terça-feira, outubro 28, 2014

Devaneio outonal


Suspendo, por breves instantes, o trabalho e ergo o corpo. Num gesto intuitivo, dirijo o olhar para a serra - que, como sempre, se mostra maternal e atenta na sua majestade. Sinto, de imediato, uma brisa morna a lamber-me o rosto. «Como quem lambe feridas.», penso. Neste caso, não são do corpo, mas da alma as feridas que precisam de apaziguamento
Não é apenas a serra que faz acontecer em mim um sentimento de familiaridade antiga, indissociável do tempo longínquo da infância. Há essa luz de Outono e um silêncio profundo, que o roçar das folhas dos castanheiros e o som rouco dos aviões - aves gigantescas, cujo estômago parece acusar uma fome permanente -, em vez de perturbarem, intensificam.
Há esse calor, excessivo para a época, que me toca a pele e me transmite a ilusão de que a alma fica em paz. Retomo, por isso, o trabalho, antes que os meus companheiros, os melhores amigos que posso desejar, me acusem de malandrice.

5 comentários:

Maria Aurora disse...

Li e gostei as tuas rememorações. Beijinhos

Isabel disse...

Bom Outono!

Nem toda a gente tem a sorte de ter como bons amigos os colegas de trabalho!

Lindo texto:)

pcristinasantos disse...

Que bom que é ter essa paisagem, como fuga ;)

Lídia Borges disse...


Ah, este feliz debruçar-se sobre a infância, além das feridas! Tão belo, assim dito.

Beijo meu

deep disse...

Obrigada, Aurora. :) Beijinhos

Isabel, os companheiros de trabalho eram os meus pais, com quem fui apanhar castanhas todo o Sábado.

Obrigada. :)

Paula, apesar das dores que pode causar, vale sempre a pena. :)

Obrigada, Lídia. :)

Beijinhos para todas