domingo, março 30, 2008

instantâneos

Contava-me, há poucos dias, uma mulher maravilhosa que conheço que, por ter sido vítima, pela segunda vez, de violência doméstica - sim, estes incidentes estão mais próximos de nós do que pensamos e vêm de pessoas que não imaginamos capazes de tais actos -, se dirigiu ao hospital da localidade onde mora. Fez o registo da praxe na urgência, onde, antes de ser vista pelo médico, lhe pediram uma quantia superior a cem euros. Inacreditável, não é?
Na tarde do dia de Páscoa, em espontânea reunião familiar, um primo dava outro exemplo de como é aconselhável não adoecer neste país: o filho, que tem quinze anos e que pratica natação de competição, num dos treinos ou numa das competições, magoou-se num pé. Foi levado à urgência, onde também solicitaram o pagamento de cento e trinta euros, que era suposto o seguro pagar, mas, até hoje, volvidos meses, tal não aconteceu.
Na sexta-feira de Páscoa, em conversa com uma amiga, esta contava-me, indignada, que, nessa manhã, uma prima fora multada pela GNR local por não ter consigo o comprovativo da última inspecção do carro que conduzia, embora tivesse colado o selo que serve o mesmo propósito. Os senhores agentes pediram-lhe, de imediato, duzentos e cinquenta euros - a quantia a pagar por não se ter feito a inspecção, não pela falta de documentos. Como a senhora não dispunha, no momento, dessa quantia nem de um cartão multibanco que lhe permitisse fazer o pagamento de imediato, teve que ir a um banco levantar o dinheiro, que entregou em mão.
Em Espanha, como por cá, os srs. agentes andam empenhados em fazer cumprir a lei, entrando no bolso dos "infractores"... se for no do vizinho, melhor! Isto para dizer que, também no período de Páscoa, um amigo que trabalha perto da fronteira, deu um saltinho a Espanha. No regresso - se não me engano -, deparou com uma cegonha no ninho, que resolveu fotografar. No mesmo instante, foi interpelado por dois polícias, que o multaram por estar a fotografar em território espanhol. Por pagar a multa no momento, teve um desconto de trinta por cento. Acreditam?
Uma correcção ao último "instantâneo" - obrigada Wandolas! -: a multa aplicada por "nuestros hermanos" não resultou do facto do implicado estar a fotografar, mas por ter parado em local indevido. Assim: nada a fazer! :(

quarta-feira, março 26, 2008

empatias

(Do mini-jardim da minha mãe)

Nada havia que retivesse Cecilia em casa; ninguém se importaria muito se ela partisse. Também não era o torpor que a prendia - sentia muitas vezes uma agitação próxima da irritabilidade. Simplesmente, gostava de sentir que a impediam de partir, que era precisa ali. (...) Ia-se deixando ficar, na monotonia e no conforto da sua casa, era uma espécie de autopunição com laivos de um prazer real, ou, pelo menos, esperado; se partisse, podia acontecer qualquer coisa de mau, ou, pior ainda, qualquer coisa de bom que ela não poderia dar-se ao luxo de perder.



Ian McEwan, Expiação

terça-feira, março 25, 2008

uma questão de educação

Muito se tem falado e escrito sobre a agressão da aluna de uma escola do Porto a uma professora. Não compreendo a razão de tamanho "alarido" à volta do incidente. Para quem é que situações destas são novidade? Parece que muitas pessoas deste país têm assumido uma atitude autista face ao que se passa nas escolas, que estão longe de ser lugares paradisíacos. Este incidente só é diferente de outros - quotidianos em alguns estabelecimentos de ensino - por ter vindo a público. Com maior ou menor incidência, de forma mais ou menos evidente, em todas as escolas, professores, alunos e auxiliares são alvo da falta de educação e da brutalidade, verbal ou física, de meninos mal educados que nunca aprenderam o respeito pelo outros.
Actualmente, os professores não só não são senhores de fazer cumprir os regulamentos das escolas, em que se inclui a proibição do uso de telemóvel, como se arriscam a longos confrontos verbais sempre que pedem a um aluno para sair da sala por ter tido um comportamento desajustado do contexto da aula. Raro é o aluno que acede, com humildade, apanhar um papel que propositada ou intencionalmente deitou ao chão ou que acate, sem protesto, uma advertência por ter proferido uma palavra menos própria ou por ter dado um encontrão a alguém. Por norma, não só não acata, como troça e repete o acto numa atitude provocatória.
Comum é o vandalismo gratuito sobre os espaços e os objectos - mesas, cadeiras, estores, cacifos -, que todos nós pagamos.
Estou convencida - há muito tempo - que as situações menos agradáveis que vão acontecendo nas escolas - abandono escolar incluído - se veriam solucionadas ou atenuadas se houvesse a coragem de responsabilizar os pais pelos actos "irreflectidos" dos "rebentos". Talvez alguns deixassem de dizer "Eu já não sei o que lhe hei-de fazer, minha senhora! Nós damos-lhe tudo." Parte do problema talvez passe por aqui: por darem tudo, menos atenção e educação.

segunda-feira, março 24, 2008





Não são as flores que prefiro, mas foram as únicas que encontrei:



(Dificuldades em postar - problemas de rede - fizeram-me chegar tarde à festa!)

sábado, março 22, 2008

das manifestações de afecto

Numa noite destas, quando me preparava para dormir, resolvi fazer "zapping" pelas rádios nacionais. A busca automática conduziu-me a uma conversa entre um locutor e o psiquiatra Eduardo Sá, que dizia, quando "cheguei", que temos medo de amar e de dizer aos outros que os amamos.
Não pude deixar de lhe dar razão. Não verbalizamos os sentimentos, expressamo-los cada vez menos pelo contacto físico. À medida que crescemos, desenvolvemos uma espécie de auto-censura (ou de pudor?) que tornam escassos os abraços e os beijos, que reservamos quase exclusivamente para os mais novos (muito novos!).
Se bem me lembro, pelos 18/ 20 anos, os abraços e os beijos eram fáceis. Quando a tristeza nos tomava, por razões mais ou menos válidas, sabíamos que alguém viria com prontidão abraçar a nossa dor e secar as nossas lágrimas. O tempo parecia sobrar para tudo - para o estudo, para as saídas e para longas conversas, feitas de confidências e cumplicidade, horas a fio.
Com o tempo, alguns de nós perdemos essa capacidade de expressar com espontaneidade os sentimentos. Amamos, mas não o dizemos aos alvos do nosso amor. Também tornamos escassos os beijos e os abraços... que assumimos, por vezes, como "lamechice" ou sinal de fraqueza e, quando alguém ainda ousa esses gestos de carinho, recebemo-los de forma desajeitada e tímida, como se, correspondendo, estivéssemos a cometer uma qualquer infracção.

quinta-feira, março 20, 2008

Boa Páscoa e Feliz Primavera :)


Era preciso agradecer às flores
Terem guardado em si,
Límpida e pura,
Aquela promessa antiga
De uma manhã futura.


(Flores, Sophia de M. B. Andresen)

lembranças

Ontem encontrei o primeiro "chefe" que tive. Já não se lembrava de mim. (Não me espanta: eu tenho esta peculiaridade de me tornar invisível na memória de algumas pessoas. A verdade é que, com o passar do tempo, tenho vindo a desenvolver a capacidade de tornar essas pessoas invisíveis na minha vida.) De súbito, lembrei-me de como era nova e inexperiente - obviamente no trabalho, mas também na vida -, da falta de tolerância e de solidariedade de muitos colegas de trabalho - ainda hoje se exibem "inchados" de sabedoria e de arrogância -, dos frios Invernos transmontanos que o clima ameno da Invicta me fizera esquecer, da solidão que me obrigava a lidar sozinha com os problemas que iam surgindo e que eram completamente novos para mim, da falta de transportes que me impedia de encontrar ao fim-de-semana conforto no "colinho" da casa dos pais... Também vivi nesse ano muitas experiências positivas, conheci pessoas que recordo com carinho, mas ontem só me ocorreram as lembranças más...

quarta-feira, março 19, 2008

Sabe bem

quando nos dizem que, de alguma forma, interferimos na vida dos outros... que deixámos marcas positivas, mesmo que os ecos nos cheguem dez anos depois...

terça-feira, março 18, 2008

Os pormenores importam?


(Imagem da net)

Não deixa de ser curioso - e contraditório - que eu, que tenho umas mãos pequenas e rechonchudas (de que não me orgulho, mas que não posso mudar!), dirija de imediato a minha atenção para as mãos alheias, as masculinas em particular. Depois (ou será em simultâneo?), a voz... o olhar... o sorriso...

Um pormenor que me irrita? Meias brancas... definitivamente.


Há dias

em que sentimos uma certa predisposição para "relativizar", embora saibamos ou pressintamos que não nos perdoam por sermos como somos.

sexta-feira, março 14, 2008

Adoptar um rio

Hoje fomos conhecer e "mimar" o rio de que se adoptaram quinhentos metros. Ainda inexperientes, aproximámo-nos das suas margens com cautela. Aos poucos, apurámos os sentidos e começámos a familiarizarmo-nos com diferentes aspectos.
Da fauna, observámos rãs ibéricas e rãs parteiras e recolhemos, entre outras espécies, nepidais, efémeras, notonetas e sanguessugas. Fechando os olhos, apurámos o ouvido para a harmoniosa combinação de chilreios e da água a correr. Aprendemos que, à excepção da víbora cornuda, as cobras que encontramos nesta região são inofensivas.
Ao longo das margens, recolhemos amostras de diversos exemplares da flora - madressilva, dente-de-leão, ranúnculo, roseira brava, órquídea selvagem, primaveras, salpuro, etc. Pudemos compreender a localização e a morfologia de árvores ripícolas como o amieiro, o salgueiro e o freixo, e como a presença de líquenes (incrustados, fruticulosos ou folhosos) é sinal de que o ar não é poluído.
A análise à água, com 8 de ph, revelou-nos estarmos na presença de um rio em cujo leito há serpentinites e talco.
Pelo meio, almoçámos, demos uns toques na bola - houve quem preferisse jogar Uno - e, sobretudo, desfrutámos do dia ameno, do contacto com a natureza e da boa disposição de todos.
Fica o registo num tosco conjunto de imagens. :)

Das imagens aos sons

do nordeste...

terça-feira, março 11, 2008

Sem tempo

para vos visitar e para dedicar tempo a esta casa, preencho o silêncio com imagens deste "reino maravilhoso", que são também expressão das vontades que as obrigações reprimem...

(Outra foto "roubada" ao mesmo amigo!)


(Esta veio do arquivo da mana!)



( Para que não pensem que é tudo roubado... esta pertence-me!)

Fiquem bem! :)

domingo, março 09, 2008

Desejo...


Apetece esta paz do planalto a adormecer, esta luz de sonho...



Nota: As fotografias de Trás-os-Montes foram "roubadas" a um amigo.

sexta-feira, março 07, 2008

Os três dias de luto que o município de Huelva decretou pela morte de Mari Luz são válidos enquanto símbolo - de respeito, de solidariedade, da indignação... Mas já não resolvem nada, já não a trazem de volta, nem mitigam a dor que a família sentiu e sente de forma acrescentada - se é possível ser a dor maior - agora.
É lamentável que não tenha havido neste e noutros casos a mesma preocupação e empenho - da comunicação social, da polícia e de todos nós - que mereceu Maddie. Afinal quanto vale uma vida humana?

quinta-feira, março 06, 2008

hoje e sempre

Tsiwari, esta também cai que nem luva... Daqui a pouco, vou... :) Eu hoje venho aqui falar duma coisa que me anda a atormentar e quanto mais eu penso mais eu cismo como é que gente tão socialista desiste de fazer o socialismo é querer fazer arroz de cabidela sem frango nem arroz na panela Eu hoje venho aqui falar duma coisa que me anda a atormentar e quanto mais eu penso mais eu vejo que esta grande obra de reconstrução parece mas é uma acção de despejo é como para instalar uma janela atirar primeiro os vidros para a viela (...) Eu amanhã posso não estar aqui mas também, para o que eu aqui repeti… é que não sou o único que acho que a gente o que tem é que estar unida. unida como as uvas estão no cacho unida como as uvas estão no cacho Sérgio Godinho, Venho Aqui Falar

quarta-feira, março 05, 2008

para acabar bem o dia

Até amanhã!

"As pessoas não são o que parecem."

A frase feita, debitada por uma qualquer personagem de uma qualquer novela de uma qualquer televisão nacional, ouvida enquanto esperava que me vendessem pão, soou-me a legenda para o estado de alma que minutos antes me tomara. Ocorre-me Pessoa: "O poeta é um fingidor (...)"...

amostra sem valor

Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém. Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível: com ele se entretém e se julga intangível. Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu, sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito, que o respirar de um só, mesmo que seja o meu, não pesa num total que tende para infinito. Eu sei que as dimensões impiedosas da Vida ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo, nesta insignificância, gratuita e desvalida, Universo sou eu, com nebulosas e tudo. António Gedeão ... também porque faltam o tempo, as palavras, a inspiração!

domingo, março 02, 2008

dúzia "cara" em tosca sinfonia

Desta vez, a resposta a um desafio da Hipatia: referir doze palavras caras, ou seja, que me são queridas. Saiu a tosca "sinfonia" que se segue:


Sob a luz do crepúsculo,
sonhei-te orvalho e brisa,
quis-me mar de serenidade.

No sonho, pincelado de indigo e oiro,
ofereceste-me, em silêncio,
magnólias, amor e buganvílias
para plantar no meu jardim.

Fica ao critério de quem passar continuar a "corrente"... Votos de bom domingo! :) Enjoy the music...

Canção de embalar

Bons sonhos num sono doce...

sábado, março 01, 2008

Há muitos, muitos anos

houve pelo menos um Verão em que esta música se ouvia repetidamente nas rádios generalistas. Nesse tempo, era tudo ainda a feijões. Não tínhamos preocupações, embora, por vezes, nos lamentássemos da sorte e nos sentíssemos as pessoas mais infelizes do mundo. Podíamos passar horas e horas a semear palavras como quem come cerejas, noite dentro, sem que o corpo se ressentisse, sem que a PDI viesse importunar-nos como hoje. A verdade é que, nas férias - que eram loooongaaas -, compensávamos o deitar tarde levantando-nos ao meio-dia, na melhor das hipóteses.
Esta música lembra-me um Verão em Lisboa e as ininterruptas conversas, até de madrugada, com uma das minhas primas do coração. Não sei onde íamos vasculhar tanto para dizer, mas o que é certo é que não conseguíamos estar juntas sem conversar sobre os mais variados temas. Sobretudo, interpretávamos atitudes, dissecávamos sentimentos, trocávamos leituras. A distância física e temporal abrandava as palavras, mas não as calava, porque, depois de Agosto ou Setembro, e durante um ano, convocávamos a cumplicidade da escrita, em cartas, quase semanais, de 7 ou 8 páginas. Com o tempo, trocámos as cartas por emails e telefonemas. Já não passamos férias juntas, o ano que ficávamos sem nos ver tornou-se plural, contudo a amizade ganhou outras tonalidades, mais definidas e permanentes. Eu gosto desta música - talvez pelas recordações que me traz -, ela não... mas esta e outras divergências provam que não é preciso ouvir a mesma canção - ao contrário do que diz o Rui Veloso - para se gostar de alguém.