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quinta-feira, junho 11, 2026

Há um rumor


Há um rumor de folhagem
nas tardes lentas da infância, 
e há vozes longínquas 
que o calor estrangula. 

Sentada no silêncio, 
entregue à penumbra 
estendo as mãos, 
mas da limpidez 
e da frescura das fontes
os dedos tocam só a memória. 

De quando em quando, 
há ainda uma rã que me ensina
o desgaste das pedras,
a verdura dos limos,
há ainda o odor dos pomos 
que, debruçados,
trocam serenas palavras com a água.

Junho de 2009

segunda-feira, março 02, 2026

Ausência


São nossos desde que nascemos, por isso, acreditamos, de uma crença irracional, que são eternos. Mesmo volvido um ano, continuamos a não acreditar, ou a preferir não acreditar, que já não estão connosco, que já não podemos ouvir-lhes a voz, confrontar-nos com as suas teimosias ou abrigarmo-nos na sua preocupação ou nos seus conselhos.

A ausência está na porta da casa que se fecha e onde temos renitência em voltar, no telefonema que falta e que confirmava preocupação e afeto e em tantas outras coisas.

A presença está nas memórias, nas aprendizagens e nos gestos que, consciente ou inconscientemente, imito, nos sons, nos aromas, em incontáveis registos, que os mais de 50 anos de convívio me proporcionaram.

terça-feira, fevereiro 03, 2026

El viaje definitivo



      

     Y yo me iré. Y se quedarán los pájaros

cantando;
y se quedará mi huerto, con su verde árbol,
y con su pozo blanco.

Todas las tardes, el cielo será azul y plácido;
y tocarán, como esta tarde están tocando,
las campanas del campanario.

Se morirán aquellos que me amaron;
y el pueblo se hará nuevo cada año;
y en el rincón aquel de mi huerto florido y encalado,
mi espíritu errará nostáljico…

Y yo me iré; y estaré solo, sin hogar, sin árbol
verde, sin pozo blanco,
sin cielo azul y plácido…
Y se quedarán los pájaros cantando.

Juan Ramón Jiménez, Poemas agrestes,
 1910-1911.

segunda-feira, janeiro 05, 2026

Aceitar o dia. O que vier.


(Imagem captada na Serra de Bornes, em dezembro de 2025)

 2025 não foi um ano bom. Houve demasiadas perdas e mudanças.

Não traço projetos para este ano recém nascido. Só quero que seja mais sereno que o anterior e que eu seja suficientemente forte para aguentar o que vier.

Ocorre-me um poema de Rosa Alice Branco:

Aceitar o dia. O que vier.
Atravessar mais ruas do que casas,
mais gente do que ruas. Atravessar 
a pele até ao outro lado. Enquanto
faço e desfaço o dia. O teu coração
dorme comigo. Agasalha-me as noites
e as manhãs são frias quando me levanto.
E pergunto sempre onde estás e porque
as ruas deixaram de ser rios. Às vezes
uma gota de água cai ao chão
como se fosse uma lágrima. Às vezes
não há chão que baste para a enxugar.


sexta-feira, dezembro 05, 2025

É quase Natal

 Porque o Natal está quase aí e também se faz de boas memórias... 



Tu ignoras esse Natal
que persiste na minha memória
e me aconchega.
Falo desse Natal que é ainda o meu avô
a abrir a porta que dava para o cortinheiro
às manhãs frias.
Ou um santo António
a assomar numa nota de vinte escudos,
a cor e o aroma das tangerinas
e das laranjas, que se ofertavam ao menino.
O Natal em que a roupa dormia, gelada,
no estendal da varanda,
a chama e o calor da fogueira que procurávamos
depois da missa do galo, quando as luzes da aldeia
se apagavam.
Os almanaques do tio, o arroz doce da tia,
que repousava na sala que só se abria
para as visitas em dias de festa.
Foi num desses natais
que recebi o meu primeiro relógio.
A partir de então,
aprendi a voracidade das horas,
o efeito corruptor do tempo.

deep, dezembro de 2013

Este ano, infelizmente, é menos uma pessoa querida à mesa. Restam as boas memórias e a saudade.

domingo, setembro 28, 2025

Cores de outono

Ontem, foi dia de vindima e de convívio em família. À socapa, procurando não descurar o trabalho, fui captando alguns pormenores outonais.


    





 

Vale mais tarde...

 Parabéns, ana e CC!

Votos de dias muito felizes.

Hoje só tenho para oferecer uma paisagem do meu paraíso e um poema do transmontano (e muito premiado) A. M. Pires Cabral.



Não me mostres nenhum norte
nem estradas para lá:
são tudo embustes.

Mostra-me antes pedras, folhas mortas
de Outono atapetando o chão das matas,
voos de libelinha rasando o sol poente,
cândidas risadas infantis.

Quero eu dizer: mostra-me coisas
daquelas que se corrompem sem pressa.


sábado, março 22, 2025

Aconteceu-me um poema


 Aconteceu -me um poema.

Não era longo, nem erudito.
Era apenas a leve pena
de um pássaro no meu ombro,
a luz coada que me chegou
da infância,
o cheiro a feno...
Aconteceu -me um poema.
Ou talvez não fosse um poema.
Apenas um eco, uma brisa,
um grão de areia a morder-me
a memória...
Talvez fosse somente
esse aroma verde de mentrastos,
tinta de amoras nos dedos.
Talvez não fosse um poema...
Para se escrever um poema,
dizem os entendidos,
é preciso ser-se poeta,
é preciso saber escandir os versos,
acertar a métrica, o ritmo e,
com inteligência, a rima.
Para se ser poeta, é preciso que alguém
nos conceda o nome e o estatuto.
É preciso saber usar, com mestria,
figuras de retórica e insinuar sentidos ocultos.
É provável que não me tenha acontecido,
afinal, um poema,
mas vi nascer na página algo que lembra
uma flor a brotar no asfalto.

deep, julho de 2024

Na verdade, não sendo poetisa, aconteceu-me apenas um "devaneio"...
Imagem captada nas Furnas, São Miguel (2022)

Toda a poesia

 Toda a poesia

é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.

Eugénio de Andrade, Os Sulcos da Sede

Imagens captadas em São Miguel, há alguns anos

segunda-feira, março 10, 2025

A Natureza não faz pausas...

 Alheia ao que sentimos, às cores lúgubres que se instalam dentro de nós, a Primavera chega, para tingir de cor os campos.



domingo, dezembro 29, 2024

Boas Festas e votos de um 2025 feliz...

 ... para quem (ainda) passa.



INVERNO

Velho, velho, velho
Chegou o Inverno.

Vem de sobretudo,
Vem de cachecol,
O chão onde passa
Parece um lençol.

Esqueceu as luvas
Perto do fogão:
Quando as procurou,
Roubara-as um cão.

Com medo do frio
Encosta-se a nós:
Dai-lhe café quente
Senão perde a voz.

Velho, velho, velho.
Chegou o Inverno.

Eugénio de Andrade, Aquela nuvem e outras 

Ver menos


sábado, setembro 28, 2024

Rimas prontas para pessoas tontas

 

Era uma vez um gato espanhol
que passava os dias a tostar ao sol.
Quando tinha fome, comia um rissol
e, se bem calhava, bebia um Sumol.

                      *

Era um pato peripato
que dormia num sapato
e um gato pigmeu
que nada tinha de seu
e um cão mandrião
que não aprendia a lição.

Veio o vento barulhento,
levou tudo pelo ar.
Foi-se o pato, foi-se o gato
e até o meu sapato.
Foi-se o cão mandrião.
Só ficou esta canção.

                  *

Havia um pintor
que pintava com amor.
Usava trincha e pincel
e chamava-se Manuel.

Estas e outras rimas surgiram de improviso, no contacto diário com a minha mãe. As rimas, quanto mais disparatadas ou algo maliciosas, assim como algumas canções infantis ou populares (a "Laurindinha" é uma das preferidas) fazem-na rir ou despertam nela memórias antigas. Inventar rimas ou pequenas narrativas para justificar o lugar onde está ou a ausência de alguém é um desafio constante. Sobra-me pouco tempo para outras "criações". 

terça-feira, setembro 17, 2024

Paredes que "falam"



Coimbra, agosto de 2024

 

domingo, agosto 18, 2024

Parabéns!

 Votos de muitos dias felizes, com saúde e boa disposição, Isabel! :)



(Conheci a Isabel na blogosfera, mas que tive o prazer de a conhecer pessoalmente, há alguns anos.)

Para ti, uma imagem de Trás-os-Montes, que captei há dois dias. 

terça-feira, julho 30, 2024

De regresso ao planalto

No domingo, regressei a Mogadouro, a terra que me acolheu desde os 4 anos até à minha saída para a faculdade e onde regressei sempre nas férias, enquanto os meus pais ali moraram.
Desta vez, dei um salto ao Festival Terra Transmontana, que já conta com algumas edições.
Ficam alguns registos fotográficos.










 

quinta-feira, julho 11, 2024

Talvez não fosse

 Aconteceu -me um poema.
Não era longo, nem erudito.
Era apenas a leve pena
de um pássaro no meu ombro,
a luz coada que me chegou
da infância,
o cheiro a feno...
Aconteceu -me um poema.
Ou talvez não fosse um poema.
Apenas um eco, uma brisa,
um grão de areia a morder-me
a memória...
Talvez fosse somente
esse aroma verde de mentrastos,
tinta de amoras nos dedos.
Talvez não fosse um poema...
Para se escrever um poema,
dizem os entendidos,
é preciso ser-se poeta,
é preciso saber escandir os versos,
acertar a métrica, o ritmo e,
com inteligência, a rima.
Para se ser poeta, é preciso que alguém
nos conceda o nome e o estatuto.
É preciso saber usar, com mestria,
figuras de retórica e insinuar sentidos ocultos.
É provável que não me tenha acontecido,
afinal, um poema,
mas vi nascer na página algo que lembra
uma flor a brotar no asfalto.

terça-feira, maio 09, 2023

sábado, março 25, 2023

Isto não é uma pintura...

 

... é só uma má foto!

sábado, março 18, 2023

quinta-feira, outubro 20, 2022

17 anos e 1 dia


Parece que foi ontem, mas já passaram 17 anos. Poderia ter sido mãe e, neste momento, poderia ter um adolescente a dar-me preocupações e/ou alegria. Não fui mãe. Porém essa circunstância não me privou de preocupações nem de muitas alegrias.

Por vezes, tenho a impressão de que se passou quase nada nestes anos. Outras, sinto que vivi várias vidas.

Não criei um filho, mas fui criando um blogue (que não é, obviamente, a mesma coisa!)  e, com ele, alguns laços e empatias. 

Obrigada a todos quantos, ao longo destes anos, me têm feito companhia. Brindemos!