sexta-feira, fevereiro 29, 2008

este ano é que é!

Parabéns, nina!

Na impossibilidade de estar contigo, só posso desejar-te um dia MUITO FELIZ! Aproveita-o bem... mais só daqui a quatro anos!

Agora as prendas...




A Noite Rimada


Pela serra ao luar

ia um menino sozinho

sem sono pra se deitar.


Ia o menino a pensar

porque seria ele só

sem sono pra se deitar.


Ia o menino a pensar

que há tanto por pensar

e a cidade a descansar.


Ia o menino a pensar

porque seria ele só

sem sono pra se deitar.


Quem dorme sem ter pensado

deve ter sono emprestado

não é sono bem ganhado.


Ia o menino a pensar

como poder arranjar

muita força pra pensar.


Ia o menino a arranjar

muita força pra pensar

o próprio sonho ganhar

Almada Negreiros


terça-feira, fevereiro 26, 2008

porque à dúzia é mais barato

A vizinha Carlota, do Lote 5, lançou-me um desafio: indicar as doze palavras de que menos gosto. Não é tarefa fácil... Na verdade, não é tanto das palavras que eu não gosto, da sua materialidade - forma e sonoridade -, mas dos referentes que as mesmas nomeiam. Aí vão elas, então: despertador (não é preciso explicar porquê!) segunda-feira (pela razão-não-dita anterior!) furo (se for no pneu e não houver alguém simpático por perto para o mudar, estou tramada!) futebol (quando joga o Benfica e o vizinho do lado resolve ser generoso com o prédio inteiro!) "prontos" (por ser a forma errada de "pronto"!) o meu nome com o sufixo -inha (quando alguém quer pedir-me alguma coisa ou fazer de mim burro de carga, esforçando-se por me convencer que confia na minha competência!) política (palavras para quê?) demagogia (idem) areia (aquilo que têm tentado a todo custo deitar-nos para os olhos) chico-esperto ( aquele que tenta atirar-nos areia para os olhos e passar-nos a perna) presunção (um dos defeitos que mais detesto) promessa (porque não acredito... sejam políticas, religiosas ou outras) Fica o desafio para quem quiser aceitá-lo... não me atrevo a indicar nomes!

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Gosto

Gosto de te encontrar. De intuir o teu vulto antes da certeza da tua presença. Gosto de te ver sorrir. Quando me presenteias com os teus sorrisos - os mais ternos. Gosto dos teus olhos. Quando procuram os meus. Quando me querem cúmplice dos fantasmas que te atormentam. Até quando a solidão parece ter-se colado a eles. Gosto da tua voz... límpida, cristalina. Gosto de te ver dançar. Com a música o teu corpo ganha ritmo. Perde a rigidez que um temperamento tímido lhe impõe. Até desse modo desajeitado de mostrares a importância que dás aos outros não posso deixar de gostar...  



And I miss you
(Like the deserts miss the rain) (Everything But the Girl, Missing)

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

you learn

You live you learn You love you learn You cry you learn You lose you learn You bleed you learn You scream you learn (...) You grieve you learn You choke you learn You laugh you learn You choose you learn You pray you learn You ask you learn You live you learn (Alanis Morissette, "You Learn") You sleep you learn... até logo!...

a outra margem*

Olho-os, falo com eles, questiono-os, repreende-os e, nesta lida quase quotidiana, pouco ou nada me faz adivinhar as histórias, os arranhões e as cicatrizes que as suas memórias jovens guardam. Leio os seus relatos e, através do manejo quase sempre débil de palavras e sentidos, soltam-se vivências, a maior parte dolorosas, excessivamente pesadas para quem na vida percorreu ainda um curto caminho. Página após página, torno-me cúmplice das dores da perda, do abandono, da impotência face ao sofrimento dos outros ou perante a inevitabilidade da morte. Talvez a escrita tenha cumprido a sua função catártica... À medida, que as histórias se sucedem, sinto-me cada vez mais insignificante no meu egoísmo. Vejo-me forçada a reconhecer o absurdo dos meus surtos de auto-comiseração. E espanto-me como o sonho e a inocência conseguem germinar e crescer em terrenos áridos. *Título de um poema de Maria Rosa Colaço

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Há dias

em que ocorre citar Régio: "Vem por aqui" - dizem-me alguns com olhos doces, Estendendo-me os braços, e seguros De que seria bom se eu os ouvisse Quando me dizem: "vem por aqui"! Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos meus olhos, ironias e cansaços) E cruzo os braços, E nunca vou por ali...
(Excerto de Cântico Negro)
ou Pessoa- Álvaro de Campos: NÃO: Não quero nada. Já disse que não quero nada.

(...)

Se têm a verdade, guardem-na! (...)

Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa? Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade. Assim, como sou, tenham paciência!

(Excerto de Lisbon Revisited)

Para ver

Não vi, porque ainda não estreou... Não verei tão cedo, porque não chega às salas de cinema mais próximas... Há pouco, o "Câmara Clara" divulgou-o e pareceu-me interessante. Fica a sugestão...
Sobre a autora aqui.

sábado, fevereiro 16, 2008

quero notícias do frio

Não gosto muito destes dias que não são carne nem peixe, dias em que a Primavera intrometida se substitui ao Inverno, trazendo consigo um sol tímido e morno que não tem coragem de enxotar nuvens. Tenho saudades dos verdadeiros dias de Inverno transmontano que fazem apetecer a lareira e tirar das gavetas luvas e cachecóis. Sonho com aqueles dias de céu branco que é promessa de neve. Urgem em mim esses estados de silêncio que só a neve convoca, essa sensação de que toda a terra se entrega a um sono doce e apaziguador.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Porque

ando numa onda de "velhinhos", hoje deu-me para ouvir isto
uma música que tem versões para todos os gostos - Marvin Gaye, Jonh Lennon, U2, Green Day... When the night has come And the land is dark And the moon is the only light we'll see No I won't be afraid, no I won't be afraid...

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Da leitura


de Uma Casa no Fim do Mundo ( Michael Cunningham):

- a amarga certeza de que não são os lugares que nos mudam; quando optamos por nova morada, transportamos aquilo que nos causa maior desconforto - nós próprios, com medos, fantasmas e ressentimentos, apesar das memórias que nos dão conforto;

- a sensação de que, muitas vezes, não vivemos - sobrevivemos, tentamos manter a cabeça à tona da água;

- a confirmação de que não há amor, por muito forte que seja, que nos salve de um estado de solidão intrínseco;

- a promessa de que há amizades que conseguem sobreviver à turbulência dos dias;

- ...

Uma Casa no Fim do Mundo não é um livro fácil - emocionalmente, entenda-se. Talvez porque nos obrigue a vermo-nos ao espelho e a confrontarmo-nos com os nossos próprios sentimentos - contraditórios, a maior parte das vezes.

Das Horas, retoma temáticas - a homossexualidade, a doença, a insatisfação, as amizades dolorosas e dúbias -, o espaço - Nova Iorque -, personagens - a que o autor dá outros nomes.

Inúmeras referências musicais - e algumas cinematográficas - fazem-nos desejar voltar ao velhinhos, entre os quais Janis Joplin e Bob Dylan, ou conhecer outros, como Laura Nyro, de que nunca ouvira falar.

Alguns excertos aqui.

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

mi niña lola

Para todos, mas em especial para a Yashmeen... Para juntares à "trupe"... (Espero que gostes.)

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Os jogadores de xadrez

(Albino Moura, O Jogo)

É longo, mas muito bonito...


Se não conhecerem... leiam-no.
Se tiverem paciência... leiam-no.

«Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia
Tinha não sei qual guerra,
Quando a invasão ardia na cidade
E as mulheres gritavam,
Dois jogadores de xadrez jogavam
O seu jogo contínuo.

À sombra de ampla árvore fitavam
O tabuleiro antigo,
E, ao lado de cada um, esperando os seus
Momentos mais folgados,
Quando havia movido a pedra, e agora
Esperava o adversário,
Um púcaro com vinho refrescava
A sua sóbria sede.

Ardiam as casas, saqueadas eram
As arcas e as paredes
Violadas, as mulheres eram postas
Contra os muros caídos,
Trespassadas de lanças, as crianças
Eram sangues nas ruas...
Mas onde estavam, perto da cidade,
E longe do seu ruído,
Os jogadores de xadrez jogavam
O jogo do xadrez.

Inda que nas mensagens do ermo vento
Lhes viessem os gritos,
E, ao reflectir, soubessem com acerto
Que por certo as mulheres
E as tenras filhas violadas eram
Nessa distância próxima,
Inda que no momento que o pensavam,
Uma sombra ligeira
Lhes passasse na fronte alheada e vaga,
Breve os seus olhos calmos
volviam sua atenta confiança
Ao tabuleiro velho.

Quando o rei de marfim está em perigo,
Que importa a carne e o osso
Das irmãs e das mães e das crianças?
Quando a torre não cobre
A retirada da rainha branca,
O saque pouco importa.
E quando a mão confiiada leva o xeque
Ao rei do adversário,
Pouco pesa na alma que lá longe
Estejam morrendo filhos.

Mesmo que, de repente, sobre o muro
Surja a sanhuda face
Dum guerreiro invasor, e breve deva
Em sangue ali cair
O jogador solene de xadrez,
O momento antes desse
(É ainda dado ao cálculo dum lance
Pra a efeito horas depois)
É ainda entregue ao jogo predilecto
Dos grandes indif'rentes.

Caiam cidades, sofram povos, cesse
A liberdade e a vida,
Os haveres tranquilos e avitos
Ardem e que se arranquem,
Mas quando a guerra os jogos interrompa,
Esteja o rei sem xeque,
E o de marfim peão mais avançado
Pronto a comprar a torre.

Meus irmãos em amarmos Epicuro
E o entendermos mais
De acordo com nós-próprios que com ele,
Aprendamos na história
Dos calmos jogadores de xadrez
Como passar a vida.

Tudo o que é sério pouco nos importe,
O grave pouco pese,
O natural impulso dos instintos
Que ceda ao inútil gozo
(Sob a sombra tranquila do arvoredo)
De jogar um bom jogo.

O que levamos desta vida inútil
Tanto vale se é
A glória, a fama, o amor, a ciência, a vida,
Como se fosse apenas
A memória de um jogo bem jogado
E uma partida ganha
A um jogador melhor.

A glória pesa como um fardo rico,
A fama como a febre,
O amor cansa, porque é a sério e busca,
A ciência nunca encontra,
E a vida passa e dói porque o conhece...

O jogo do xadrez
Prende a alma toda, mas, perdido, pouco
Pesa, pois não é nada.

Ah! sob as sombras que sem qu'rer nos amam,
Com um púcaro de vinho
Ao lado, e atentos só à inútil faina
Do jogo do xadrez,
Mesmo que o jogo seja apenas sonho
E não haja parceiro,
Imitemos os persas desta história,
E, enquanto lá fora,
Ou perto ou longe, a guerra, a pátria e a vida
Chamam por nós, deixemos
Que em vão nos chamem, cada um de nós
Sob as sombras amigas
Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez
A sua indiferença.»

Ricardo Reis

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

let it rain

Aproximo-me da janela e lanço à rua muda e deserta um olhar derradeiro. Vento e chuva preparam os instrumentos para mais uma sinfonia nocturna. Adivinham-no árvores sonâmbulas em danças involuntárias, de mãos dadas com a noite.
Do dia que termina chegam-me ecos de cansaço, ténues lembranças de horas improdutivas, feitas de gestos lentos, de sentimentos baços e de apelos de sofá. Nítidos somente os dorsos dos montes a lembrar animais adormecidos; somente o suave deslizar do carro pela estrada da serra, ao lusco-fusco, sob ritmos de outros tempos... somente a vontade de continuar agarrada ao volante e de seguir viagem, sem destino, sem hora para voltar...
A letra aqui

sexta-feira, fevereiro 01, 2008