sábado, maio 31, 2008

o trabalho corre lento

como o dia... Ocorre-me (Talvez tenha sido num dia de chuva que a Leo, uma querida colega de casa e de turma,a partilhou comigo, quando frequentávamos, há muiiitooos anos, o 12.º ano. Que será feito dela?) e (Lembras-te, menina, das horas que passámos a tirar a letra, até quase cansarmos o gravador, para depois descobrirmos que já a tinhas? Isso foi no Algarve, um mês antes de conhecer a Leo... lembro-me disso e que era noite.
"How I wish you were here...")

É repetida no Letras

mas hoje cai bem...

poema para uma janela*

Luz Um holofote de mil trezentos watts Roubava a toda a sala qualquer sombra. Cada móvel tinha um nítido perfil E um mar de luz erguia-se da alfombra. Cada móvel dir-se-ia posto ao calhas Por mão gigante, e como barreira Ofegava um monstro aparador. Parecia incendiada a sala inteira. Em chamas estava uma meda de trigo fulgindo num quadro, e não se sabia Se era cenário novo, se antigo. Vivia ali alguém? Não se diria Mesmo com tanta luz, nada se via. Tal que neste poema. Esperas digo. in Contrabando, Gerrit Komrij, tradução do neerlandês de Fernando Venâncio
O JRMarto teve a gentileza de deixar, na caixa de comentários de um dos posts anteriores, este poema para a Beth, a minha prima brasileira que vive em Amesterdão, que lê e se expressa em Português. Em nome da prima: obrigada pela oferta!
Numa atitude verdadeiramente "oportunista", aproveito para, com as palavras do poeta, desejar a todos BOM FIM-DE-SEMANA!
* Título do post, não do poema

sexta-feira, maio 30, 2008

um cafezinho?


Prometo que os vossos saem mais cremosos...

arrumar gavetas

(Pormenor do meu calendário do Advento, oferecido pela prima "holandesa")

Há momentos em que urge dar volta às gavetas da alma e do coração e, com o desprendimento que devemos ter com as roupas puídas ou que deixaram de servir, deitar fora sentimentos e recordações que, além já não terem préstimo – e será que alguma vez o tiveram? -, nos causam mágoa quando inadvertidamente esbarramos com eles. E, antes de as enchermos de novo, é importante que as limpemos e arejemos para que o cheiro a bafio que se impregnou com os anos não contamine o que nelas viermos a guardar.

quinta-feira, maio 29, 2008

abrir portas




Brincadeiras de uma tarde de ócio... que não foi a de hoje!

quarta-feira, maio 28, 2008

azul

Hoje recebi, por email, esta imagem captada pela minha prima brasileira a viver em Amesterdão.

Fica bem no azul do Letras...

Obrigada, Beth!

vizinhos


Ouvi dizer que ontem se comemorou o Dia Europeu dos Vizinhos. Parece que actualmente tudo é pretexto para se festejar e, curiosa e contraditoriamente, quanto mais festejamos e mais condições exteriores criamos para convivermos, mais nos fechamos sobre nós próprios. Constroem-se edifícios cada vez maiores, habitados por um número crescente de pessoas que têm apenas em comum o facto de viveremna mesma rua, no mesmo número ou no mesmo andar. Não são vizinhos. Pelo menos não como eu os concebi durante muito tempo. Um vizinho está a caminho de ser um amigo. Pode nunca vir a sê-lo e, quando chega a sê-lo, deixamos de nos referir a ele como “o nosso vizinho”. Um vizinho é mais do que um conhecido.
Na rua onde eu vivi a maior parte da minha vida, os vizinhos tinham conversas amenas na rua a pretexto de qualquer coisa, emprestavam coisas, trocavam favores, ofereciam produtos da horta ou ficavam de regar as plantas ou de receber o correio quando alguém estava fora uns dias. Os homens, por vezes, resolviam pequenos problemas de mecânica e as mulheres de costura ou de culinária. As crianças e os jovens vizinhos, no Verão, conviviam essencialmente na rua e, nas horas em que passavam na televisão os programas de culto, reuniam-se numa das casas para os verem juntos, pois, assim, tudo ganhava outro sabor. Também é verdade que novos e velhos empreendiam, por vezes, por miudezas guerras que duravam anos.
Hoje, apesar de viver numa terra relativamente pequena e de província, já não sei o que é isso de ter vizinhos. Vejo-os muito raramente, quando acontece cruzar-me com eles nas escadas. Sei que eles continuam a habitar o mesmo prédio, até sei dizer a que horas alguns entram em casa, porque a qualidade da construção não nos garante privacidade. Sei também que continuam a habitar o mesmo espaço, porque, de vez em quando, dou com as beatas de um dos vizinhos de cima no capô do meu carro, porque “tropeço” frequentemente em papéis de rebuçados que crianças e progenitores deixam “esquecidos” nas escadas ou no átrio e porque, frequentes vezes, quando entro ou saio do prédio, encontro a porta da entrada aberta, fruto do descuido ou da pressa de alguém que saiu ou entrou antes de mim.
Neste mundo virtual, também o conceito de vizinho tem vindo a alterar-se. Há vizinhos que deixam de visitar-nos; outros que nos visitam para, num gesto simpático, retribuírem as nossas visitas; outros há que parecem incomodados quando lhes tocamos à campainha e que, abrindo-nos a porta, não nos deixam passar da entrada; alguns privam-nos de vez da sua companhia, fechando para sempre a porta. Felizmente há alguns que, com maior ou menor frequência, ainda aparecem, batem à porta, sentam-se no nosso sofá, contam-nos histórias, escutam as nossas com interesse, dão-nos conselhos e, aos pouquinhos, vão acedendo àquele lugar no nosso coração que reservamos para os amigos. É por estes que ainda vale a pena viver neste bairro.

terça-feira, maio 27, 2008

da janela

(Tirada por mim em Março)
há um gato no telhado de zinco passeando a sua pele cortês mede a sua passada pela intriga armadilhada da mulher que no chão dá leite a outros três a mulher levanta-se veste os olhos no dar cobra o dia à noite as fugas do adormecer a morte não quer passar a mulher vê-se com o coração de sair veste de raposa o pescoço andando na porta ou na janela sai lenta a fugir o gato lento sem surpresa no telhado passeia erra independente
José Ribeiro Marto

na ausência das palavras

segunda-feira, maio 26, 2008

no intervalo da chuva

(Do curto passeio de ontem)

Boa semana para todos os que por cá ainda passam!

sexta-feira, maio 23, 2008

Votos de bom, óptimo, fim-de-semana

traduzidos numa imagem e em palavras:
(Foto tirada por mim, no sábado passado)
as coisas mais simples são as que voam: um pássaro desaparecendo no ar azul , a dança de uma borboleta num junquilho molhado , um réptil procurando respirar no cerco de uma mão indolente o pulso de um coração na levada do vento, escrevendo-se no horizonte as coisas simples: são as que voam, as que crescem nas sombras abertas das árvores, são o piar voado dos pássaros, a fuga repentina dos gatos, são a nossa sede e o nosso rosto aceso; são um grito alado como uma lança dando semente à terra as coisas simples são as molas e os estendais a mulher debruçada sobre a corda contando os anéis pelos dedos do que ainda falta fazer do fogo do fogão que falta subir de uma mesa posta cansada sem resposta as coisas mais simples diz ela: é o sol, mas mal o olha, é o céu, e é um pecado procurar nele estrelas primordiais, é o mar distante, as areias infindas tudo o que é simples, ela sabe nomear não sabe observar, porque isso é da conta de outros dias e ela vive a perguntar
José Ribeiro Marto

mar adentro

Soube bem, nesta tarde soturna e chuvosa, ver "Mar Adentro". Apesar do tema e independentemente deste, é um filme muito bonito - pela riqueza interior das personagens, pela música, pelos cenários, pela língua (algumas personagens expressam-se em galego, tão próximo do português) e, como lembrou muito bem a Infame da Vileza, pela interpretação do Javier Bardem!

Mar Adentro Mar adentro, mar adentro. Y en la ingravidade del fondo donde se cumplen los sueños se juntan dos voluntades para cumplir un deseo. Un beso enciende la vida con un relámpago y un trueno y en una metamorfosis mi cuerpo no es ya mi cuerpo, es como penetrar al centro del universo. El abrazo más pueril y el más puro de los besos hasta vernos reducidos en un único deseo. Tu mirada y mi mirada como un eco repitiendo, sin palabras 'más adentro', 'más adentro' hasta el más allá del todo por la sangre y por los huesos. Pero me despierto siempre y siempre quiero estar muerto, para seguir con mi boca enredada en tus cabellos. (Ramón Sampedro)

quinta-feira, maio 22, 2008

o outro

Eu não sou eu nem sou o outro Sou qualquer coisa de intermédio; Pilar da ponte de tédio Que vai de mim para o Outro. (Mário de Sá-Carneiro, Poesias Completas)

quarta-feira, maio 21, 2008

Suponho que a maioria daqueles, com que me cruzo no acaso das ruas, traz consigo (...) uma igual projecção para a guerra inútil do exército sem pendões. E todos terão, como eu, a grande derrota vil, entre os limos e os juncos, sem luar sobre as margens (...). Assim cada um se sonha, um momento, o chefe do exército de cuja cauda fugiu. Uns são heróis e prostram cinco homens a uma esquina de ontem. Outros são sedutores e até as mulheres inexistentes lhes não ousaram resistir. E todos, como enguias num alguidar, se enrolam entre eles e se cruzam e nem saem dos alguidares. Às vezes falam deles os jornais, mas a fama nunca. Esses são os felizes porque lhes é dado o sonho da estupidez. (F. Pessoa- Bernardo Soares, O Livro do Desassossego)

terça-feira, maio 20, 2008

o que é a beleza?

Depois de ter passado na "casa" da Yashmeen e de ter lido um texto sobre as transformações que a idade opera em nós, ocorreu-me ir buscar à "gaveta" um texto que eu própria alinhavei há dias e que, de alguma forma, se relaciona com o tema.

Pergunto-me frequentemente por que razão alguns homens e algumas mulheres, longe de parecerem estrelas de cinema, anseiam por conquistar alguém que o pareça. Será que procuram compensar, pela beleza alheia, aquela que julgam faltar-lhes? Dar-lhes-á prazer exibir a parceira ou o parceiro como exibem a casa ou o carro que possuem, para que os amigos se roam de inveja?
Dizia-me há tempos, por outras palavras, uma certa menina que o nosso grau de auto-estima é determinante na maior ou menor valorização de atributos físicos, ou seja, quanto mais confiança tivermos em nós próprios e melhor nos sentirmos na nossa pele, menos relevante é para nós o aspecto físico da outra pessoa. Claro que esta condição não nos impede de continuarmos a apreciar um corpo escultural, uma carinha laroca ou uma voz sensual como quem olha para uma obra de arte.
O exterior das pessoas, como as obras de arte, degrada-se, perde frescura e novidade, ao contrário do interior que ganha com a idade... Amar e gostar alimentam-se de outros atributos que a beleza exterior, faltando esses, só por si não compensa.
Mas se quisermos insistir na beleza física, há homens e mulheres belos em todas as idades. Há até aqueles em quem a maturidade apurou certos traços, tornando-se mais encantadores e até sensuais do que na juventude. Para se perceber e integrar esta beleza relativa é preciso ter a alma aberta, mais do que os olhos.

segunda-feira, maio 19, 2008

Bendito acaso


que nos leva ao lugar certo na hora certa!


domingo, maio 18, 2008

ternura felina

Olha só, menina, como estão bonitos e crescidos os teus protegidos!

"Sim, tenho"

"Está a olhar para o exterior, e isso é algo que não deveria fazer, muito especialmente agora. Ninguém pode dar-lhe conselhos ou ajudá-lo, ninguém. Só existe um meio. Entre em si mesmo. Procure as razões que o levam a escrever; verifique se elas lançam raízes nas profundezas do seu coração, pergunte e responda a si mesmo se morreria caso o impedissem de escrever. E acima de tudo: pergunte a si mesmo no mais silencioso da noite: tenho de escrever? Mergulhe nos abismos da sua essência em busca de uma resposta profunda. E caso esta seja afirmativa, se puder responder a esta pergunta séria com um simples e forte "Sim, tenho", então construa a sua vida à volta dessa necessidade (...). É então que deve aproximar-se da Natureza. Nesse momento procure dizer, como se fosse o primeiro ser humano, o que vê e sente e ama e perde."
Rainer M. Rilke
( R. M. Rilke e Virginia Woolf, Cartas a Jovens Poetas, Relógio de Água) Este livro veio, em boa hora, ter-me às mãos. Bem haja quem mo ofereceu!

sábado, maio 17, 2008

rios de prazer

De novo o rio. À sua volta, desde a primeira vez, tudo está diferente. A Primavera exibe, agora, todo o seu esplendor. Sons, cores e aromas intensificaram-se. Ervas altas ocultaram alguns trilhos e a linha de caminho-de-ferro já sem uso. Na aldeia, uma cegonha, que ali fez ninho, desenha voos suficientemente baixos para que possamos admirá-la. As pessoas, em particular as mais idosas, aproveitando a trégua da chuva e do frio, sentam-se nas soleiras das portas, nas "escaleiras" de xisto, nas esplanadas improvisadas dos cafés ou nos bancos da praça e olham-nos curiosas. Perguntam quem e de onde somos. Aproximamo-nos. Respondem solícitas às nossas questões. Queremos saber a origem do topónimo, os lugares e edifícios de interesse, histórias do rio. Oferecem-se para nos mostrar a igreja e as várias capelas. A zeladora da capela de Nossa Senhora do Rosário mostra-nos esse espaço de culto de que é guardiã, conta-nos as histórias de algumas imagens, traz-nos um livro que integra algumas quadras que ela própria escreveu sobre a aldeia. Há quem se prontifique para ler algumas, em voz alta, ali mesmo, no centro da aldeia, junto ao coreto. Há uma senhora, já velhinha, que nos convida para um cafezinho em sua casa, apesar de sermos muitos. Sugere que passemos por lá um domingo à tarde, para o tal cafezinho e para nos contar histórias da aldeia, algumas "vermelhas" - di-lo com ar malandro. Para matar a solidão, acompanha-nos algum tempo. Das velhas casas de xisto sobram ruínas ou vestígios que coabitam com edificações modernas. As aldeias transmontanas estão descaracterizadas e, em grande parte, quase desabitadas, mas, percebi-o esta manhã, ainda não perdemos esta forma de ser hospitaleira.

sexta-feira, maio 16, 2008

é assim mesmo, nina!

When you try your best, but you don't succeed, When you get what you want, but not what you need, When you feel so tired, but you can't sleep Stuck in reverse! And the tears come streaming down your face When you lose something you can't replace When you love someone, but it goes to waste Could it be worse? Lights will guide you home And ignite to bones And I will try, to fix you And high up above or down below When you're to in love to let it go But if you never try, you'll never know Just what you're worth. Lights will guide you home And ignite to bones And I will try, to fix you. Tears stream down your face, When you lose something you cannot replace Tears stream down your face And I... Tears stream down your face I promise you that I'll learn from my mistakes Tears stream down your face And I... Lights will guide to home And ignite to bones And I will try to fix you

o desacordo ortográfico

(Soizick Meister)


Se pudesse, manifestaria igualmente o meu desacordo.

Como entidade viva e, por isso, em permanente mutação, a língua é a expressão das vivências, da mentalidade e da história de um povo. As variantes do Português que hoje se falam e se escrevem, mas que sobretudo se falam, em diferentes pontos do globo distanciaram-se do Português língua-mãe e ganharam autonomia por força de condicionalismos vários, apresentando particularidades, legitimadas pelo uso, que lhes conferem individualidade.

A meu ver, faz sentido que, de tempos a tempos, dentro de cada variante, se procedam a reajustes "oficiais" que credibilizem e uniformizem o uso de vocábulos e expressões que vão surgindo na sequência de transformações em diferentes áreas, desde a ciência às formas de relacionamento.

Assumo que tenho alguma dificuldade em aceitar que, por exemplo, o vocábulo "óptimo" se veja distanciado do seu étimo latino "optimus", em virtude de uma síncope forçada, ou de que apenas pelo contexto passe a distinguir-se "facto" de "fato".

É óbvio que esta abordagem é superficial. Talvez uma análise mais profunda me leve a mudar de opinião, mas parece-me, contudo, difícil - há anos que o Mirandês foi oficialmente considerado uma língua e ainda não conseguiram convencer-me disso...

quinta-feira, maio 15, 2008

Não está mal

para um fim de tarde chuvoso e frio... Once I wanted to be the greatest No wind or waterfall could stall me And then came the rush of the flood The stars at night turned DEEP to dust Melt me down into big black armour Leave no trace Of grace Just in your honor Lower me down To culprit south Make 'em wash a space in town For the lead And the dregs of my bed I've been sleeping Lower me down Pin me in Secure the grounds For the later parade Once I wanted to be the greatest Two fists of solid rock With brains that could explain Any feeling Lower me down Pin me in Secure the grounds For the lead And the dregs of my bed I've been sleeping For the later parade Once I wanted to be the greatest No wind or water fall could stall me And then came the rush of the flood The stars at night turned DEEP to dust (The Greatest, Cat Power)

alter ego

(Imagem tirada da net)

Não é de hoje esta estranheza, este "outrar-se" que se avoluma quando, noite dentro, o silêncio pesa sobre os móveis e escorre pelas paredes.
Não é de hoje aquela que, do espelho, a fita com os olhos que não são os seus, ainda que igualmente castanhos e em que perpassam lampejos de crueldade, de loucura... quiçá. Tomam-na, de súbito, a surpresa, o assombro, o medo. Em fragmentos, a certeza de que caminha no fio da navalha, na ténue fronteira entre a lucidez e a alucinação, na linha que pode separar um homem de bem de um criminoso.

quarta-feira, maio 14, 2008


Não há como acabar o dia com uma valente "sova" para que o sentimento de culpa se esfume... pelo menos por hoje!

om shanti
Muitas vezes me questiono se não estarei a exigir demais de algumas pessoas que me rodeiam...
Ohh, can't anybody see We've got a war to fight Never found our way Regardless of what they say

terça-feira, maio 13, 2008

e é isto uma democracia? - take 2

Sra. Ministra da Saúde, por que motivo alguns utentes faltam às consultas do serviço público?
Muitas vezes, porque esperam uma eternidade para poderem usufruir delas, sobretudo quando se trata de consultas de especialidade, vendo-se obrigados, com mais ou menos sacrifício, a recorrer ao privado. Certo?
Eu própria, espero, há quase um ano, por um exame, que, para cúmulo, só poderei fazer no Porto, a mais de duzentos quilómetros do local onde vivo...

e é isto uma democracia?

http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1328604&idCanal=34

domingo, maio 11, 2008

devaneios de domingo à noite

Ontem, na Invicta, depois de ter tomado o meu “cimbalino” perto da Brasileira e de ter entrado na Sousa Ribeiro, onde o funcionário da caixa me olhou como quem pensa “esta não tem pinta de artista”, para comprar uns “sketch books”, que, obviamente, não me servirão para esboçar nada a não ser umas frases mal alinhavadas, fui meter o nariz numa espécie de armazém da Bertrand, que fica a meio da Rua 31 de Janeiro. Um tanto perdida, passei os olhos pelas estantes, acabando por fixar a atenção num título da Doris Lessing – Amar de Novo. Tudo se conjugou (o menos de tudo foi o próprio título, confesso) para que o livro viesse parar às minhas mãos e à minha estante: o preço, o facto de não ter ainda lido nada desta prémio Nobel e o assunto resumido na contracapa – as paixões de uma mulher de sessenta e cinco anos por homens “escandalosamente” (não no sentido da condenação!) mais novos.
As relações que sobrevivem ou sucumbem à diferença de idades não são novidade, tanto na literatura como na vida. Numa e noutra, a situação é sempre mais penosa para as mulheres do que para os homens, talvez seja, por isso, menos comum ver o tema abordado na perspectiva feminina. As paixões das mulheres por homens mais novos redundam, salvo raras excepções, em decepção, sofrimento e ruptura. Ocorre-me Teresa , uma personagem de O Navegador Solitário, do João Aguiar, que, sendo uma professora na casa dos trinta anos, se apaixona e vive um amor escondido por Solitão, um adolescente, que absorve com sofreguidão tudo o que ela tem para lhe ensinar - da literatura, da música, do amor, da vida... Em A Catedral Verde, o segundo título de uma trilogia, o autor reitera o tema, ainda que de forma menos ostensiva. Na obra, o protagonista toma conhecimento, ao fim de muitos anos, através de cartas que herdou com a casa, que a Tia Geninha viveu, durante anos, um amor secreto por ele e que isso terá sido para ela, sem que ninguém o suspeitasse, motivo de grande sofrimento. Não sendo assunto de vital importância e que, por isso, me tire o sono, não deixo, no entanto, de me questionar sobre as razões que nos levam, homens e mulheres, a interessarmo-nos ou relacionarmo-nos com pessoas claramente mais novas ou mais velhas. A literatura - como cinema, aliás - apresenta as situações, mas não explora os motivos, ou seja, não apresenta respostas conclusivas. Quando o nosso interesse se projecta nos mais novos, pretenderemos, ainda que inconscientemente, recuperar a juventude que perdemos ou resgatar a energia e a loucura que associamos à juventude? Estaremos, sem que o percebamos, a expressar uma recusa em envelhecer? E nos mais velhos, o que buscamos? Experiência? Sabedoria? Serenidade? Protecção? Todas estas teorias, que, na verdade, não passam de devaneios meus, caem por terra se pensar que a idade nem sempre é condição de maturidade nem, em alguns casos, de sabedoria ou de serenidade... Talvez esteja certa a máxima de que "o amor não escolhe idades" ou talvez devamos ter em conta as palavras de Fernando Pessoa - Alberto Caeiro quando diz " Porque quem ama nunca sabe o que ama/ Nem sabe por que ama/ Nem o que é amar. / Amar é a eterna inocência/ E a única inocência é não pensar." e deixarmos de procurar respostas onde não as há...

cansaço ou sabedoria?

A propósito do último post da Infame da Vileza, em que referia ter lido que, se tivéssemos que escolher os pais para os nossos filhos, optaríamos por pessoas vulgares e não por estrelas de cinema, ocorreu-me que, há tempos, em conversa com uma amiga, constatámos que as gerações posteriores à nossa tendem a valorizar mais a aparência e os aspectos materiais do que nós e que alguns nos olham com a sobrancería de quem está convencido de que nunca há-de envelhecer e perder a frescura dos vinte. Lembro-me que passámos, então, em revista as pessoas com quem nos relacionamos e nós próprias, que temos entre 37 e 50 anos, para concluírmos que estamos longe dos esteriotipos das capas de revista ou das telas de cinema. Quando os companheiros e os amigos nos “escolheram”, éramos mais jovens, menos cansados, mais sonhadores (mais “tesos” também!), mas pessoas igualmente “normais”. Com o tempo, passámos a valorizar o conforto (mas não a ostentação), a cuidar mais da aparência, mas conscientes de que já não temos vinte anos e de que, embora ainda possamos fazer muitas coisas que nos realizem e nos dêem prazer, a juventude é algo que não podemos recuperar, só a de espírito – esta dura até quando quisermos.
Com a idade, perde-se alguma energia, adormecem alguns sonhos, desenvolve-se algum cepticismo, nascem rugas e cabelos brancos, mas ganha-se em serenidade e sabedoria... quem disser o contrário mente ou ainda não ultrapassou os trinta e cinco!!!
Este devaneio levar-me-ia mais longe, mas o tempo urge e, neste momento, para citar o poeta, “outros valores mais altos se alevantam”!
Até logo...

sábado, maio 10, 2008

De volta a casa

(Tirada do mesmo sítio da anterior... ontem o céu estava cinzento!)

de bolso mais leve, mas de alma lavada.
Foi bom regressar à Invicta, passar por ruas e lugares que, em tempos, foram quotidianos e que não revia há muito -a Quinta do Covelo, a Escola Filipa de Vilhena, em cujo recinto decorria,como há anos, o habitual jogo de futebol dos sábados de manhã, a Rua do Cantor Zeca Afonso, que conheci como descampado, hoje de cara lavada, as eternas casas degradadas da rua de Camões, a moderna estação da Trindade actualmente entregue ao Metro, a cinzenta e fria Avenida dos Aliados... de cortar o coração! - e, anónima, andar por entre a gente, entrar nas lojas, sentir o cheiro dos livros, sentar num café para saborear um cimbalino...

Da viagem... não encontro palavras para traduzir o êxtase dos sentidos que, nesta altura do ano, Trás-os-Montes nos proporciona.

A chuva, essa, deu tréguas...

sexta-feira, maio 09, 2008

Por vezes

(Imagem daqui)

sabe bem vadiar... perdermo-nos nas ruas, tomarmos banhos de anonimato e de consumismo...

Só espero que a chuva não pregue partidas!


Bom fim-de-semana para todos!

Parece


que sou uma rapariga de sorte. Recebi, pela segunda vez, o selo da amizade.



Depois do Félix, foi a vez da Carlota mo atribuir - obrigada!
O Félix pedia-me para nomear 10 amigos a quem passar o testemunho; a Carlota disse-me que devo atribuí-lo a cinco. Nomear pessoas é sempre difícil, mas desta vez vou fazê-lo. Como da primeira vez não nomeei ninguém, vou abusar e juntar as dez nomeações primeiras às cinco que devo fazer agora, correndo, ainda assim, o risco de excluir algumas pessoas. Por razões óbvias, os meninos que me atribuiram o selo só virtualmente integram esta lista.

As quinze "vítimas", por ordem alfabética:
Alecrim; Ana; Ana Maria; Astor; Carla; Cristina; Hipatia; Gala; Infame da Vileza; Kokas; M&M; Nilson; Tsiwari; Yashmeen; Wandolas.

sábado, maio 03, 2008

sábios conselhos :))


Trabalha, mas desfruta da vida. Ela é única. (...) trabalhar demasiado só traz benefícios nas fábulas de La Fontaine.
Se não encontras a tua metade da laranja, não desanimes. Procura a metade do limão, põe-lhe açúcar, aguardente e gelo e sê feliz!

(Moral da versão moderna da fábula A Cigarra e a Formiga, recebida por email)


sexta-feira, maio 02, 2008

complexo de avestruz?

Garanto-vos: nunca desejei ser mais velha, nem ter dezoito anos - para poder sair à noite, para ser independente, para ter a carta de condução... Só me lembro de invejar os mais novos. Talvez por isso me tenha identificado tanto com Holden (a ponto de ficar de certa forma angustiada por não poder conhecê-lo), o protagonista de The Catcher in the Rye, de J. D. Salinger, que li, pela primeira vez, numas férias da Páscoa, quando estava quase a fazer dezoito anos. Holden fascinou-me provavelmente por ser rebelde, frágil e inconformado e por se recusar veementemente a crescer, a ponto de adoecer.
Há dias em que sentimos vontade de sermos mais novos. Para não termos responsabilidades. Para não sermos confrontados com os nossos erros. Para não respondermos pelos erros dos outros. Para não termos que dar a mão à palmatória.
Há dias em que sentimos uma irresístível vontade de tirarmos umas férias antes de tempo, de ficarmos doentes, de enlouquecermos... Os sábios não nos perdoariam a imaturidade, a inconsequência, a irresponsabilidade, menos ainda a insanidade - esta implica sempre a complacência que dá trabalho e um sábio não se dá a esse trabalho. For God's sake!

só porque sim...