quinta-feira, abril 30, 2009

Ena... tantas!
Não sei se é obra da Joana Vasconcelos, mas tem pinta disso...
(Imagens recebidas por email)

quarta-feira, abril 29, 2009

terça-feira, abril 28, 2009

piercings e bordados

Há dias, numa viagem de camioneta, fui obrigada a ouvir uma conversa entre uma rapariga dos seus 20 anos e um rapaz, militar, talvez da mesma idade. Ainda colei os auscultadores nos ouvidos, mas o volume das vozes sobrepôs-se ao da minha música e não tive, portanto, outro remédio.
A certa altura, ela queixava-se, indignada, que as raparigas que não tinham saído da terra para estudar a criticavam por usar piercings. De imediato, condenava essas raparigas por se dedicarem aos bordados, acrescentando com orgulho que nunca tinha querido saber de tais tarefas, embora a mãe se tenha esforçado por lhas ensinar.
Eu nunca pus um piercing, nunca fiz uma tatuagem. Não é uma questão de gosto. É uma questão de feitio... e de estilo. Se os anéis me fazem impressão, imagino o que não seria ter um piercing na língua ou em qualquer outra parte corpo – exposta ou íntima. Acho até uma certa graça a alguns. Quanto às tatuagens, aprecio-as, nos corpos alheios, discretas, simbólicas, de um simbolismo duradouro - não me refiro, obviamente, aos corações trespassados por setas, encimados ou seguidos pelo nome da namorada do momento.
Ora, como já referi, nunca pus um piercing, nem fiz uma tatuagem, mas aprendi uns rudimentos de algumas manualidades e nunca senti que isso me tenha tornado mais tacanha do que as pessoas que se orgulham de não perderem tempo com essas coisas. Isto também para dizer que, quando ouvi a mocinha atacar de pirosas as meninas dos bordados, me ocorreu que o preconceito dela não era menor do que os dessas raparigas às quais se referia tão sarcasticamente e que o facto de ter ido estudar para a grande cidade ou de ter posto um piercing não tinham sido garantia de espírito aberto, embora ela ingenuamente acreditasse que sim.

o "meu" Abril

Em resposta à Hipatia: Não me lembro com que idade Abril deixou de ser apenas o mês dos aniversários, primeiro o do meu irmão, depois o meu, para passar também a ser o mês da Revolução. Quando esta ocorreu, eu vivia a muitos quilómetros da capital e era demasiado nova (fizera cinco anos uma semana antes) para ter noção do que se estava a passar. Mesmo que os adultos se tenham manifestado à minha volta não me recordo de tal. Imagino que o quotidiano das pessoas não tenha sofrido alterações significativas - pelo menos a curto prazo.
Lembro-me dos militares que apareceram na vila algum tempo depois. Costumavam parar pelo café Primavera, que pertencia aos pais de uma amiga minha, e que nos davam uns pacotinhos compridos que tinham dentro um líquido doce. Quando, um ano e meio depois, entrei na escola primária, já não havia retratos na parede. Apenas um crucifixo.
Suponho que o dia 24 de Abril de 1974 tenha sido um dia igual a muitos outros. Se estava bom tempo, é provável que tenha passado parte dele na rua a brincar com outros miúdos da minha idade. Talvez tenha visto algum programa na televisão do tal café Primavera, que ficava a escassos metros da minha casa, ou na casa de uma amiga - a nossa primeira televisão só foi comprada no dia 5 de Abril de 1975, nos cinco anos do meu irmão (era uma Grundig com a caixa vermelha!).

sábado, abril 25, 2009

debaixo das oliveiras

(Trás-os-Montes, Abril de 2009)
Este foi o mês em que cantei dentro de minha casa debaixo das oliveiras. O mês em que a brisa me pôs nas mãos uma harpa de folhas e a terra me emprestou sua flauta e sua lua. Maré viva. Meu sangue atravessado por um cometa visível a olho nu tangido por satélites e aves de arribação navegado por peixes desconhecidos. Este foi o mês em que cantei como quem morre e ressuscita no terceiro dia de cada sílaba. O mês em que subi a uma colina dentro de minha casa olhei a terra e o mar depois cantei como quem faz com duas pedras o primeiro lume. Palavras e pedras. Palavras e lume de uma vida. Este foi o mês em que fui a um lugar santo dentro de minha casa. O mês em que saí dos campos e me banhei no rio como quem se baptiza e cantei debaixo das oliveiras as mãos cheias de terra. Palavras e terra de uma vida. Este foi o mês em que cantei como quem espalha ao vento suas cinzas e cresce de seu próprio adubo carregado de folhas. Palavras e folhas de uma vida. O mês em que a mulher tocou meus ombros com sua graça e me deu a beber a água pura do seu poço. Este foi o mês em que o filho derramou dentro de mim o orvalho e o sol de sua manhã. O mês em que cantei como quem de si se perde e reencontra nas coisas novamente nomeadas. Este foi o mês em que atravessei montanhas e cheguei a um lugar onde as palavras escorriam leite e mel. MILAGRE MILAGRE gritaram dentro de mim as aves todas da floresta. Então reparei que era o lugar do poema o lugar santo onde cantei entre mulher e o filho como quem dá graças. Este foi o mês em que cantei dentro de minha casa debaixo das oliveiras. Manuel Alegre

o sabor da liberdade

Contou-me ontem um colega de trabalho que foi, em dois momentos diferentes, interrogado pela PIDE. A primeira vez na sequência de uma rusga num concerto de Zeca Afonso, em Coimbra; outra, dois meses depois, para responder a algumas perguntas do mesmo questionário que teriam ficado sem resposta na primeira vez. Na segunda vez, fizeram-no esperar aproximadamente duas horas e meia numa pequena sala, onde não havia nada, nem mesmo uma cadeira. Contou ainda que, em 72, conseguiu, com muita dificuldade, arranjar um passaporte que acabou por lhe ser confiscado pela PIDE quando ele se encontrava no comboio, a escassos quilómetros da fronteira. Deu por feliz o incidente, uma vez que não foi de novo levado para interrogatório. Ouvi-o e pensei como, mesmo tendo nascido antes da Revolução, tenho sido uma afortunada por nunca ter sentido medo, por poder sair livremente do país, por não sentir desconfiança em relação ao vizinho, por poder ouvir Zeca Afonso sem que me apreendam os Cds (a não ser que sejam pirateados), por ter podido participar em RGAs e manifestações de rua, de forma menos apaixonada, é certo, mas com liberdade, por ter a possibilidade de escolher o partido em que quero votar e por poder votar, também por não ter sobre mim a censura de um lápis azul que, noutros tempos, me impediria de publicar estas breves linhas neste espaço. Que o vosso dia saiba a Liberdade!

" (...) a necessidade que Portugal tem de ser qualquer coisa de asseado!"

sexta-feira, abril 24, 2009

que las hay, las hay

Se acreditasse em bruxas, diria que hoje alguma me viu e me lançou um mau olhado.
Tudo começou com um secador enfurecido que desatou a lançar chamas e fumo e que teria feito mais estragos se não o tivesse arremessado de imediato contra o chão e desligado da tomada.
De seguida, ao tocar no interruptor da casa de banho, a lâmpada estoirou - literalmente.
No fim do dia, quando voltava, a pé, de uma consulta, provoquei, ainda que sem qualquer culpa, um acidente. Eu explico: parei junto a uma passadeira, um condutor parou para me deixar passar, contudo o que vinha atrás dele como estava distraído, não se apercebeu, acabando por bater na traseira do outro e deixando a frente do seu carro desfeita. Sei que não fui responsável pelo que aconteceu, mas não deixo de pensar que se tivesse decidido atravessar numa passadeira alguns metros antes , como ainda me ocorreu, tal não teria acontecido.
Para finalizar: a minha televisão não liga. Hoje que tinha a intenção de esparramar-me um pouco no sofá, a desgraçada decidiu fazer birra.
Estou ansiosa por que este dia acabe... só espero que o azar não venha em pacote fim-de-semana!

amarelo e preto

Nos próximos tempos, a minha leitura e a minha escrita decorrerão, em parte, entre paredes vestidas de amarelo e preto.
Para que as minhas "letras não andem aos papéis" (como o próprio escreveu), o Jorge ofereceu-me um caderno de fabrico artesanal das papelarias Emílio Braga, que adquiriu na Vida Portuguesa.
A Ana, na impossibilidade de me oferecer um Jaguar (já me contentava com um carrito modesto), presenteou-me com O Rastro do Jaguar do Murilo Carvalho, de que vos deixo um excerto para vos abrir o apetite para a leitura.
"Esses escuros profetas talhados na pedra, que vejo da janela do meu quarto, estão se tornando uma obsessão na minha vida; e essa chuva que parece não parar nunca, que molha as pedras como óleo, me penetra nos ossos como me penetra na alma o olhar duro desses profetas. (...)
Minha única companhia é um fantasma, doce fantasma que bebe comigo, deita em minha cama, caminha ao meu lado pelas ladeiras empedradas, olha com os meus olhos a chuva, sente como eu o vento que entra pela janela, vindo das montanhas. Francisca, esse fantasma que não me assombra: música, gestos, vozes; meu amor."
Murilo Carvalho, O Rastro do Jaguar

quarta-feira, abril 22, 2009

Havia

Havia 
na minha rua 
uma árvore triste. 

Quebrou-a o vento. 

Ficou tombada, 
dias e dias, 
sem um lamento. 

(Assim fiquei quando partiste.) 

Saúl Dias

terça-feira, abril 21, 2009

pequenos prazeres...

(Trás-os-Montes, hoje)
... de fim de tarde.

e mais de um século depois...

O português nunca pode ser um homem de ideias, por causa da paixão da forma. A sua mania é fazer belas frases, ver-lhes o brilho, sentir-lhes a música. Se for necessário falsear a ideia, deixá-la incompleta, exagerá-la, para a frase ganhar em beleza, o desgraçado não hesita... Vá-se pela água abaixo o pensamento, mas salve-se a bela frase. Eça de Queirós, Os Maias
... será que é diferente?
No excerto, substituiria "pensamento" por "verdade"...

domingo, abril 19, 2009

mankind is no island

fazer balanços

(Trás-os-Montes, Abril de 2009)
Não notei nada de diferente em mim desde ontem. Apenas alguma dificuldade em associar um novo número ao que me sinto e sou. Apenas a tentação, mais do que a necessidade, de fazer um balanço dos anos que ficam para trás e de, perscrutando o horizonte, traçar planos para o futuro.
Não foi de sol este dia que findou há minutos. No lugar dele, houve corações generosos, presenças serenas, palavras amigas que as vozes ou a escrita fizeram chegar até mim.
Ainda não foi desta vez que me ofereceram o carro ou a televisão de que preciso. Em contrapartida, presentearam-me com livros e música que me podem fazer viajar sem gastar gasolina e me salvam de alguns programas televisivos sem interesse.

quarta-feira, abril 15, 2009

cauterizar feridas

Juan José Millás, em diferentes momentos do seu livro O Mundo, refere que a escrita, como um bisturi eléctrico, "abre feridas e cauteriza-as ao mesmo tempo".
Quando escrevemos, verbalizamos a matéria emocional, tornamo-la palpável e clara, iniciando um processo de auto-análise, ao mesmo tempo doloroso e libertador. Assim nos vamos também conhecendo.
Ler (como escrever) nem sempre se revela um processo pacífico. A leitura não só abre feridas como aprofunda muitas vezes aquelas que nos impeliram para a leitura de certos textos. A cura dessas feridas revela-se por norma mais lenta.
Lemos por obrigação, por prazer, mas fazêmo-lo também por necessidade - para iludirmos a rotina, para abrandarmos a pressão exterior, para nos encontrarmos, perdendo-nos em mundos diferentes do nosso, em que coabitamos com personagens com as quais nos identificamos e das quais tomamos as dores e as alegrias. Mas também para protelarmos o regresso à realidade, que nos oprime, com a qual tememos não saber lidar.

terça-feira, abril 14, 2009

Surpreendia-me, por exemplo, a capacidade das palavras para se encontrarem com os objectos que nomeavam. Assim, uma mesa não podia ser outra coisa senão uma mesa, a própria palavra o dizia, mesa. Ou cavalo. Dizíamos cavalo e víamos as crinas do animal, a sua cauda, os seus olhos inquietos... Teríamos porventura podido chamar cavalo à mesa e mesa ao cavalo? Impossível. Como teria sido a operação pela qual as palavras e as coisas, num tempo remoto, se haviam encontrado?
Juan José Millás, O Mundo

quinta-feira, abril 09, 2009

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta, Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter, Pergunto a mim próprio devagar Porque sequer atribuo eu Beleza às coisas.
Uma flor acaso tem beleza? Tem beleza acaso um fruto? Não: têm cor e forma E existência apenas. A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão. Não significa nada. Então porque digo eu das coisas: são belas? Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver, Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens Perante as coisas, Perante as coisas que simplesmente existem. Que difícil ser próprio e não ser senão o visível! (Alberto Caeiro)
Com votos de Páscoa Feliz para todos!

sábado, abril 04, 2009

reaching for the moon

no ouvido

Da noite de ontem, ficou-me uma música no ouvido. Só não consigo lembrar-me se era esta versão (Green Day) ou esta (John Lennon) ou uma infinidade delas interpretadas por diferentes grupos e cantores a solo.

sexta-feira, abril 03, 2009

Esta hoje é, especialmente, para o Zé Marto do Vá Andando... ele sabe porquê!

quinta-feira, abril 02, 2009

curtas

A partir da próxima semana, a Visão e o Expresso oferecem (é um modo de dizer!) filmes do Almodóvar. "27 - Festival Internacional de Teatro" já começou, em Bragança, Chaves e Vila Real (de 27 de Março a 27 de Abril). Até 3 de Maio, poder-se-á visitar, no Museu Berardo, a exposição de fotografia Arquivo Universal - O Documento e a Utopia Fotográfica, organizada pelo Museu d' Art Contemporani de Barcelona, e "construída com base em 1200 fotografias vintage e centenas de documentos, publicações e filmes". No sábado, 4, dá-se o segundo encontro de Nortweeters, no café Avis, no Porto (no meu tempo, estudava-se nesse café, a partir de apontamentos!). Aqueles que gostam de rezar, mas não têm tempo, podem consultar a página Information Age a Prayer, através da qual, pela módica quantia de 38 euros por mês, um computador reza na nossa vez (só mesmo na América!). (Enquanto estive na sessão diária de fisioterapia, fui apanhando estas e outras na Visão.)

long nights

"A Humanidade divide-se entre aqueles que gostam de se meter na cama à noite e aqueles a quem dormir desassossega. Os primeiros consideram que os leitos são ninhos protectores, enquanto os segundos sentem que a nudez do dormitar é um perigo. Para uns, o momento de se deitar implica a supensão das preocupações; aos outros, pelo contrário, as trevas provocam um alvoroço de pensamentos daninhos e, se fosse por eles, dormiriam de dia como vampiros. Sentiste alguma vez o terror das noites, a angústia dos pesadelos, a escuridão a sussurrar-te na nuca com o seu hálito frio que, embora não saibas o tempo que te resta, não passas de um condenado à morte? E, no entanto, na manhã seguinte a vida volta a explodir com a sua alegre mentira de eternidade."
Rosa Montero, Instruções para Salvar o Mundo
Em certa medida, pertenço ao segundo grupo... mas não saberia viver sem luz, sem o calor reconfortante do Sol e as cores do mundo que ele revela e que a noite oculta.

Eddie Vedder - Long Nights (A letra aqui)

instruções para salvar o mundo

Sim, o caos, a solidão, a tal noite da alma, a humanidade que sobrevive ao "lado errado da noite" submergem-nos, ameaçam sufocar-nos. E no confronto com o que em nós há de tudo isso, com o nosso alter ego, que intuímos, de certa forma, em cada personagem, tornamo-nos cúmplices, expiamos as nossas dores e as nossas fragilidades.

Pois é,

parece que até para mentir me falta imaginação! Já muitas vezes me passou pela cabeça deixar de "alimentar" este espaço, pelas razões apontadas, mas também porque muitas vezes me faltam tempo e disposição para o fazer.
Um dia hei-de cansar-me e deixar de aparecer por cá, por estas ou por outras razões, mas não será já. Por enquanto, ainda tenho vontade de vos ler, mesmo que não comente e, de vez em quando, ainda sinto a tentação de escrever uns devaneios, mesmo que mal alinhavados, e de partilhar as músicas e os poemas de que gosto.
É óbvio que todos gostamos de ter feedback do que postamos, em comentários, mas mais importante é sabermos que nos "acompanham", ainda que nem sempre aqueles que o fazem escrevam alguma coisa - sei que uma parte dos meus seguidores (e não me refiro aos que estão registados) me visitam quase diariamente e nunca ou quase nunca comentam.
Aproveito para agradecer àqueles que ainda se dão ao trabalho de passar por cá. Aos meninos que deixaram comentários no post anterior: muito obrigada pelas vossas palavras!

quarta-feira, abril 01, 2009

O último...

Decidi, finalmente, parar de escrever no Letras. Sinto que a vontade de escrever não tem sido muita, as ideias falham e os leitores têm vindo a ser cada vez menos.
Até depois...