terça-feira, setembro 26, 2006

"Quero (...) um regaço para chorar, mas um regaço enorme, sem forma, espaçoso como uma noite de verão (...). Um colo ou um berço ou um braço quente em torno ao meu pescoço... Uma voz que canta baixo e parece querer fazer-me chorar... O ruído de lume na lareira... E depois sem som, um sonho calmo num espaço enorme, como a lua rodando entre estrelas..."
Bernardo Soares (F. Pessoa), O Livro do Desassossego

segunda-feira, setembro 25, 2006

leituras III

"Quero falar de felicidade e bem-estar, desses raros e inesperados momentos em que a voz na nossa cabeça fica silenciosa e nós nos sentimos em comunhão com o mundo.
Quero falar do tempo dos princípios de Junho, de harmonia e do abençoado repouso (...).
Quero lembrar os cerúleos crepúsculos, as róseas e langorosas alvoradas (...).
Quero lembrar aquilo tudo. Se querer tudo é demasiado, então que seja apenas uma parte. Não, não - mais do que uma parte. Que seja quase tudo."
" (...) por volta de 35 000 anos antes da nossa era, os Cro-Magnon inventavam a magnífica arte das grutas. A preparação da rocha, o cinzelado da gravura, a precisão dos traçados, a escolha e a preparação das cores, a perspectiva, o domínio do esfuminho para dar relevo, o gosto pelo trabalho perfeito (...) ... Tudo isso denota uma habilidade, uma preocupação estética e uma sensibilidade surpreendente. Em suma, um cérebro dotado de imaginação e de emoções. A revolução da arte nesta época talvez coincida com o aparecimento do amor."

"Nascemos para ser escolhidos, vivemos para escolher. Podia-se dizer de Madzero que era tonto mas, ao menos, ele escolhera viver nesse lugar de que se esqueceram os caminhos. Há anos que ele quase não cruzava com alma vivente. A única pessoa de seu convívio era Mwadia, essa que tinha corpo de rio e nome de canoa.

E era para reencontrar a sua esposa que o pastor agora apressava o passo. (...) O burriqueiro anteviu os grandes olhos da mulher e a savana se encheu de luminações como um pestanejar dos céus.

- Vou no caminho de ser Deus.

Arrependeu-se da ousadia do pensamento."

segunda-feira, setembro 18, 2006

enquanto não há tempo para as palavras

(Imagens recebidas por mail)

quarta-feira, setembro 13, 2006

O tempo não tem sido, na verdade, muito, mas a inspiração tem-se revelado bem menor que o desejado. Deixo-vos, por isso, com Pessoa, a cuja obra tenho dedicado recentemente algumas horas , em leituras e releituras.
Nunca deixo saber aos meus sentimentos o que lhes vou fazer sentir... Brinco com as minhas sensações como uma princesa cheia de tédio com seus grandes gatos prontos e cruéis...
Nunca se deve devassar os sentimentos que os outros fingem que têm. São sempre demasiadamente íntimos. (...) No fundo, o que somos de mais doloroso é o que não somos realmente, e as nossas maiores tragédias passam-se na nossa ideia de nós.
Proponho-me ensinar-lhe como trair o seu marido com imaginação.
Acreditem-me: só as criaturas ordinárias traem o marido realmente. O pudor é uma condição sine qua non de prazer sexual. O entregar-se a mais de um homem mata o pudor. (...)
Retenham todo o gesto de sensualidade excessiva. Beijem o marido que lhes estiver em cima do corpo, e mudem com imaginação o homem num olhar - lembrem quem lhes estiver em cima da alma.
F. Pessoa - Bernardo Soares, O Livro do Desassossego
Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
olha que não há mais metafísica no Mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade
com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha
de estanho,
deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.
(F. Pessoa- Álvaro de Campos, excerto de Tabacaria)

quarta-feira, setembro 06, 2006

uma questão de etiqueta

Estou de regresso à blogosfera. As férias terminaram há uns dias. Antes de mais, obrigada a todos pelos comentários e pelos desejos de boas férias.
Recomeço, respondendo a um desafio da Mojo Pin, do Código de Barras, que me"etiquetou". Ser etiquetado supõe que forneçamos seis informações sobre nós e impliquemos seis pessoas na mesma tarefa- esta parte deixo ao critério de quem quiser aderir. Pelo meio, para quebrar a aridez do texto, colocarei algumas fotos de férias, tiradas pela minha irmã, que é melhor fotógrafa que eu.
Ora, vamos lá, então...
1 - Como facilmente se percebe, todas as noites troco as voltas ao sono (que, invariavelmente, de manhã se vinga!!);
2 - Refilo por tudo e por nada, sobretudo a conduzir (esqueço-me que os outros terão muitas vezes mais motivos para refilar comigo);

3 - Não sobrevivo sem calças pretas e de ganga (um par de cada não chega - deve haver quem pense que ando sempre com as mesmas);

4 - Adoro pão fresco com manteiga e compota de abóbora (uma sobre a outra);

5 - Facilmente empresto livros ou cds - que ofereço antes que mos peçam: confesso que já tive uns dissabores;
6 - Passo o tempo a procurar a chave do carro (nunca perdi nenhuma).