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quarta-feira, outubro 05, 2016

Somos todos uns sentimentais

«Somos todos uns sentimentais e por isso demoramos no que nos dói.
Temos o choro fácil que dá ou não dá em lágrimas, guardamos as dores cheias de pormenor enquanto as felicidades ficam por ali, confusas, com algumas caras, alguns sons, incertas e vagas. (...)
Lembramos os sapatos que calçávamos quando alguém morreu, a hora da notícia, o programa que passava nesse instante e até as vergonhas que pensámos.
Folheemos as páginas do riso e pouco encontraremos, algumas frases, momentos caricatos, elementos de uma paisagem.
Pouco e mal contado, estávamos distraídos, demasiado ocupados na felicidade para lhe fazermos o retrato.
Somos tolos e sentimentais, temos arcas cheias de mágoas que não esquecemos e que abrimos a todo o momento a ver se ainda nos doem, e doem sempre.
Descuramos o arquivo do bem que apesar de tudo nos vai acontecendo, somos tolos de lágrimas.»


Nuno Camarneiro, Debaixo de algum céu, 2013

sexta-feira, junho 07, 2013

Acordar

Acordar um dia do outro lado do dia. Ter alguém à minha espera e uma certeza de caminho nos pés.
Alguém que fuja comigo para fora de mim, capaz de roubar-me às tantas voltas que dei sem nunca sair daqui.
Um corpo curto de braços e apertado no peito, uma casa onde moro e onde não mora ninguém. Livros em cima de livros em cima de livros em cima de mim.
Alguém que me faça disto alguma coisa, que traga cheiros e palavras com sangue dentro.
Alguém que empreste só para eu poder pagar, com juros altos e impossíveis, numa dívida em que me enterre até ao Fim. 


Nuno Camarneiro, "Acordar um dia XLVI"

sábado, abril 20, 2013

Se assim é...

«O amor não é fácil em nenhuma idade e dói tanto ceder-lhe como fugir-lhe.»

Nuno Camarneiro, Debaixo de algum céu (que acabei de ler há minutos)

Se assim é, o melhor é ceder-lhe...

quarta-feira, abril 10, 2013

Das minhas leituras


«Quando alguém conta um dia ou uma vida, está a calar quase tudo, as vidas são imensas e não se podem contar só por palavras. Haveria de inventar artes de encher silêncio e de descobrir nele o peso certo do que somos. O que se é só se pode encontrar no que não é dito, nas culpas deixadas dentro, nos castigos que se vão escolhendo.»

Nuno Camarneiro, Debaixo de algum céu (Prémio Leya 2012)