senhor de cabelos brancos com o mesmo nome, e o soto da tia, a quem todos os sobrinhos nos referíamos por "a tia do soto", uma vez que já geria aquele espaço quando nascemos.
No soto, vendia-se um pouco de tudo: mercearia, utensílios de latão e de plástico, lãs, atoalhados, galochas, pregos, produtos de higiene e petróleo para as candeias. No soto também se vendia vinho a copo ou a quartilho, porque ambos os sotos eram também taberna, onde os homens se juntavam e onde, por vezes, iniciavam discussões, que resultavam em pancadaria ou facada. No soto do senhor A., o espaço do comércio e o da taberna eram o mesmo. O soto da tia comunicava com a taberna, através de umas escadas. Os fregueses entravam por uma porta exterior. Neste espaço, feudo dos homens, mulheres e crianças só entravam quando os mandavam comprar vinho.
Em ambos os sotos, havia pesados balcões de madeira, aos quais o tempo e o uso tinham desgastado e emprestado um certo brilho, prateleiras até ao tecto, pequenas tulhas, que guardavam alguns produtos a granel. Não faltavam as balanças e os pesos e o papel grosso, por vezes listado, onde se embrulhava o bacalhau, ou o custaneiro, usado para o queijo.
Na aldeia, as pessoas tinham preferência por um dos sotos, por simpatia ou lealdade aos propriétários. Quando precisavam de alguma produto que sabiam vender-se num deles, que não era o da lealdade ou simpatia, pediam a alguém que comprasse o que precisavam em segredo, como se fosse para a pessoa, ou iam as próprias, "à escapula", fazer a compra, convictas, como gato escondido com rabo de fora, de que não tinham deixado rasto.
Lembro-me que as raparigas um pouco mais velhas do que eu iam ao soto, a medo, comprar pensos higiénicos «Modess». Se calhava estar um homem ao balcão, o que acontecia frequentemente no estabelecimento do senhor A., voltavam para casa com outro artigo.
Na semana da Páscoa, quando as mulheres passavam o dia no forno, a amassar e a cozer folares e calços, o soto era lugar que, a pedido das mães, as crianças mais visitavam, para ir buscar manteiga, bicarbonato ou fermento para os folares, ou petróleo para a candeia, quando o trabalho era maior do que o dia.
Na porta do soto não havia, como hoje, a indicação da hora de abertura e de fecho. O soto abria, mesmo aos domingos e feriados, quando alguém precisava de alguma coisa. Bastava bater na porta dos proprietários.
Durante os dias que passávamos na aldeia, pouco mais de um fim de semana, nas festas, ou quase um mês no Verão, a minha mãe fazia as compras no soto da irmã. Esta tinha, como era então hábito, um livro de deve e haver, onde assentava as compras e os preços. No dia em que regressávamos à vila, a minha mãe costumava ir pagar o que devia e que estava registado no tal livro. Antes de fechar as contas, costumava pedir à minha tia que pesasse bolachas, torradas ou maria, que vinham em caixas e se vendiam ao peso, e queijo, de barra ou de bola. 
Entretanto, os sotos fecharam. Estes foram substituídos por uma modesta mercearia e as tabernas pelo café, espaço que homens e mulheres partilham quase em igualdade e onde raramente se vende vinho.

Soto - s. m.
[Portugal: Beira; Trás-os-Montes] Estabelecimento comercial (Dicionário Priberam)

quinta-feira, dezembro 15, 2016

Memórias de Natais passados


(Um dos "bonecos" da minha irmã)

No meu tempo (já pareço uma velhota a falar!), o Natal era ainda uma festa exclusivamente religiosa. Não se ouvia falar de Pai Natal, nem de renas. Os presentes, por aqui muito modestos, eram colocados pelos pais, na madrugada do dia 25, junto aos sapatos, que deixávamos estrategicamente aos pés da cama, crentes de que o Menino Jesus viria enquanto estivéssemos a dormir.
Nos natais que recordo, as manhãs eram geladas - nas casas, a única fonte de calor era a lareira - e não fosse a ansiedade de desembrulhar os presentes, o frio era mais do que pretexto para preguiçarmos mais um pouco na cama, até que os apelos da mãe se transformassem em ameaça. Na noite de consoada,comia-se - e ainda se come - polvo e bacalhau cozidos, acompanhados de couve, rábanos e batatas e das iguarias doces que são comuns a quase todo o país.
Nesse tempo da infância, Natal sem Missa do Galo não era Natal. Havia no ritual de sair a desoras de casa e de regressar às escuras - nas aldeias, a iluminação pública estava ligada apenas até à meia-noite ou uma hora - uma cumplicidade ímpar. Na igreja, entoavam-se cânticos próprios da época, beijava-se o Menino, a quem se oferecia, simbolicamente, laranjas (que algumas crianças mais pobres recebiam também no sapatinho como presente). O presépio, como hoje ainda acontece, era feito com musgo e um zimbro no lugar do tradicional pinheiro.
Quando se saía da igreja era quase uma obrigação parar algum tempo ao pé da imponente fogueira, alimentada por gigantescos troncos (de castanheiro, a maior parte), que os rapazes, com grande orgulho, acarretavam em carros de bois.
Mas o melhor do Natal era, então, o reencontro com a família, o hábito - que ainda mantemos - de andarmos, em bando, de casa em casa, a desejar Boas Festas e a provar o fumeiro.
Confesso que me desgosta um pouco o consumismo que actualmente se associa ao Natal, e a que eu própria não consigo fugir. Não me choca que pessoas que afirmam convictamente a sua anti-religiosidade - eu própria, a esta altura, talvez seja cátólica mais por tradição do que por Fé - celebrem o Natal, porque este já assumiu o estatuto de festa universal, que excede as barreiras da crença. Usarmos o Natal como pretexto para estarmos juntos é razão mais do que válida para o celebrarmos, ainda que pareça haver alguma incoerência nessa celebração.

domingo, outubro 09, 2016

Coisas pequenas

... que nos fazem felizes. :)

«- Então eu sou feia?
- Não, tu és bonita, porque tens um cabelo bonito, com muitos caracóis e porque me penteias bem e pões um cheirinho... um creme que cheira bem no meu cabelo.»

Conversa entre a tia e a sobrinha, em 2008. A "piquena" está quase a festejar os 13 anos.

quarta-feira, setembro 28, 2016

Talvez esteja saudosista

Há dias,quando tirei da estante um livro da colecção «Patricia», para emprestar à minha sobrinha, ocorreu-me o texto que agora recupero do baú.

Capa do único livro da colecção que comprei
Uma imagem igual a um dos meus posters

Recordo como fui uma adolescente típica, com dias marcados por paranóias e euforias, por sonhos e paixões assolapadas, por crises de ansiedade e episódios de anorexia, de que aparentemente saí ilesa - ou não!
Na altura, lia, sofregamente, os volumes da Patrícia e sonhava protagonizar, como ela, aventuras e desvendar casos misteriosos.
Lembro-me de, pelos 13 ou 14 anos, ter passado aproximadamente um mês e meio em Lisboa, repartindo os dias entre as casas de diferentes familiares. De lá, trouxe a aversão aos vestidinhos, que troquei por umas calças amarelo-canário, artilhadas com bolsos, molas e fechos por todo lado e uma t-shirt de riscas bem coloridas, a fazer conjunto - a propósito desta vestimenta, lembro-me de uma vizinha de uma das minhas tias ter exclamado, atónita, ao ver-me:"Ah! Mas ela veste-se como as meninas de cá!" Depreendo que a senhora deve ter confundido Trás-os-Montes com Marte!!!
Acompanhou-me igualmente, no regresso, uma "doença" que começara a desenhar-se antes, mas que ganhou confirmação na capital, influenciada por uma das minhas primas e pelas amigas que, na altura usavam roupa verde-alface e cor-de-laranja e, pelo menos uma delas, calçava umas sandálias Colibri, anunciadas em tudo o que era outdoor em Lisboa: a "Duran-mania". Nunca fui de arrancar cabelo ou de emitir guinchinhos histéricos - como as fãs dos Beatles -, mas lembro-me de comprar a Bravo, na altura em alemão, de que não sabia uma palavra, só porque saía uma minúscula fotografia dos Duran Duran, de copiar para um caderno as letras das canções destes e de outros ídolos e de ornamentar - para desgosto da minha mãe - as paredes do quarto com fotografias em poster dos "meninos". Ao contrário da maior parte das raparigas, não tinha como preferido o Simon ou o John, antes o Roger, o baterista, talvez por parecer mais discreto.
Muita coisa mudou desde a minha adolescência - inclusive os meus gostos musicais -, mas confesso-vos que, de vez em quando, me sabe bem ouvir isto, pelos velhos tempos!

terça-feira, setembro 27, 2016

Das memórias boas...


Resgato do baú um texto com alguns anos.

Assomo à varanda. Aqui é impossível não acreditarmos que a Terra é redonda. É difícil não nos sentirmos extasiados com tamanha beleza. O olhar, que, em dias claros, se perde pelos montes até ao planalto, embate agora numa cortina de água.

Num plano mais próximo, campos de verde novo alternam com terras recentemente lavradas.
Aproximo o olhar, que agora se fixa nos caminhos estreitos de terra batida, ladeados de muros de xisto que, como tentáculos, se estendem até às hortas, aos pomares, aos soutos, só depois aos olivais.
Sob a chuva miudinha, que se entranha no empedrado das ruas desertas (essas ruas que já foram de lama e de xisto e onde rolaram alegres carros feitos de tábuas e de rodas de charrua), nas árvores e nos telhados, e o fumo que se desprende das chaminés das poucas casas ainda habitadas, a aldeia é um ser melancólico e solitário, ofendido com a indiferença dos homens que se recolhem no calor das lareiras, no agasalho das casas. Também lhe viro as costas, quando um frio húmido me chega aos ossos. 
Sento-me no velho e pesado escano de madeira, em frente à lareira, onde pedaços de grossos troncos ardem. Memórias antigas teimam em roubar-me ao presente. O sabor inigualável da sopa de feijão vermelho que a tia cozinhava, à lareira, em panela de ferro. O aroma do café de mistura que se exalava do pote de barro preto. O tio que respondia em frases rimadas e que usava sempre colete, de cujo bolso pendia a corrente de um relógio. O rádio Westinghouse do tio que ele guardava tão religiosamente que só o víamos - e ouvíamos - quando coincidia a nossa visita com a hora do noticiário ou do terço. Os almanaques que, com o tempo, passámos a conhecer de cor. As conversas demoradas à lareira.
As histórias de tempos difíceis, de pobreza, de partilha e de bondade, apesar de tudo...

quarta-feira, junho 29, 2016

Em repetição

Segue os trilhos da infância.
Não os percas de vista.

Neles, encontrarás um som.
Talvez o chiar dos carros de bois 
de regresso à aldeia,
no fim de uma tarde de Verão,
talvez o canto das cigarras.

Segue-os...
Neles, encontrarás aquele raio de luz
que, intrometendo-se pelas frinchas do telhado,
ilumina os objetos quotidianos que repousam
sobre a mesa e sobre o velho escano.

Segue esses trilhos primeiros...
Neles, habitam ainda o aroma amargo
das giestas e o toque resinoso das estevas.

Encontrarás pedras, é certo.
Cobrir-te-ás de pó... não duvides.

Mas deles emergirão as vozes
que te seguram e que te guiam

no regresso a ti.

deep, 8 e 9 de Fevereiro de 2016


Para ouvir aqui. (A gravação é uma experiência, apenas.)

segunda-feira, abril 25, 2016

Revolução

Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta
Como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício
Como a voz do mar
Interior de um povo
Como página em branco
Onde o poema emerge
Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação

Sophia de Mello Breyner Andresen, O Nome das Coisas
Poema escrito no dia 27 de Abril de 1974

Tinha acabado de completar cinco anos quando aconteceu a Revolução. Não tenho qualquer memória desse dia, não só por ser muito jovem e as minhas preocupações serem, nessa altura, poucas ou nenhumas, mas talvez também por viver longe dos palcos em que tudo teve lugar.
Desse tempo, guardo a lembrança da música "Tourada", que ouvia cantar aos meus primos mais velhos e de outras músicas, hoje indissociáveis da Revolução. Na minha memória moram igualmente os cravos que, em Abril, as professoras nos pediam para desenhar, como as imagens de alguns cartazes ou de murais associados ao antes e ao depois, e palavras como "comício" e "fascista". 
Naquela época, não tínhamos, como a maior parte das famílias, televisão. Dispúnhamos apenas de um pequeno rádio, que, segundo me disse a minha mãe hoje à tarde, enquanto víamos "Capitães de Abril", permitiu aos da casa e a alguns vizinhos, ir acompanhando os acontecimentos desse dia de Abril de há 40 anos.
Lembro-me que, pouco depois, apareceram na vila militares. Tenho uma vaga ideia deles no interior e na entrada do café Primavera.

Texto "resgatado" do baú


domingo, fevereiro 28, 2016

We're just two lost souls





Perdi a conta às vezes que publiquei esta música, mais ainda às vezes que a ouvi. Oiço-a de novo e, de novo, me assaltam boas e más recordações. Oiço-a e um misto de saudade e de tristeza deixa-me um nó na garganta. Tenho saudade de uma noite em que eu e a minha companheira e cúmplice de muitas horas a ouvimos repetidamente até conseguirmos registar a letra. Estávamos de férias numa pequena aldeia a poucos quilómetros do mar. Era Setembro. (Naquele tempo o ano lectivo só começava em Outubro.) 
Oiço-a e não consigo deixar de me lembrar de também de ti e de ficar triste por perceber que estão agora mais longe os teus dedos do meu cabelo. 


How I wish, how I wish you were here. 
We're just two lost souls swimming in a fish bowl, year after year, 
Running over the same old ground. 
What have we found? 
The same old fears. 
Wish you were here.

terça-feira, fevereiro 09, 2016

Segue os trilhos da infância


Segue os trilhos da infância.
Não os percas de vista.

Neles, encontrarás um som.
Talvez o chiar dos carros de bois 
de regresso à aldeia,
no fim de uma tarde de Verão,
talvez o canto das cigarras.

Segue-os...
Neles, encontrarás aquele raio de luz
que, intrometendo-se pelas frinchas do telhado,
ilumina os objetos quotidianos que repousam
sobre a mesa e sobre o velho escano.

Segue esses trilhos primeiros...
Neles, habitam ainda o aroma amargo
das giestas e o toque resinoso das estevas.

Encontrarás pedras, é certo.
Cobrir-te-ás de pó... não duvides.

Mas deles emergirão as vozes
que te seguram e que te guiam

no regresso a ti.

deep, 8 e 9 de Fevereiro de 2016

terça-feira, novembro 24, 2015

Memórias de outros tempos


A minha mãe costuma contar que, na sua infância, as crianças pobres, que na aldeia eram quase todas, andavam descalças, quando estava bom tempo, ou de socas, nos dias frios, e que costumavam, à vez, levar brasas num balde de lata (ou num pequeno caldeiro), para aquecer a escola.
Foi inspirada nesses relatos que a minha irmã fez o desenho que surripiei do caderno dela.

quinta-feira, novembro 19, 2015

Memórias

Entra na cozinha, onde eu e a mãe conversamos, sem alarido e com um sorriso doce, que não perdeu desde criança. Levanto-me para a cumprimentar e reparo que aperta nas mãos um saco de água quente cuja capa é um elefante cinzento de peluche.

- Eu conheço esse elefante. - comento, em tom de brincadeira - Há muito tempo que não o via.

Em troca, recebo novo sorriso. À memória vem-me a imagem da menina que conheci, com catorze ou quinze meses, há vinte e dois anos.

domingo, novembro 08, 2015

Datas

8 de Novembro de 1987. A data ficou-me. Não tenho a certeza se foi o primeiro de muitos dias na Invicta, se foi o primeiro dia de aulas na faculdade. Em virtude da reestruturação de alguns cursos, as aulas nesse ano só tiveram início em Novembro. Recordo que por cá estava mais frio do que tem estado nos últimos dias. Ainda tenho presente a roupa que levava vestida e que era demasiado quente para o clima menos agreste do Porto. Aliás, quando Novembro ia já avançado, espantava-me que as pessoas com quem me cruzava se vestissem como se fosse Inverno.
Na sexta-feira passada, regressei à cidade, como regresso sempre que posso. Desta vez, para uma consulta (nada de grave, felizmente). Senti calor demais para a época. Estranhei as pessoas vestidas com blusas ou t-shirts de manga curta, como me pareceram extemporâneos o cheiro das castanhas assadas e os enfeites de Natal num dos centros comerciais. 

quarta-feira, novembro 12, 2014

Em tempo de castanhas


Lembro-me que era tempo de castanhas e que frequentávamos a então chamada Escola Primária. Na manhã de um dia que nasceu pouco simpático, saímos para o campo, a pé, com as professoras. Depois de termos feito o magusto, comido as castanhas e de termos “enforretado” (tisnado) as caras, como mandava a tradição, preparámo-nos para fazer o caminho de regresso à vila. Escassos minutos depois, fomos surpreendidos por uma chuva impiedosa, que nos obrigou a abrigarmo-nos numa curriça. Não estou certa do desfecho, mas tenho a vaga ideia de que alguém nos foi buscar de camioneta, algo que já teria sido combinado, visto que, naquele tempo, os telemóveis estavam longe de existir.

sexta-feira, abril 25, 2014

Memórias (poucas) da Revolução

Tinha acabado de completar cinco anos quando aconteceu a Revolução. Não tenho qualquer memória desse dia, não só por ser muito jovem e as minhas preocupações serem, nessa altura, poucas ou nenhumas, mas talvez também por viver longe dos palcos em que tudo teve lugar.
Desse tempo, guardo a lembrança da música "Tourada", que ouvia cantar aos meus primos mais velhos e de outras músicas, hoje indissociáveis da Revolução. Na minha memória moram igualmente os cravos que, em Abril, as professoras nos pediam para desenhar, como as imagens de alguns cartazes ou de murais associados ao antes e ao depois, e palavras como "comício" e "fascista". 
Naquela época, não tínhamos, como a maior parte das famílias, televisão. Dispúnhamos apenas de um pequeno rádio, que, segundo me disse a minha mãe hoje à tarde, enquanto víamos "Capitães de Abril", permitiu aos da casa e a alguns vizinhos, ir acompanhando os acontecimentos desse dia de Abril de há 40 anos.
Lembro-me que, pouco depois, apareceram na vila militares. Tenho uma vaga ideia deles no interior e na entrada do café Primavera.