Terça-feira, Março 31, 2009

Trindade Coelho

(Estátua do autor, em Mogadouro - fotografia da net)
Trindade Coelho, escritor transmontano, nascido em Mogadouro (1861), será o rosto do próximo bilhete de lotaria.
Porque vivi muito tempo a dois passos da casa onde ele nasceu e porque da minha janela, como da dele, se via a torre da igreja do Convento de S. Francisco, cedo despertou em mim o gosto pelo autor.
O primeiro contacto com as palavras do autor veio-me pela boca de uma amiga mais velha, que nos lia, aos que ainda não sabíamos ler, excertos da autobiografia do autor, inserta no volume de contos Os Meus Amores. Só na adolescência, li esse e outros títulos. Deliciei-me com O Senhor Sete, que constitui uma recolha de exemplares da cultura popular (adivinhas, provérbios, lengalengas, superstições), alguns dos quais relacionados com a simbologia do número sete.
Trindade Coelho foi considerado, por alguns homens de letras do seu tempo (e por alguns actuais), um escritor menor, sobretudo pela ruralidade que perpassa nas suas obras (temas, personagens e linguagem), talvez por isso as comemorações dos cem anos da sua morte, em 2008, não tenham tido o eco merecido.

Segunda-feira, Março 30, 2009

novo desafio

Já várias vezes escrevi sobre mim neste espaço, algumas das quais em resposta a desafios. Desta vez, vou responder porque mo pede uma das vizinhas mais antigas do Letras.
Antes de tudo, as regras: 1. publicar o link de quem me desafiou; 2. publicar as regras; 3. indicar mais seis blogues e publicar os respectivos endereços; 4. avisá-los do que lhes acaba de suceder; 5. não os apressar a responder.
Menina, espero que me desculpes, mas não vou poder ir além da segunda regra. A experiência provou-me que os meus leitores não costumam responder aos meus desafios, razão pela qual não vou apontar seguidores da corrente.
Quanto a mim,
1. tenho vindo a ficar cada vez mais céptica em relação às pessoas - "Nas costas dos outros, vejo as minhas." é uma das frases que mais me ocorre quando vejo algumas pessoas a dar palmadinhas nas costas a outras de quem já as ouvi falar mal;
2. só com muita certeza do que sinto, manifesto carinho por alguém;
3. embora tenha nascido no interior, sinto frequentemente muitas saudades do mar;
4. gosto de restaurar móveis velhos (lixar, pintar, pôr puxadores novos);
5. não concebo o mundo sem música;
6. sinto-me uma extra-terrestre cada vez que vou comprar roupa.

Sábado, Março 28, 2009

hora do planeta

Segundo me disseram, hoje é dia de apagar as luzes. Obrigada menina C.! Mais informação aqui.

Sexta-feira, Março 27, 2009

Terça-feira, Março 24, 2009

Parabéns!

Menina Hipatia, este é o meu "mimo" pelo teu aniversário. Desculpa a falta de originalidade, mas neste momento (estou a trabalhar e prevejo ir pela madrugada dentro!), não tenho imaginação (nem tempo) para mais!

Espero que a festa esteja a correr bem e que contes muitos!

Segunda-feira, Março 23, 2009

"But if you never try you'll never know Just what you're worth"

Domingo, Março 22, 2009

comparar

(Original: "Don't Go", Yazoo) (Cover: "Don't Go", Nouvelle Vague)

Sábado, Março 21, 2009

a espantosa realidade das cousas

(Março de 2009)
A espantosa realidade das cousas É a minha descoberta de todos os dias. Cada cousa é o que é, E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra, E quanto isso me basta. Basta existir para se ser completo. Tenho escrito bastantes poemas. Hei de escrever muitos mais. Naturalmente. Cada poema meu diz isto, E todos os meus poemas são diferentes, Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto. Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra. Não me ponho a pensar se ela sente. Não me perco a chamar-lhe minha irmã. Mas gosto dela por ela ser uma pedra, Gosto dela porque ela não sente nada. Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo. Outras vezes oiço passar o vento, E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido. Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto; Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo, Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar; Porque o penso sem pensamentos Porque o digo como as minhas palavras o dizem. Uma vez chamaram-me poeta materialista, E eu admirei-me, porque não julgava Que se me pudesse chamar qualquer cousa. Eu nem sequer sou poeta: vejo. Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho: O valor está ali, nos meus versos. Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade. Alberto Caeiro, Poemas Inconjuntos

... também porque hoje se celebra a poesia e porque ontem, às 11h45, chegou a Primavera.

Até vi estrelas!

O conhecimento que tenho das estrelas é ínfimo, embora estas sempre me tenham fascinado. Por mais que o observe, nunca consigo deixar de pasmar perante um céu estrelado, sobretudo se estiver no campo, sem qualquer luz. Sempre que vejo uma estrela cadente, fico feliz como se fosse a primeira vez. Era capaz de ficar horas a olhar as estrelas, mesmo sendo para mim difícil distingui-las, fixar-lhes as posições. Até os nomes, pela forma e som, encerram mistério e magia.
Esta noite, depois de uma palestra, a que deu voz um professor da Universidade de Lisboa, sobre a origem do Universo e o funcionamento do LHC, alguns jovens alunos de Física da mesma universidade falaram-nos sobre as estrelas. Enquanto as sinalizavam, foram contando lendas relacionadas com algumas constelações, numa atitude despretensiosa e disponível. No final, pudemos, apesar de haver alguma luz no local onde nos encontrávamos, observar Saturno e algumas estrelas.
Amanhã, aliás, hoje mesmo, não vou faltar no planetário que trouxeram com eles!

Quinta-feira, Março 19, 2009

resolvida?

Não sei se a Hipatia me julga uma mulher resolvida ou se, elegendo-me para escrever um texto sob o selo que em cima se exibe, tem a esperança de que alguma coisa comece a resolver-se em mim. Visto que a escrita constitui muitas vezes um exercício de introspecção e que é também por este processo que nos olhamos ao espelho e, assim, nos vamos resolvendo um pouco, talvez alguma coisa se torne mais clara em mim.
Mais do que uma mulher resolvida, sou uma mulher que se vai resolvendo. Com os sucessos e os fracassos, as experiências próprias e os exemplos – bons e maus – dos outros, alguns exercícios de introspecção e alguma dose de humildade para saber reconhecer os erros e tentar emendá-los.
Tenho hoje, em relação a certas questões que se prendem com o conhecimento de mim e dos outros, mais certezas. Por isso, já não desespero com as alergias com que a Primavera me brinda anualmente. Por isso dou tempo e paciência às dores que advêm das paixões e das desilusões – sei hoje que uma paixão que pode, num momento, parecer destruir-me, há-de, algum tempo depois, reduzir-se a um sentimento insignificante, quando não ridículo e irracional. Por ter começado a conhecer um pouco os outros, reduzi o número de oportunidades que dou a algumas pessoas. Por essa razão aprendi também a desfazer-me com mais facilidade de moradas e de números de telefone, assim como atirei para o lixo a vitrina dos ídolos e deixei de conceder a quem quer que seja o direito de me olhar com a arrogância dos intocáveis. Tenho procurado valorizar as coisas simples que os dias e as pessoas de quem gosto me oferecem. Sei que serei feliz enquanto àqueles que amo, e a mim própria, não faltarem saúde e dinheiro para o essencial. Aprecio cada vez mais do meu espaço e o silêncio, pois é neles que principalmente me encontro.
Arrumei na garagem alguns objectos supérfluos e no esquecimento memórias e pessoas que não interessam.
Frequentemente, arrependo-me da escolha profissional que fiz, sobretudo porque os resultados do meu trabalho são poucas vezes óbvios e compensadores.
Por vezes, desespero ainda com hábito de trabalhar sob pressão, com a tendência para me refugiar na leitura nos períodos de mais trabalho, com um temperamento demasiado emocional que me leva a proferir palavras de que depois me arrependo. E hoje, mais do que nunca, atormenta-me a possibilidade de que as pessoas que mais amo adoeçam ou partam – assusta-me muito menos a perspectiva de eu própria adoecer, porque tenho a ilusão de que terei um controle diferente sobre a situação.
Menina Hipatia, desculpa-me, mas não vou fazer nomeações. Ficará ao critério de quem me ler seguir ou não o desafio.

Terça-feira, Março 17, 2009

da janela aberta

chega-me o cheiro a fumo de giesta.
De repente, evoco as Páscoas de outros tempos, os dias inteiros no forno a fazer folares, bolos económicos e calços, e esse cheiro salutar do fumo das giestas que, durante a Semana Santa, se espalhava por toda a aldeia.

Domingo, Março 15, 2009

Boa semana!

(Trás-os-Montes, Março de 2009)
Que os dias se pintem de Sol e de azul...

devaneios

Sofres quando as dores te tolhem os movimentos, quando as tarefas mais rotineiras se agigantam e ganham os contornos de gestos hercúleos. Revoltas-te com o desinteresse daqueles a quem pagas generosamente para te responderem com evasivas de incompetência, com um sistema que não te concede o direito de estares doente e que, se o fizeres, te obriga a repor as horas “perdidas”. Mas sofres mais ainda quando aqueles de quem esperavas compreensão te julgam como alguém mimado e caprichoso que reclama atenção e se escusa ao trabalho. Mais do que as palavras, magoam os silêncios, os olhares de reprovação. Contra esses não há argumentos, porque as dores físicas e as da alma só são evidentes para quem já as experimentou.

Sábado, Março 14, 2009

Purismos à parte,

não me parece bem que:
- um representante do principal partido português use insistentemente, num debate público, "tá" em vez de "está" e que se dirija aos seus interlocutores com a expressão "Olhe lá" (não conheço o verbo "tar" e sempre me disseram ser falta de educação abordar alguém com a expressão referida);
- que uma jornalista da televisão pública não saiba a diferença entre "sobre" e "sob", usando erradamente, numa peça do Jornal da Noite, a expressão "sobre a alçada".

Terça-feira, Março 10, 2009

desocupar a cabeça

Num serão dedicado às manualidades, a sobrinha pintou e decorou molas para a avó fechar embalagens, enquanto a tia fez rosquinhas e bolinhos de côco. São servidos?

Sábado, Março 07, 2009

a todas as mulheres...

Luísa sobe, sobe a calçada, sobe e não pode que vai cansada. (...) Saiu de casa de madrugada; regressa a casa é já noite fechada. Na mão grosseira, de pele queimada, leva a lancheira desengonçada. Anda Luísa, Luísa sobe, sobe que sobe, sobe a calçada. (...) Chegou a casa não disse nada. Pegou na filha, deu-lhe a mamada; bebeu da sopa numa golada; lavou a loiça, varreu a escada; deu jeito à casa desarranjada; coseu a roupa já remendada; despiu-se à pressa, desinteressada; caiu na cama de uma assentada; chegou o homem, viu-a deitada; serviu-se dela, não deu por nada. (...) Na manhã débil, sem alvorada, salta da cama, desembestada; puxa da filha, dá-lhe a mamada; veste-se à pressa, desengonçada; anda, ciranda, desaustinada; range o soalho a cada passada; salta para a rua, corre açodada, galga o passeio, desce a calçada, chega à oficina à hora marcada, puxa que puxa, larga que larga, puxa que puxa, larga que larga, puxa que puxa, larga que larga, puxa que puxa, larga que larga; (...). António Gedeão, Calçada de Carriche em especial a uma amiga que tem sido um exemplo de grande coragem...

Sexta-feira, Março 06, 2009

o livro da solidão

Os senhores todos conhecem a pergunta famosa universalmente repetida: "Que livro escolheria para levar consigo, se tivesse de partir para uma ilha deserta...?" Vêm os que acreditam em exemplos célebres e dizem naturalmente: "Uma história de Napoleão." Mas uma ilha deserta nem sempre é um exílio... Pode ser um passatempo... Os que nunca tiveram tempo para fazer leituras grandes, pensam em obras de muitos volumes. É certo que numa ilha deserta é preciso encher o tempo... E lembram-se das Vidas de Plutarco, dos Ensaios de Montaigne, ou, se são mais cientistas que filósofos, da obra completa de Pasteur. Se são uma boa mescla de vida e sonho, pensam em toda a produção de Goethe, de Dostoievski, de Ibsen. Ou na Bíblia. Ou nas Mil e uma noites. Pois eu creio que todos esses livros, embora esplêndidos, acabariam fatigando; e, se Deus me concedesse a mercê de morar numa ilha deserta (deserta, mas com relativo conforto, está claro — poltronas, chá, luz elétrica, ar condicionado) o que levava comigo era um Dicionário. (...) Não sei se muita gente haverá reparado nisso — mas o Dicionário é um dos livros mais poéticos, se não mesmo o mais poético dos livros. O Dicionário tem dentro de si o Universo completo.(...) O Dicionário é o mais democrático dos livros. Muito recomendável, portanto, na atualidade. Ali, o que governa é a disciplina das letras. Barão vem antes de conde, conde antes de duque, duque antes de rei. Sem falar que antes do rei também está o presidente.(...) Poderia louvar melhor os amigos, e melhor perdoar os inimigos, porque o mecanismo da minha linguagem estaria mais ajustado nas suas molas complicadíssimas. E sobretudo, sabendo que germes pode conter uma palavra, cultivaria o silêncio, privilégio dos deuses, e ventura suprema dos homens. Cecília Meireles, 1948 Nesta que é a "Semana do Livro e da Leitura", pergunto: Que livro levarias para uma ilha deserta?

Quarta-feira, Março 04, 2009

(Do álbum Deep)

Ao passar aqui, deu-me vontade de continuar a ouvir o senhor que é, em parte, responsável pelo meu nick...

Domingo, Março 01, 2009

o meu amor existe

O meu amor tem lábios de silêncio E mãos de bailarina E voa como o vento E abraça-me onde a solidão termina O meu amor tem trinta mil cavalos A galopar no peito E um sorriso só dele Que nasce quando a seu lado eu me deito O meu amor ensinou-me a chegar Sedento de ternura Sarou as minhas feridas E pôs-me a salvo para além da loucura. O meu amor ensinou-me a partir Nalguma noite triste Mas antes, ensinou-me A não esquecer que o meu amor existe