Terça-feira, Junho 30, 2009
Segunda-feira, Junho 29, 2009
de tarde
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.
Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.
Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão de ló molhado em malvasia.
Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!
Cesário Verde
Esta tarde, não haverá burguesas, nem burricos, nem outras coisas que Cesário Verde enumera, mas, se a chuva não nos surpreender, haverá um piquenique. Bom trabalho para quem não pode, como nós, gozar o feriado!
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Sexta-feira, Junho 26, 2009
cansaço
Por vezes, acontece-nos cansarmo-nos dos outros. Temporariamente ou de forma irreversível.
A duração desse cansaço é, para mim, um medidor da resistência das relações, sejam estas de amizade, de trabalho, de cordialidade ou amorosas. Se o cansaço for longo, dá lugar à frieza e desta à degradação das relações vai um curto passo.
Sem que consigamos determinar o momento ou o motivo, desencontramo-nos de alguém com quem talvez nunca nos tenhamos encontrado. Fixamo-nos nos defeitos, que vemos à lupa, de tal maneira que deixamos que se sobreponham às qualidades da pessoa em causa e aos momentos bons que partilhámos com ela.
Por mais que, ao longo da vida, nos cansemos dos outros e estes se cansem de nós, não conseguimos habituar-nos às "perdas".
michael jackson
Gostemos ou não das suas músicas, aprovemos ou não as opções que fez, não podemos negar que é uma referência incontornável dos anos 80. Talvez por isso, não pude deixar de sentir um sobressalto quando li a notícia.
Já estou a imaginar a comunicação social nos próximos dias...
Quinta-feira, Junho 25, 2009
Domingo, Junho 21, 2009
Sábado, Junho 20, 2009
em tosca tentativa poética
quero felicitar o poeta José Marto (que já tive o gosto de conhecer), pelo lançamento do livro Pastoreio, que terá hoje lugar. Com muita pena minha, não poderei estar presente.
Também de suor e sangue
também de abismo
também de comunhão...
se desenham as palavras
que revelam o poema
também de pó de estrelas
e de águas límpidas
também de brisa
também de orvalho
também de insectos
e de rastejantes criaturas
que só o poeta
demiurgo do universo
inscreve nas pedras do tempo
Parabéns, poeta!
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em "stand by"
Quando os dias se resumem a trabalho é como se a vida entrasse em modo "pause". A semana que agora termina teve dias absurdos de 10 ou 11 horas de trabalho contínuo. Sinto-me suficientemente anestesiada para não sentir nada mais. Só o peso de uma rotina que não me tem oferecido tempo para mim ou para dedicar aos outros.
Em "stand by" têm estado as conversas e os cafés demorados numa esplanada, as leituras e outros prazeres que fazem com que a vida mereça ser vivida.
Não há nada de novo nos meus dias que possa ser partilhado. Por isso este blogue anda tão pobre e abandonado; por isso, não tenho feito telefonemas, nem enviado mensagens de e-mail. Talvez por tudo isto tenho sentido que me perco de algumas pessoas.
"Numb" - Portishead
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Sexta-feira, Junho 19, 2009
Quinta-feira, Junho 18, 2009
toque de campainha
Entre a rosa e a chuva é tudo solidão
Nenhuma mão vence a distância
que separa uma e outra do portão
começa e termina na infância
Ia jurar que outrora estive aqui
ou uma que não esta porta ao fim passarei
E tudo coube no olhar com que não vi
aquele rosto ali mas outro que não sei
Ruy Belo, Todos os Poemas
Terça-feira, Junho 16, 2009
haja paciência II
Não entendo por que razão certas empresas, nomeadamente bancos e operadoras de telecomunicações, insistem em contactar-nos através de números privados. Só inadvertidamente atendo esse tipo de chamadas, por isso chego a ter no telemóvel, por vezes só num dia, umas quinze não atendidas. A minha sorte - e o azar deles - é que o meu telemóvel passa a maior parte do dia em silêncio.
Torcidinha como sou, numa das raras vezes que atendi, obriguei a simpática voz masculina que ligou a fazê-lo de novo, de um número identificado.
Há dias, liguei para resolver um problema de facturação que surgiu do nada. Fartei-me de barafustar - ligar para um desses serviços faz perder a paciência a qualquer um! Deve ter sido por esse motivo que, no espaço de quatro dias, recebi duas chamadas que tinham como propósito aferir o meu grau de satisfação relativamente ao serviço. Ameaçar que se muda de operadora parece surtir algum efeito.
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Domingo, Junho 14, 2009
Sábado, Junho 13, 2009
ouvi dizer
Votos de um dia Muito Feliz! Que contes muitos!
(Deixo-te um bocadnho do teu T-o-M e da tua serra.)
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Quinta-feira, Junho 11, 2009
numa rua do Porto há muito tempo
Havia um Picasso
E as conversas fluíam
alheias a qualquer guerra civil.
Encaixilhado por cima das nossas cabeças
havia um “Guernica”.
E as conversas,
misturadas com o tilintar de loiças e o aroma de “cimbalinos”,
subiam de tom.
E, mesmo por cima das cabeças de alguns de nós,
a guerra clamava em fragmentos,
uma mãe suportava ao colo o filho
e o seu desespero era indiferente ao riso
que nascia de algum dito mais tolo que abafava
o trote dos cavalos,
a dor da gente que ali aparecia
e reclamava cafeína depois do almoço,
numa guerra civil em que a vontade de dormir
e as obrigações quotidianas se degladiavam.
Esqueci o nome do café, os rostos e as vozes
que reclamavam cafeína depois de almoço,
mas lembro-me que o quadro era uma reprodução
e por isso não o levávamos a sério.
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Quarta-feira, Junho 10, 2009
luís o poeta salva a nado o poema
Era uma vez
um português
de Portugal.
O nome Luís
há-de bastar
o mundo inteiro
ouviu falar.
Estala a guerra
e Portugal
chama Luís
para embarcar.
Na guerra andou
a guerrear
e perde um olho
por Portugal.
Livre da morte
pôs-se a contar
o que sabia
de Portugal.
Dias e dias
grande pensar
juntou Luís
a recordar.
Ficou um livro
ao terminar.
muito importante
para estudar.
Ia num barco
ia no mar
e a tormenta
vá d'estalar.
Mais do que a vida
há-de guardar
o barco a pique
Luís a nadar.
Fora da água
um braço no ar
na mão o livro
há-de salvar.
(...)
Sou português
de Portugal
depois de morto
não vou mudar.
Sou português
de Portugal
acaba a vida
e sigo igual.
(...)
É fado nosso
é nacional
não há portugueses
há Portugal.
(...)
Almada Negreiros (texto com supressões)
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Terça-feira, Junho 09, 2009
há um rumor
Há um rumor de folhagem
nas tardes lentas da infância,
e há vozes longínquas
que o calor estrangula.
Sentada no silêncio,
entregue à penumbra
estendo as mãos,
mas da limpidez
e da frescura das fontes
os dedos tocam só a memória.
De quando em quando,
há ainda uma rã que me ensina
o desgaste das pedras,
a verdura dos limos,
há ainda o odor dos pomos
que, debruçados,
trocam serenas palavras com a água.
nas tardes lentas da infância,
e há vozes longínquas
que o calor estrangula.
Sentada no silêncio,
entregue à penumbra
estendo as mãos,
mas da limpidez
e da frescura das fontes
os dedos tocam só a memória.
De quando em quando,
há ainda uma rã que me ensina
o desgaste das pedras,
a verdura dos limos,
há ainda o odor dos pomos
que, debruçados,
trocam serenas palavras com a água.
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eu
rising
I got caught in a storm
And carried away
I got turned, turned around
I got caught in a storm
That's what happened to me
So I didn't call
And you didn't see me for a while
I was rising up
Hitting the ground
And breaking and breaking
I was caught in a storm
Things were flying around
And doors were slamming
And windows were breaking
And I couldn't hear what you were saying
I couldn't hear what you were saying
I couldn't hear what you were saying
I was rising up
Hitting the ground
And breaking and breaking
Rising up
Rising up
(Lhasa de Sela)
Segunda-feira, Junho 08, 2009
mulheres
"E os homens clamam no seu orgulho revoltante de machos:
- A mulher é um ser inferior... em geral de pouca inteligência; fútil, má e falsa.
Mas decerto. É isso. É isso porque a fizeram assim. Fizeram-na assim os homens, e ela mesma colaborou na sua destruição. As mães são as piores inimigas do seu sexo."
Mário de Sá-Carneiro, O Incesto
Por vezes, as mães são "as piores inimigas", sobretudo porque mimam demais os filhos (homens), não os ensinando a ter respeito por elas próprias e por quem, depois, as substitui.
Sábado, Junho 06, 2009
nem eu me explico, nem tu me entendes
"Para muitas pessoas, (aceitação) é igual a tolerância. Mas não é: a aceitação é incondicional, vem do coração; a tolerância é condicional."
"Existe, por vezes, uma tendência para recriminar as pessoas pelas suas condutas. Confere-se a uma determinada maneira de agir categoria de identidade: "Por um cão que matei, mata-cães me chamaram", reza um ditado popular, que nos serve de exemplo. Não distinguir a conduta da identidade é um autêntico problema para a comunicação. Todas aquelas expressões que utilizam o verbo ser dirigem-se directamente ao centro da nossa identidade: "És mesmo burro!", em vez de dizer "O que estás a fazer é uma burrice." Usar ser é pôr-lhes um rótulo inequívoco. (...) Esta visão distorcida da conduta e da identidade tem o seu paradigma na seguinte frase: "A culpa das coisas que nos acontecem é das circunstâncias; a culpa do que acontece aos outros é serem como são."
Ontem, fiz uma julgamento precipitado de uma pessoa. Pus-lhe um rótulo por uma atitude que teve, tendo deixado que essa atitude se sobrepusesse a tudo o que de bom já testemunhei.
Ocorreu-me, quando cheguei a casa, que somos tão céleres a julgar os outros como a encontrar desculpas para as nossas condutas. Lembrei-me também das palavras que lera, há uns tempos, num livro intitulado Nem eu me explico, nem tu me entendes de Xavier Gui.
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nós e os outros
Parabéns!
logo
vou ao teatro, ver esta peça pela segunda vez.
Para quem estiver por perto e quiser passar um bom bocado, hoje é no Centro Cultural de Macedo de Cavaleiros.
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Sexta-feira, Junho 05, 2009
reciprocidade
Uma amiga, para me desejar bom fim-de-semana, enviou-me (e relembrou-me) esta passagem de um dos livros que li repetidamente - a primeira quando estava a fazer 18 anos. Partilho-a convosco.
Descobrirás que não és a primeira pessoa a quem o comportamento humano alguma vez perturbou, assustou ou mesmo enojou. Não estás de modo nenhum sozinho nesse ponto, e isso deve servir-te de incitamento e de estímulo. Muitos, muitos homens se sentiram tão perturbados, moralmente e espiritualmente, como tu estás agora. Felizmente, alguns deles deixaram memórias dessa perturbação. Hás-de aprender com eles... se quiseres aprender. Tal como um dia, se tiveres alguma coisa para dar, alguém há-de aprender contigo. É um belo tratado de reciprocidade. E isto não é instrução. É história. É poesia.(...) Não estou a tentar dizer-te que só os homens instruídos e com estudos estão preparados para dar alguma coisa ao mundo. Não é verdade. Mas afirmo que os homens instruídos e com estudos, se, para começar, forem inteligentes e criativos, o que, infelizmente, raramente acontece, tendem a deixar atrás deles memórias mais valiosas do que os homens simplesmente brilhantes e criativos. Tendem a exprimir-se mais claramente, e normalmente têm a paixão de seguir os seus próprios pensamentos até ao fim. E, o que é mais importante, nove em cada dez vezes são mais humildes do que os pensadores sem estudos.
Salinger, À Espera no Centeio
Quarta-feira, Junho 03, 2009
pessoas
« No próximo ano vou embora», disse-me com os olhos rasos de água, «estou cansada desta terra e das pessoas que só sabem criticar e meter-se na vida dos outros. Já não aguento mais. É assim desde sempre.»
Eu sei, por outra via, que é verdade. Que é assim desde sempre. Que um temperamento demasiado sensível não a ensinou a defender-se, a dar o troco. Que cada pequeno revés é motivo de sofrimento.
Com uma personalidade que se afasta dos padrões de uma grande parte dos colegas, é constantemente alvo de comentários. Estranham-lhe – e não aceitam – a pureza de espírito e de coração, a generosidade que a leva a colocar os outros em primeiro lugar, a ligeira gaguez que é sinal de timidez e de insegurança, a delicadeza no trato.
Sei também que é precisamente com essas qualidades que ganha a confiança e a fidelidade de outros que, como ela, têm um coração grande, ainda que sejam muito diferentes na forma de estar e na “resistência”.
« Não decidas já”, disse-lhe. “Tens as férias todas para pensar. É só mais ano. Depois terás mesmo de ir embora.»
“Não. Quero começar do zero, conhecer outras pessoas, fazer outros amigos. Já falei com os meus pais.”
A conversa durou mais uns minutos. Sei que terá sido em vão que procurei convencê-la de que os problemas não se resolvem só porque mudamos de lugar, que nós continuamos os mesmos e que, em todas as terras, há pessoas boas e pessoas más.
Penso que não lhe disse: de vez em quando, ainda acredito que mudar de lugar poderá fazer a diferença; que, por vezes, esta terra me parece muito pequena.
Segunda-feira, Junho 01, 2009
em louvor das crianças
(Imagem roubada à Ana)"Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultaneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados — a tais regressos se chama, às vezes, poesia. Essa espécie de terra mítica é habitada por seres de uma tão grande formosura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e foi às crianças, como todos sabem pelos evangelhos, que foi prometido o Paraíso.
A sedução das crianças provém, antes de mais, da sua proximidade com os animais — a sua relação com o mundo não é a da utilidade, mas a do prazer. Elas não conhecem ainda os dois grandes inimigos da alma, que são, como disse Saint-Exupéry, o dinheiro e a vaidade. Estas frágeis criaturas, as únicas desde a origem destinadas à imortalidade, são também as mais vulneráveis - elas têm o peito aberto às maravilhas do mundo, mas estão sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta, não diminui nem se extingue.
O sofrimento de uma criança é de uma ordem tão monstruosa que, frequentemente, é usado como argumento para a negação da bondade divina. Não, não há salvação para quem faça sofrer uma criança, que isto se grave indelevelmente nos vossos espíritos.
O simples facto de consentirmos que milhões e milhões de crianças padeçam fome, e reguem com as suas lágrimas a terra onde terão ainda de lutar um dia pela justiça e pela liberdade, prova bem que não somos filhos de Deus.".
Eugénio de Andrade, in Rosto Precário
(Foi com este texto que uma amiga me felicitou esta manhã, por email.)
Um dia muito feliz para a criança que ainda habita cada um de vós!
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eugénio de andrade
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