Miguelanxo Prado, "O último café de Fernando Pessoa no Martinho da Arcada, enquanto espera pelo Almada Negreiros"
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segunda-feira, dezembro 21, 2015
sexta-feira, maio 22, 2015
Abraçar
Almada Negreiros e Sarah Affonso
Há abraços que, só de vê-los, nos fazem sentir abraçados...
Um abraço para quem me visita.
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domingo, abril 07, 2013
Há 120 anos
Almada Negreiros, "A sesta" (1939)
nasceu, em São Tomé e Príncipe, José Sobral de Almada Negreiros, que integrou, com Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e outros, o grupo modernista do Orpheu.
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domingo, maio 02, 2010
Mãe
(Da net. Desconheço o autor.)
Mãe!
Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei! Traz tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue verdadeiro, encarnado!
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.
Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me ao teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.
Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero Ter um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!
Almada Negreiros, A Invenção do Dia Claro
Votos de um dia muito feliz para todas as mães!
domingo, julho 19, 2009
a propósito da lua
CANÇÃO DA SAUDADE
Se eu fosse cego amava toda a gente.
Não é por ti que dormes em meus braços que sinto amor. Eu amo a minha irmã gémea que nasceu sem vida, e amo-a a fantasiá-la viva na minha idade.
Tu, meu amor, que nome é o teu? Diz onde vives, diz onde moras, diz se vives ou se já nasceste.
Eu amo aquela mão branca dependurada da amurada da galé que partia em busca de outras galés perdidas em mares longíssimos.
Eu amo um sorriso que julgo ter visto em luz do fim-do-dia por entre as gentes apressadas.
Eu amo aquelas mulheres formosas que indiferentes passaram a meu lado e nunca mais os meus olhos pararam nelas.
Eu amo os cemitérios — as lajes são espessas vidraças transparentes, e eu vejo deitadas em leitos floridos virgens nuas, mulheres belas rindo-se para mim.
Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas indecisas das mulheres são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em meus sonhos. Eu amo a Lua do lado que eu nunca vi.
Se eu fosse cego amava toda a gente.
Almada Negreiros, Frisos
quarta-feira, junho 10, 2009
luís o poeta salva a nado o poema
Era uma vez
um português
de Portugal.
O nome Luís
há-de bastar
o mundo inteiro
ouviu falar.
Estala a guerra
e Portugal
chama Luís
para embarcar.
Na guerra andou
a guerrear
e perde um olho
por Portugal.
Livre da morte
pôs-se a contar
o que sabia
de Portugal.
Dias e dias
grande pensar
juntou Luís
a recordar.
Ficou um livro
ao terminar.
muito importante
para estudar.
Ia num barco
ia no mar
e a tormenta
vá d'estalar.
Mais do que a vida
há-de guardar
o barco a pique
Luís a nadar.
Fora da água
um braço no ar
na mão o livro
há-de salvar.
(...)
Sou português
de Portugal
depois de morto
não vou mudar.
Sou português
de Portugal
acaba a vida
e sigo igual.
(...)
É fado nosso
é nacional
não há portugueses
há Portugal.
(...)
Almada Negreiros (texto com supressões)
domingo, fevereiro 08, 2009
o eco
Tão tarde. Adão não vem. Aonde iria Adão?!
Talvez que fosse à caça; quer fazer surpresas com alguma caça branca lá da floresta.
Era p'lo entardecer, e Eva já sentia cuidados por tantas demoras.
Foi chamar ao cimo dos rochedos, e uma voz de mulher também, também chamou Adão.
Teve medo. Mas julgando fantasia chamou de novo: Adão? E uma voz de mulher também, também chamou Adão.
Foi-se triste para a tenda.
Adão já tinha vindo e trouxera as setas todas, e a caça era nenhuma!
E ele a saudá-la ameaçou-lhe um beijo e ela fugiu-lhe.
Outra que não Ela chamara também por Ele.
Almada Negreiros, Frisos
domingo, outubro 26, 2008
com votos de bom domingo!
segunda-feira, abril 03, 2006
vai um chá?
Enquanto, há minutos, tomava uma chávena de chá verde, lembrei-me de uma prosa poética ou de uma poesia em prosa do Almada Negreiros, intitulada "A Taça de Chá". Gosto bastante de Almada e este é, sem dúvida, um dos textos do autor que prefiro, por isso, decidi partilhá-lo convosco. O luar desmaiava mais ainda uma máscara caída nas esteiras bordadas. E os bambus ao vento e os crisântemos nos jardins e as garças no tanque, gemiam com ele a adivinharem-lhe o fim. Em roda tombavam-se adormecidos os ídolos coloridos e os dragões alados. E a gueixa, porcelana transparente como a casca de um ovo da Íbis, enrodilhou-se num labirinto que nem os dragões dos deuses em dias de lágrimas. E os seus olhos rasgados, pérolas de Nanguim a desmaiar-se em água, confundiam-se cintilantes no luzidio das porcelanas.
Ele, num gesto último, fechou-lhe os lábios co'as pontas dos dedos, e disse a finar-se: — Chorar não é remédio; só te peço que não me atraiçoes enquanto o meu corpo for quente. Deixou a cabeça nas esteiras e ficou. E Ela, num grito de garça, ergueu alto os braços a pedir o Céu para Ele, e a saltitar foi pelos jardins a sacudir as mãos, que todos os que passavam olharam para Ela.
Pela manhã vinham os vizinhos em bicos dos pés espreitar por entre os bambus, e todos viram acocorada a gueixa abanando o morto com um leque de marfim.
A estampa do pires é igual.
Nota: Este texto faz parte de Frisos, um conjunto de textos do autor dados a conhecer ao público, se não me engano, no primeiro número da revista Orpheu, em que colaboraram, entre outros, Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa.
terça-feira, novembro 22, 2005
eu amo a lua do lado que eu nunca vi
CANÇÃO DA SAUDADE
Se eu fosse cego amava toda a gente.
Não é por ti que dormes em meus braços que sinto amor. Eu amo a minha irmã gémea que nasceu sem vida, e amo-a a fantasiá-la viva na minha idade.
Tu, meu amor, que nome é o teu? Diz onde vives, diz onde moras, diz se vives ou se já nasceste.
Eu amo aquela mão branca dependurada da amurada da galé que partia em busca de outras galés perdidas em mares longíssimos.
Eu amo um sorriso que julgo ter visto em luz do fim-do-dia por entre as gentes apressadas.
Eu amo aquelas mulheres formosas que indiferentes passaram a meu lado e nunca mais os meus olhos pararam nelas.
Eu amo os cemitérios — as lages são espessas vidraças transparentes, e eu vejo deitadas em leitos floridos virgens nuas, mulheres belas rindo-se para mim.
Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas indecisas das mulheres são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em meus sonhos. Eu amo a Lua do lado que eu nunca vi.
Se eu fosse cego amava toda a gente.
(Almada Negreiros, Frisos)
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