sexta-feira, março 06, 2009

o livro da solidão

Os senhores todos conhecem a pergunta famosa universalmente repetida: "Que livro escolheria para levar consigo, se tivesse de partir para uma ilha deserta...?" Vêm os que acreditam em exemplos célebres e dizem naturalmente: "Uma história de Napoleão." Mas uma ilha deserta nem sempre é um exílio... Pode ser um passatempo... Os que nunca tiveram tempo para fazer leituras grandes, pensam em obras de muitos volumes. É certo que numa ilha deserta é preciso encher o tempo... E lembram-se das Vidas de Plutarco, dos Ensaios de Montaigne, ou, se são mais cientistas que filósofos, da obra completa de Pasteur. Se são uma boa mescla de vida e sonho, pensam em toda a produção de Goethe, de Dostoievski, de Ibsen. Ou na Bíblia. Ou nas Mil e uma noites. Pois eu creio que todos esses livros, embora esplêndidos, acabariam fatigando; e, se Deus me concedesse a mercê de morar numa ilha deserta (deserta, mas com relativo conforto, está claro — poltronas, chá, luz elétrica, ar condicionado) o que levava comigo era um Dicionário. (...) Não sei se muita gente haverá reparado nisso — mas o Dicionário é um dos livros mais poéticos, se não mesmo o mais poético dos livros. O Dicionário tem dentro de si o Universo completo.(...) O Dicionário é o mais democrático dos livros. Muito recomendável, portanto, na atualidade. Ali, o que governa é a disciplina das letras. Barão vem antes de conde, conde antes de duque, duque antes de rei. Sem falar que antes do rei também está o presidente.(...) Poderia louvar melhor os amigos, e melhor perdoar os inimigos, porque o mecanismo da minha linguagem estaria mais ajustado nas suas molas complicadíssimas. E sobretudo, sabendo que germes pode conter uma palavra, cultivaria o silêncio, privilégio dos deuses, e ventura suprema dos homens. Cecília Meireles, 1948 Nesta que é a "Semana do Livro e da Leitura", pergunto: Que livro levarias para uma ilha deserta?

10 comentários:

Carlota disse...

Cem anos de solidão do G. Garcia Marquez.
:)

Anónimo disse...

Fernão Capelo Gaivota, pela beleza a esperança e a coragem.
Abraço
CarpeDiem

Koky disse...

Para uma ilha deserta não levaria livros, apenas as folhas brancas de um ou mais cadernos, onde havia de escrever o meu livro da solidão.

Ana disse...

Dei algumas voltas no fundo da memória e acabei por colocar tudo pela ordem que tirei. Afinal o livro estava em cima, mais leve, levava a fábula de veneza e esperava pelo Corto Maltese :)

Anónimo disse...

Levaria "o gato que ensinou a gaivota a voar", simplesmente
porque é uma belíssima história.
Bom fim de semana.
wandolas

manuel cardoso disse...

Le Petit Prince, de Saint-Exupéry. E um moleskine, mas este não conta...

Anónimo disse...

Tmbém eu levaria um dicionário.
Um dicionário ajudar-me-ia a compor o "Livro de uma Ilha Deserta"

Bom fim de semana

Carmo

Yashmeen disse...

"Do amor e outros demónios" - Gabriel García Márquez. :)

tsiwari disse...

Que crueldade. Apenas um?

Por mil e uma razões, provavelmente o "Rosinha, minha Canoa", do José Mauro Vasconcelos - a razão acima do milhar tem a ver com, quem sabe, a hipótese de aprender a falar com as árvores (na ilha haveria, já que não gente, ao menos árvores, não????).

***

ana maria disse...

Só um era muito pouco, mas escolhia a Bíblia...e tinha que arranjar forma de escrever, nem que fosse na areia!