domingo, agosto 31, 2008

laços de ternura

(Vladimir Vyatkin)

Numa breve visita à galeria de vencedores do World Press Photo, o meu coração foi mais rápido do que a minha cabeça e adoptou esta fotografia, que representa o coreógrafo russo Igor Moiseyev (1906-2007) e a esposa no dia em que ele completou 101 anos.

Talvez me tenha prendido a imensa ternura que um e outro emprestam aos gestos e ao olhar... talvez me tenha supreendido a possibilidade de haver amores "eternos"...

parabéns!

(Ben Harper e Eddie Vedder... espero que gostes!)

wandolas, votos de um dia Muito Feliz!

sábado, agosto 30, 2008

também este crepúsculo

(Montesinho, Agosto de 2008)


Também este crepúsculo nós perdemos.
Ninguém nos viu hoje à tarde de mãos dadas
enquanto a noite azul caía sobre o mundo.

Olhei a minha janela
a festa do poente nas encostas ao longe.

Às vezes como uma moeda
acendia-se um pedaço de sol nas minhas mãos.

Eu recordava-te com a alma apertada
por essa tristeza que só tu me conheces.

Onde estavas então?
Entre que gente?
Dizendo que palavras?
E porque vem até mim todo o amor de repente
quando me sinto triste, e te sinto tão longe?
Caiu o livro em que sempre escolhíamos ao crepúsculo
e como um cão ferido encostou-se a minha capa aos pés.


Sempre, sempre te afastas pela tarde
para onde o crepúsculo corre apagando estátuas.

Pablo Neruda

ter visitas em casa

significa quebrar a rotina, reorganizar espaços e horários, mais confusão, mas também mais diversão e passeios.
Quando partem, ficamos sem saber o que fazer ao tempo e ao espaço que, subitamente, se tornam gigantescos...
Bom fim-de-semana!

sexta-feira, agosto 29, 2008

muitos parabéns!

... e votos de um dia Muito Feliz, rubia e Eduardo!

quinta-feira, agosto 28, 2008

hoje...

(Novecentos, o pianista do oceano pela Peripécia Teatro)

... no Festival Internacional de Máscaras e Comediantes (Lisboa, Castelo de S. Jorge, 22h).

sugestão para férias III

(Parque e aldeia de Montesinho, onde comemos, esta noite, uma óptima posta e um delicioso pão de castanhas... mnhamm!!)

sugestão para férias II

(Chocalheiro de Bemposta,Museu Ibérico da Máscara e do Traje, Bragança)

sugestão para férias I

(Bragança: cidadela, castelo e museu militar)

quarta-feira, agosto 27, 2008

resposta a adivinha

Tens razão, tsiwari, já está na hora dar resposta à adivinha... Aí vai, então: o que estava para passar (= ser passa), mas não passou por ter passado quem passou (e a comeu) é a uva colhida por quem passa! Se alguém não a tivesse colhido e comido ao passar, teria ficado seca e, em vez de uva, seria passa.

terça-feira, agosto 26, 2008

quem não tem que fazer...

(Agosto de 2008)
... faz colheres, diz o povo...
A galinha da vizinha fica melhor na cozinha.
Boda molhada, noiva ensopada.
Burro velho não toma andadura. Se a toma, pouco madruga.
Casa onde não há pão, todos se rebolam no chão.
Dá Deus nozes conforme as posses.
De pequenino, se aprende o caminho.
Entre marido e mulher, não há como escolher.
Gordura é desmesura.
Grão a grão se vai sujando o chão.
Guardado está o bocado para quem for mais avisado.
Há males que ninguém tem.
Há mar e mar, há rir e troçar.
Ladrão que rouba ladrão acrescenta o quinhão.
Merenda comida, mesa vazia.
Mudam-se os tempos, ganham-se vontades.
O que não mata farta.
Quem tudo quer tudo tem.
Tão ladrão é o que vai à horta como o que rouba a torta.
Tão ladrão é o que vai à horta como o que tranca a porta.
Vale mais cair em graça do que ser desgraçado.

as amoras

(25 de Agosto de 2008)
O meu país sabe às amoras bravas no verão. Ninguém ignora que não é grande, nem inteligente, nem elegante o meu país, mas tem esta voz doce de quem acorda cedo para cantar nas silvas. Raramente falei do meu país, talvez nem goste dele, mas quando um amigo me traz amoras bravas os seus muros parecem-me brancos, reparo que também no meu país o céu é azul. Eugénio de Andrade, O Outro Nome da Terra
Com votos de boa semana! :)

sexta-feira, agosto 22, 2008

quando faltam as (nossas) palavras



Precious and fragile things 
Need special handling (...) 
Things get damaged 
Things get broken 

I thought we'd manage 
But words left unspoken 
Left us so brittle 
There was so little left to give 

 Angels with silver wings 
Shouldn't know suffering (...) 
If God has a master plan 
That only He understands 
I hope it's Your eyes 
He's seeing through (...)

Depeche Mode, Precious

bom fim de semana! :)

(Serras de Montesinho e Nogueira)
Há palavras que não dizemos
e que pomos sem dizê-las nas coisas.
E as coisas guardam-nas,
e um dia respondem-nos com elas
e salvam-nos o mundo,
como um amor secreto
em cujos dois extremos
há uma só entrada.
Não haverá uma palavra
dessas que não dizemos
que tenhamos colocado
sem querer no nada?
Roberto Juarroz, Poesia Vertical

armada em queixinhas... eu?

(Imagem da net)
... os espirros não param... ... a febre não baixa (onde pus eu o termómetro?)... ... o sono não chega...

quinta-feira, agosto 21, 2008

Pior do que estarmos sem carro e do que a frustração de não podermos concretizar os projectos de pequenas viagens, é pressentirmos que nos estão a enganar e não termos como provar, por não percebermos peva de mecânica. A verdade é que, se percebessemos, talvez não precisassemos de ser enganados e - muito provavelmente - roubados! Nestas questões, há algo que, não sendo pior, nem sequer tão mau como estar sem carro ou ser-se vítima da ganância de quem presta o serviço, não deixa de nos incomodar: os palpites dos sabidolas masculinos da família, que se armam em mecânicos de bancada e se investem do direito de, por outras palavras, nos porem umas orelhinhas de asno - "Isso é muito caro, estão a levar-te... e bem!", "É demasiado tempo.", "Devias ter ido a outra oficina.". Quando acusei o problema, onde estavam todos?
Por tudo isto, pelo céu cinzento que augura chuva, pelo pingo no nariz, os espirros e a temperatura que chegaram de armas e bagagens, vou mas é deixar-me levar pela voz suave da Jolie Holland e passar pelas brasas, porque "tristezas não pagam dívidas"...
Até logo!

quarta-feira, agosto 20, 2008

no trilho dos quercus

- São aproximadamente oito quilómetros. O pior são algumas subidas...– adiantou uma das minhas companheiras. Antes de iniciarmos a caminhada, consultámos o relógio: 17h03. Só voltámos a dar-lhe atenção uma hora e um minuto depois. Seguimos o “Trilho dos Quercus”. Ainda não percorreramos muito caminho quando nos cruzamos com três pescadores. A tarde tinha sido proveitosa: haviam pescado, pelo menos, um lúcio e um achigã, que exibiram em resposta à nossa curiosidade. Admirado o tamanho dos bichos, prosseguimos, durante pelo menos uns quarenta minutos, a pouca distância da água, num ritmo que nos permitiu ir alimentando os sentidos. Se as madressilvas, as rosas caninas, os pilriteiros e silvas, nos seus diferentes tons de vermelho, e o voo das libélulas foram extâse para os olhos, os mergulhos dos peixes, o chilrear dos pássaros (entre os quais maçaricos-das-rochas e pilritos) e o restolhar das lagartixas foram as melodias que embalaram o caminhar. No momento em que começámos a afastar-nos da água e nos embrenhámos, sem nunca perdermos o trilho, por uma mata de sobreiros e de carvalhos, o ar tornou-se, então, mais seco, os cheiros mais agrestes e o caminho mais inclinado e poeirento. O percurso seguinte, em descida até ao rio, seco em alguns pontos, tornou-se mais suave e, pelo aproximar da água, mais fresco. Atravessado o rio, esperava-nos nova subida. Pela proximidade de castanheiros e depois de algumas hortas, percebemos que a aldeia não poderia estar longe. Também ali as amoras eram mais e mais maduras. Apesar de não termos como as lavar, não resistimos a saborear algumas, sob o lema “o que não mata engorda”. Antes ainda da aldeia, seguimos um carreiro que rapidamente nos conduziu à praia. Pela luminosidade e pelo número escasso de pessoas, concluimos que não podia faltar muito para as 20horas. Não conseguimos saber em rigor os quilómetros que percorremos, mas aventuro-me a dizer que são mais de oito!

Aedh deseja os tecidos dos céus

(Trás-os-Montes, Agosto de 2008)

Fossem meus os tecidos bordados dos céus, 
Ornamentados com luz dourada e prateada, 
Os azuis e negros e pálidos tecidos 
Da noite, da luz e da meia-luz, 
Estendê-los-ia sob os teus pés. 
Mas eu, sendo pobre, tenho apenas os meus sonhos. 
Eu estendi os meus sonhos sob os teus pés. 
Caminha suavemente, pois caminhas sobre os meus sonhos. 


William B. Yeats

terça-feira, agosto 19, 2008

Para a Rubia e para a Isa, com um xi-coração apertado!

adivinha

O Senhor 7 é uma obra de Trindade Coelho, um autor natural de Mogadouro e cujo centenário da morte se comemorou ontem. A referida obra, que li, como Os Meus Amores, quando era miúda, constitui uma recolha de textos da sabedoria popular em que o número sete é rei e senhor.
Frequentemente, vem-me à memória a seguinte adivinha, que também tem características de lengalenga e de trava-línguas:
Estava para passar, não passou, porque passou quem passou. Se não tivesse passado quem passou, tinha passado. Passou quem passou, não passa.
O que é?

segunda-feira, agosto 18, 2008

Ai, flores, ai, flores do verde pino

No cantinho do José Marto, deparei com um poema da sua autoria que, de alguma forma, me lembrou esta cantiga de amigo, de que gosto muito.

Ai, flores, ai, flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo?
Ai, Deus, e u é? 


Ai, flores, ai, flores do verde ramo, 
se sabedes novas do meu amado? 
Ai, Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pôs comigo?
Ai, Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do que m' á jurado?
Ai, Deus, e u é?

Vós me preguntades polo vosso amigo?
E eu ben vos digo que é san' e vivo.
Ai, Deus, e u é?

Vós me preguntades polo vosso amado?
E eu ben vos digo que é viv' e sano.
Ai, Deus, e u é?

E eu ben vos digo que é san' e vivo
e seerá vosc' ante o prazo saído.
Ai, Deus, e u é?

E eu ben vos digo que é viv' e sano
e seerá vosc' ante o prazo passado.
Ai, Deus, e u é?

D. Dinis

sexta-feira, agosto 15, 2008

saudades do mar...

(S. Miguel, Julho de 2008)
15.
O que me inunda o coração e a alma
é um rastro longínquo sobre a terra.
Acredito que chegas à ausência desta praia
para despertar o mar.
A leveza da ausência é esta onda frágil
que jamais chegará.
Amadeu Baptista, Arte do Regresso

precisa-se burrico

Ficar sem carro durante quinze dias no único mês que se tem de férias é, no mínimo, exasperante... Quando se vive num lugar onde os transportes públicos nos levam, a horas escassas e impróprias, apenas para localidades também elas "impróprias" (porque não são as que nos interessam), mais complicado se torna...
Além do exaspero da imobilidade, há-de ser, daqui a uns dias, a angústia da "dolorosa"...
Alguém tem um burrico para alugar?

quinta-feira, agosto 14, 2008

de passagem...

Dai-me um dia branco, um mar de beladona Um movimento Inteiro, unido, adormecido Como um só momento.
Eu quero caminhar como quem dorme Entre países sem nome que flutuam.
Imagens tão mudas Que ao olhá-las me pareça Que fechei os olhos.
Um dia em que se possa não saber.
Sophia de M. B. Andresen, Intervalo II
Continuação de boas férias ou de bom trabalho para todos!

sábado, agosto 02, 2008

bom fim-de-semana...


... e óptima semana!
Até breve...

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

F. Pessoa - Alberto Caeiro

sexta-feira, agosto 01, 2008

vê onde pões os pés :)



(PD, Julho de 2008)