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sexta-feira, fevereiro 12, 2021

Aviso para colar na porta do frigorífico

Ao entardecer no topo da colina
repara como as urtigas e os freixos
resistem à estação seca
 
fala a viajantes e examina suas cartas
entra em contacto com navios costeiros
de passagem para mercados longínquos
certifica-te do latir do cão e da pisada do cavalo
 
perde o fôlego seguindo a nuvem
quando restar dela uma cor apenas
espante-te ainda sua vontade
de recomeçar vezes sem fim
 
as multidões entretêm-se
com milagres que ocorrem
nos livros de contabilidade
tu ao contrário procura
estrelas distintas
que arrastem às sacudidelas
o peso do teu arado
 
José Tolentino de Mendonça, Teoria da fronteira


sexta-feira, julho 12, 2019

Irrompe em silêncio

«Quando nos confrontamos com a amizade sentimos todos a dificuldade de exprimi-la, pois entramos num campo onde não há espaço para muitas declarações, e soam despropositados os longos discursos… existem, sim, histórias de vida. Existem nomes, rostos, vivências… Existe o indizível da presença, a coreografia fiel e criativa dos gestos. Mesmo quando se trata de uma amizade intensa, a amizade não deixa de ser uma experiência discreta, ainda que gere marcas humanas e espirituais inapagáveis. (…) 
Um amigo, por definição, é alguém que caminha a nosso lado, mesmo se separado por milhares de quilómetros ou por dezenas de anos. O longe e a distância são completamente relativizados pela prática da amizade. De igual maneira, o silêncio e a palavra. Um amigo reúne estas condições que parecem paradoxais: ele é ao mesmo tempo a pessoa a quem podemos contar tudo e é aquela junto de quem podemos estar longamente em silêncio, sem sentir por isso qualquer constrangimento. A amizade cimenta-se na capacidade de fazer circular o relato da vida, a partilha das pequenas histórias, a nomeação verbal do lume mais íntimo que nos alumia. A amizade é fundamentalmente uma grande disponibilidade para a escuta, como se aquilo que dizemos fosse sempre apenas a ponta visível de um maravilhoso mundo interior e escondido, que não serão as palavras a expressar. (...)
O modo como uma grande amizade começa é misterioso. Podemos descrevê-lo como um movimento de empatia que se efetiva, um laço de afeição ou de estima que se estreita, mas não sabemos explicar como é que ele se desencadeia. Irrompe em silêncio a amizade.»

José Tolentino Mendonça

quarta-feira, fevereiro 08, 2017

Murmúrios do mar


"Paga-me um café e conto-te 
a minha vida"

o inverno avançava
nessa tarde em que te ouvi
assaltado por dores
o céu quebrava-se aos disparos
e uma criança muito assustada
que corria
o vento batia-lhe no rosto com violência
a infância inteira
disso me lembro

outra noite cortaste o sono da casa
com frio e medo
apagavas cigarros nas palmas das mãos
e os que te viam choravam
mas tu, não, nunca choraste
por amores que se perdem

os naufrágios são belos
sentimo-nos tão vivos entre as ilhas, acreditas?
E temos saudades desse mar
Que derruba primeiro no nosso corpo
Tudo o que seremos depois

"pago-te um café se me contares
o teu amor"


José Tolentino Mendonça, Baldios


O primeiro poema que hoje me "acorreu" ao olhar... Como gosto muito, entendi que não podia ficar só para mim. 

quinta-feira, fevereiro 02, 2017

Dizem que é o dia dos amigos


Imagem da série televisiva "Friends"

Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura

Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis

Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor

                        José Tolentino de Mendonça

Ainda que seja todos os dias...

domingo, julho 12, 2015

Sobre os amigos

«Quando nos confrontamos com a amizade sentimos todos a dificuldade de exprimi-la, pois entramos num campo onde não há espaço para muitas declarações, e soam despropositados os longos discursos… existem, sim, histórias de vida. Existem nomes, rostos, vivências… Existe o indizível da presença, a coreografia fiel e criativa dos gestos. Mesmo quando se trata de uma amizade intensa, a amizade não deixa de ser uma experiência discreta, ainda que gere marcas humanas e espirituais inapagáveis. (…) 
Um amigo, por definição, é alguém que caminha a nosso lado, mesmo se separado por milhares de quilómetros ou por dezenas de anos. O longe e a distância são completamente relativizados pela prática da amizade. De igual maneira, o silêncio e a palavra. Um amigo reúne estas condições que parecem paradoxais: ele é ao mesmo tempo a pessoa a quem podemos contar tudo e é aquela junto de quem podemos estar longamente em silêncio, sem sentir por isso qualquer constrangimento. A amizade cimenta-se na capacidade de fazer circular o relato da vida, a partilha das pequenas histórias, a nomeação verbal do lume mais íntimo que nos alumia. A amizade é fundamentalmente uma grande disponibilidade para a escuta, como se aquilo que dizemos fosse sempre apenas a ponta visível de um maravilhoso mundo interior e escondido, que não serão as palavras a expressar. (...)
O modo como uma grande amizade começa é misterioso. Podemos descrevê-lo como um movimento de empatia que se efetiva, um laço de afeição ou de estima que se estreita, mas não sabemos explicar como é que ele se desencadeia. Irrompe em silêncio a amizade.

José Tolentino Mendonça

Ontem, fui à terra onde vivi quase toda a infância e adolescência, tomar um café com um velho amigo do peito. Apesar de vivermos longe e de estarmos muito tempo sem falarmos, há esse "laço de afeição" que nos tem unido ao longo dos anos e que eu muito prezo.

quinta-feira, setembro 27, 2012

Será?

Perdemos repentinamente 
a profundidade dos campos 
os enigmas singulares 
a claridade que juramos 
conservar  

mas levamos anos 
a esquecer alguém 
que apenas nos olhou 

 José Tolentino Mendonça