quarta-feira, julho 30, 2008

em terra de ninguém


Formulo intimamente a intenção de escrever umas linhas. Para ordenar o pensamento. Para registar impressões. Para sair do entorpecimento que me tomou desde cedo. Para matar o tempo que dista entre este momento e aquele que há-de levar-me nas asas de uma ave gigante.
As palavras cruzam-se em aparente desalinho no meu pensamento, como aparente é a desordem com que, neste cais, pessoas, línguas e destinos se cruzam.
Suponho-me anónima. Preciso de respirar anonimato.
Varreram-se da minha mente rostos e lugares familiares, como se tivessem ficado presos num tempo e num espaço até que eu regresse. Sinto este ponto de confluência como uma terra de ninguém, a que também pertenço, sem que me pertença.

Porto, 19 de Julho de 2008
Hoje eu queria adormecer no sono fiel dos vagabundos
E cerrada toda a verdade na ternura isenta das minhas pálpebras
Ser coisa de não ver
E poema de não doer...

António Teves, Nascentes da Voz

terça-feira, julho 29, 2008

o reino maravilhoso

"Para cá do Marão, mandam os que cá estão!...Sente-se um calafrio. (...) Que penedo falou? Que terror respeitoso se apodera de nós? Mas de nada vale interrogar o grande oceano megalítico, porque o nome invisível ordena: - Entre! A gente entra, e já está no Reino Maravilhoso." Miguel Torga Para vos abrir o apetite, "cibinhos"* de Trás-os-Montes... *pedacinhos

azul

Da curta ausência, trouxe na bagagem pedaços de azul para partilhar...

sexta-feira, julho 18, 2008

Rumo ao céu, ao sul, ao mar e a um sol traiçoeiro que divide os dias com as nuvens e a chuva... Até breve!

quinta-feira, julho 17, 2008

terça-feira, julho 15, 2008

(Foto gentilmente cedida pela wandolas)

Quando nos convidam para uma festa onde sabemos que vão estar presentes o Peter Pan e a Sininho (duas das figuras do imaginário infantil que sempre me fascinaram) e onde não faltarão flores e borboletas em graciosas danças, não temos como resistir! Mais ainda: se o convite nos é dirigido por uma borboleta-bailarina, só temos que sentir-nos lisongeados e agradecidos...


Obrigada e Parabéns, borboleta-bailarina!

domingo, julho 13, 2008

ponto de (re)encontro

(Onde o Tua e o Douro dão as mãos)

sábado, julho 12, 2008

cumplicidade

(Estação do Tua, hoje)

Há dias que são como estações onde nos apetece descansar, indiferentes aos horários de partida e de chegada, usufruindo da companhia amena de outros passageiros que, como nós, se demoram na cumplicidade e na espontaneidade de gestos e palavras.

canção

mais tarde compreendes ninguém ama outro mar que não lhe ensombre os olhos de saudade e terra escassa que não lhe morda a boca com mil nomes que vale um voo perpétuo se aqui ficas de pedra para sempre mais tarde quando as cores se recolherem no pálido sabor da madrugada poderás soltar o sangue para que saiba a dor do teu lugar e como a resgatar-te do teu insone sonho de onde a brisa se lança dos teus braços para a morte mais tarde quando as aves voltarem te pareçam idênticas às vozes que a mágoa sem motivo te trazia mais tarde compreendes Carlos Nogueira Fino, 39 poemas

sexta-feira, julho 11, 2008

like a puzzle

Are you lost or incomplete? Do you feel like a puzzle, you can't find your missing piece? Tell me how do you feel? Well I feel like they're talking in a language I don't speak And they're talking it to me So you take a picture of something you see In the future where will I be?

(Coldplay, Talk)

em resposta

De óculos de sol... não terei outro remédio... De "vikiny" é que ninguém me apanha, nina!

quinta-feira, julho 10, 2008

(M. C. Escher)

Toma-me o sono
aluga-me o sonho
Correntes de lava escorrem
por mim
ferem-me o ser
queimam-me os olhos

Um grito surdo
pede a claridade
a limpidez da água
no brilho líquido dos teus olhos
Aspiro o cheiro a terra molhada
que emana dos teus dedos

Do fundo de mim
esvoaçam pássaros
que me prendem ao chão
a que inerte
me entrego

(deep)

quarta-feira, julho 09, 2008

continuo...




... a roubar descaradamente!
Adoro este rei e a "rainha" que lhe deu vida!


Será que me prendem?!

Nem sempre sou igual...

(Descaradamente roubado à Ana)

Nem sempre sou igual ao que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.


Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo,
Reparem bem em mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés -
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma...

Alberto Caeiro

terça-feira, julho 08, 2008

Há músicas...

...que não conseguimos dissociar de rostos, de acontecimentos, de afectos... I can fly But I want his wings I can shine even in the darkness But I crave the light that he brings Revel in the songs that he sings My angel Gabriel I can love But I need his heart I am strong even on my own But from him I never want to part He’s been there since the very start My angel Gabriel My angel Gabriel Bless the day he came to be Angel’s wings carried him to me Heavenly I can fly But I want his wings I can shine even in the darkness But I crave the light that he brings Revel in the songs that he sings My angel Gabriel My angel Gabriel My angel Gabriel (Gabriel, Lamb)

segunda-feira, julho 07, 2008

a gente vai levando...

Uma óptima semana!

domingo, julho 06, 2008

ainda que não seja Natal...

Para a "piquena" matar saudades do gato branco da avó...




Para a Ana acrescentar ao post das colheres...


(Foto roubada à Ana)

Para a Cristina e o Zé saborearem...

correntes

O JVT, a partir de uma fotografia, lançou um desafio no seu blogue que ninguém lê.
Embora tenha hesitado, acabei por participar com um pequeno texto. Passem por lá e não deixem de ler os textos dos restantes participantes e de conhecer os cantos a uma casa simpática que reflecte o bom gosto do seu anfitrião.

sábado, julho 05, 2008

mimar


Fui dar mimo às minhas árvores. Reparei que à laranjeira nasceram umas discretas flores brancas, que os sete frutos do pessegueiro cresceram um pouco e que a ameixoeira exibe, embora com tímido orgulho, novos rebentos. Só o loureiro e o medronheiro me pareceram um pouco desmotivados, talvez porque tenho descurado o papel de mãe e as árvores pequeninas, como a gente pequenina, requerem mais cuidado e atenção.

Terminada a rega, fiz como o meu amigo J. me aconselhou: meti as mãos na terra molhada, para absorver a energia que emana da Natureza. Não sei se foi disso, mas estou bem disposta!

bom fim-de-semana!

(Montesinho, Maio de 2007)
O meu olhar espera-me nas coisas,
para me olhar a partir delas
e me despojar do meu olhar.
A minha memória espera-me nas coisas
para me provar que não existe o olvido.

E as coisas apoiam-se em mim,
como se eu, que não tenho raiz,
fosse a raiz que lhes falta.

Será que talvez as coisas
também esperem por mim?

Será que tudo o que existe
se espera fora de si?

Será que afinal os meus braços
estão abertos para me abraçar?

Roberto Juarroz
Com o texto anterior não pretendo, de forma alguma, declarar guerra a alguém, colocar-me do outro lado da barricada. Fazê-lo seria adoptar, pelo inverso, a atitude inquisitiva e penalizadora que observo em algumas pessoas. Seria assumir arrogantemente uma posição como certa. Mesmo quando fazemos opções conscientemente, há momentos em que experimentamos a dúvida, a angústia de não termos escolhido o caminho certo e noutros momentos sentimos, inevitavelmente, inveja da vida que os outros têm só porque não é a nossa.
As minhas palavras não passam de um apontamento de impressões, de sentimentos e de realidades que observo.
Mais: as amizades, quando são genuínas, estão para além dessas barreiras que a sociedade nos impõe. Nem as afinidades advêm de variantes como a idade, o sexo ou o estado civil das pessoas com as quais nos relacionamos.

sexta-feira, julho 04, 2008

em diálogo

Pois é, Infame, parece que, por muito que tentemos dar-lhe outras cores, o mundo continua, aos olhos de alguns, a ter apenas duas cores: o preto e o branco (ai de quem exiba o gosto pelo cinzento ou mais ainda por cores de verão!). Socialmente, essa dualidade preto/ branco passa também por ser-se casado (não necessariamente de papel passado) ou solteiro. Quem, por opção ou porque assim foi acontecendo, segue uma vida fora do expectável, das convenções do casamento e dos filhos estará sempre sob o olhar inquisitivo ou compassivo e às flutuações de humor e de amor dos advogados da moral e dos bons costumes, que se investem de autoridade para julgar e para ditar as leis que devem reger a vida dos outros. Espera-se que, chegadas aos 28/ 30 anos, as pessoas pensem em casar e ter filhos, para se seguir a tradição e a natureza. Se tal não acontece, é-se constantemente alvo de comentários e indirectas, quando não se sofre o esforço dos casamenteiros, que querem muito ver os “bons” rapazes e as “boas” raparigas “felizes”, crentes de que casamento e prole são as únicas vias para se ter um brilho no olhar. Contudo, por vezes, são aqueles que tanto querem ver os outros “arrumados” que maldizem o casamento e que invejam a liberdade de movimentos e a vida despreocupada de quem está livre dos constrangimentos do casamento. Pior do que ser-se solteiro por opção é não se ter filhos porque não se desejou que tal acontecesse. Uma mulher que confessa não ter o instinto e o desejo de ser mãe, das duas uma: ou está a mentir ou só pode ser alguém sem coração. Desejar ter filhos é, no dizer sábio de alguns, um apelo da natureza. Uma mulher que não tem filhos é uma imprestável, um exemplo de insensibilidade e de frieza ou de profundo egoísmo.
Inevitavelmente, Álvaro de Campos:
"Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável? Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa? Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade. Assim, como sou, tenham paciência!" (Lisbon Revisited)
"Há sensações que são sonos, que ocupam como uma névoa toda a extensão do espírito, que não deixam pensar, que não deixam agir, que não deixam claramente ser. Como se não tivéssemos dormido, sobrevive em nós qualquer coisa de sonho, e há um torpor do sol do dia a aquecer a superfície estagnada dos sentidos. É uma bebedeira de não ser nada, e a vontade é um balde despejado para o quintal por um movimento indolente do pé à passagem. Não é tédio o que se sente. Não é mágoa o que se sente. É uma vontade de dormir com outra personalidade, de esquecer com melhoria de vencimento. Não se sente nada a não ser um automatismo cá em baixo, a fazer umas pernas que nos pertencem levar a bater no chão, na marcha involuntária, uns pés que se sentem dentro dos sapatos."
F. Pessoa-Bernardo Soares, O Livro do Desassossego

quarta-feira, julho 02, 2008

liberdade

Cada vez que observo mais atentamente o peixe, converso com ele ou lhe mudo a água, lembro-me desta história. Definitivamente: não vou comprar um peixe para mim!