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terça-feira, maio 02, 2017

Mas afinal o que vem a ser a loucura?

Resgato do baú um texto que escrevi há pouco mais de um ano para publicar no Pomar de Letras, a pedido do seu anfitrião.


«Mas afinal o que vem a ser a loucura? Um enigma... Por isso mesmo é que às pessoas enigmáticas, incompreensíveis, se dá o nome de loucos...

Que a loucura, no fundo, é como tantas outras, uma questão de maioria. A vida é uma convenção: isto é vermelho, aquilo é branco, unicamente porque se determinou chamar à cor disto vermelho e à cor daquilo branco. A maior parte dos homens adoptou um sistema determinado de convenções: é a gente de juízo... Pelo contrário, um número reduzido de indivíduos vê os objectos com outros olhos, chama-lhes outros nomes, pensa de maneira diferente, encara a vida de modo diverso. Como estão em minoria, são doidos...»

«Enganaram-se vocês e os médicos com isso a que chamaram loucura. O vosso espírito é demasiadamente acanhado para compreender tudo quanto não seja o comum... o vulgar (...).»

Mário de Sá-Carneiro, Loucura


A grandeza das obras não se mede, como a das pessoas, pelo tamanho. Podemos afirmá-lo acerca de Loucura, de Mário de Sá-Carneiro, poeta do “Orpheu”, como Pessoa e Almada Negreiros. A obra, que, na edição que tenho em meu poder, não conta com mais de sessenta páginas, foi escrita em 1910, um ano significativo para Portugal, quer política quer socialmente. Talvez por isso traduza pessimismo e desalento face à existência.

A narração faz-se em primeira pessoa por aquele que é o amigo mais íntimo de Raúl Vilar, o protagonista. Raúl é um jovem rico, desocupado, a quem tudo aborrece. O seu temperamento inconstante leva-no a oscilar entre o desalento e as paixões extremas. Não acredita no amor e vê a literatura, em particular a poesia, como manifestação de sentimentalismo lamechas. Contudo, a sua visão do amor muda quando, numa festa, conhece Marcela, por quem desenvolve, inicialmente, um amor platónico, que redunda em amor físico, sobretudo depois do casamento. Esse amor por Marcela, que julga perfeita, leva-o a dedicar-se com afinco à escultura, produzindo algumas obras que fazem dele um artista da moda. Contudo o amor que dedica à esposa não o impede de a trair com uma das suas modelos.

Raúl vive obcecado com a passagem do tempo e com o envelhecimento, com a forma como este contribui para a degradação dos corpos. É esta obsessão que o leva a planear algo que constituirá, na sua óptica, uma forma de preservar a beleza de Marcela, a quem pretende dedicar amor eterno, e uma prova desse amor.

Auxiliado pelas suas memórias e pela leitura de um diário que o amigo deixou, o narrador passa em revista a vida de Raúl desde a infância, numa tentativa de justificar o seu acto, que outros julgaram um sinal de insanidade. Este périplo pela vida do protagonista serve ao narrador para refectir sobre temas como a loucura, o tema central da obra, o amor ou a arte.

Mário de Sá-Carneiro morreu há 100 anos, no dia 26 de Abril de 1916, com apenas 26 anos. Apesar da sua tenra idade e da sua vida curta, o autor deixou uma obra, que sendo breve, revela grande valor estético.

terça-feira, abril 26, 2016

O outro

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.
Mário de Sá Carneiro, Indícios de Oiro (1916)



Mário de Sá-Carneiro, um dos poetas de Orpheu, amigo íntimo de Fernando Pessoa, morreu há 100 anos.
O meu poema preferido continua a ser "Quase", seguido de "Caranguejola" e de "Serradura".

domingo, fevereiro 28, 2016

Quando a ti, meu amor

Vi, na lateral, o título de um post do Francisco José Viegas, "Vem à Quinta-Feira" (que é, afinal, o título do último livro da Filipa Leal) e, inevitavelmente, vieram-me à cabeça as palavras de Mário de Sá-Carneiro, que são recorrentes em mim, aliás como outros versos de "Caranguejola":

Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora, no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras:
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.

O resto do texto aqui.

segunda-feira, setembro 30, 2013

Nestes últimos dias

sobretudo:

Vontade de dormirFios d'ouro puxam por mim 
A soerguer-me na poeira - 
Cada um para o seu fim, 
Cada um para o seu norte... 
(...)

Quero dormir... ancorar... 
(...)Excerto de um poema de Mário de Sá-CarneiroComeço a ficar preocupada...

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

Serradura (Mário de Sá-Carneiro)

A minha vida sentou-se
E não há quem a levante,
Que desde o Poente ao Levante
A minha vida fartou-se.


E ei-la, a mona, lá está,
Estendida, a perna traçada,
No infindável sofá
Da minha Alma estofada.


Pois é assim: a minha Alma
Outrora a sonhar de Rússias,
Espapaçou-se de calma,
E hoje sonha só pelúcias.
(...)


Dentro de mim é um fardo
Que não pesa, mas que maça:
O zumbido dum moscardo,
Ou comichão que não passa.

(...)
Qualquer dia, pela certa,
Quando eu mal me precate,
É capaz dum disparate,
Se encontra a porta aberta...

Isto assim não pode ser...
Mas como achar um remédio?
--- Pra acabar este intermédio
Lembrei-me de endoidecer:

(...)

Vou deixá-la --- decidido ---
No lavabo dum Café,
Como um anel esquecido.
É um fim mais raffiné.

sábado, fevereiro 06, 2010

Fim

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!


Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro!


Mário de Sá-Carneiro



Dos 18/19 aos 21/22, Mário de Sá-Carneiro foi um dos meus poetas e prosaístas de eleição. Nesse período, li quase toda a sua (curta) obra. "Caranguejola" e "Quase" (um excerto na barra lateral) continuam a ser poemas recorrentes. Este "Fim", que já não ouvia nem lia há algum tempo, recordou-mo Cruzeiro Seixas, que o declamou num documentário que a RTP2 acabou de passar sobre o artista plástico e também poeta surrealista.

sexta-feira, março 10, 2006

desejos de fim-de-semana...

Ah, que me metam entre cobertores, E não me façam mais nada!... Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada, Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores! Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado... Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira... Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira. (...) Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras, Se quiseres ser gentil, perguntar como estou. Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras... Nada a fazer minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.
Mário de Sá-Carneiro, Caranguejola (excertos)
Venham os bolos de ovos... a garrafa de Madeira fica adiada para quando passar a gripe...

quarta-feira, outubro 19, 2005

"Quase" Um pouco mais de sol - eu era brasa. Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe de asa... Se ao menos eu permanecesse aquém... (...) Mário de Sá-Carneiro "Liberdade" Ai que prazer Não cumprir um dever, Ter um livro pra ler E não o fazer! Ler é maçada, Estudar é nada. O sol doira Sem literatura. O rio corre, bem ou mal, Sem edição original. E a brisa, essa, De tão naturalmente matinal, Como tem tempo não tem pressa... (...) F. Pessoa Escolhi estas estrofes para abrir o meu blog, porque me ocorrem frequentemente por traduzirem estados de alma que me caracterizam.