O tempo não tem sido, na verdade, muito, mas a inspiração tem-se revelado bem menor que o desejado. Deixo-vos, por isso, com Pessoa, a cuja obra tenho dedicado recentemente algumas horas , em leituras e releituras.
Nunca deixo saber aos meus sentimentos o que lhes vou fazer sentir... Brinco com as minhas sensações como uma princesa cheia de tédio com seus grandes gatos prontos e cruéis...
Nunca se deve devassar os sentimentos que os outros fingem que têm. São sempre demasiadamente íntimos. (...) No fundo, o que somos de mais doloroso é o que não somos realmente, e as nossas maiores tragédias passam-se na nossa ideia de nós.
Proponho-me ensinar-lhe como trair o seu marido com imaginação.
Acreditem-me: só as criaturas ordinárias traem o marido realmente. O pudor é uma condição sine qua non de prazer sexual. O entregar-se a mais de um homem mata o pudor. (...)
Retenham todo o gesto de sensualidade excessiva. Beijem o marido que lhes estiver em cima do corpo, e mudem com imaginação o homem num olhar - lembrem quem lhes estiver em cima da alma.
F. Pessoa - Bernardo Soares, O Livro do Desassossego
Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
olha que não há mais metafísica no Mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade
com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha
de estanho,
deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.
(F. Pessoa- Álvaro de Campos, excerto de Tabacaria)