sábado, março 25, 2017

Era bom, era

Dizem-lhe que está igual. Dizem-lhe que os anos não passam por ela. O espelho costuma dizer-lhe o contrário. Os vincos multiplicam-se no seu rosto. A um ritmo pouco acelerado, é certo. Os cabelos brancos começam a surgir, espetados, por entre a cabeleira castanha. As roupas, um pouco mais largas, afiançam-lhe que as pessoas mentem. Porque são simpáticas - ou querem parecê-lo. Porque não encontram outras palavras para gastar os minutos ou segundos que distam do encontro à despedida. Ou talvez as pessoas, essas que lhe dizem, com um sorriso, aparentemente franco, que está igual, tenham uma visão distorcida pelo tempo que passou e, por isso, já não se lembrem de como ela era há anos.
É certo, porém, que há dias, como hoje, em que se sente mais jovem, em que esquece a idade e os estragos que esta e a falta de cuidado foram operando em si. Talvez seja dos ténis que há dias se ofereceu e que usa até no local de trabalho, ou do anoraque com capuz debruado a pelo, igual ao de algumas adolescentes que conhece. Ou talvez seja só uma vontade grande de não envelhecer que os outros, os que lhe dirigem comentários elogiosos, vêem nela.

7 comentários:

Isabel Pires disse...

Pois, igual ninguém está. O que há é pessoas em que os sinais de envelhecimento se revelam de forma mais lenta.
Relacionado com este assunto, não me agrada ouvir que a juventude ou a idade é o que está dentro de nós, que os cinquenta são os novos trinta ou quarenta. A idade tem muito a ver com as nossas condições físicas, já que a energia da carcaça tem muita influência.
Envelhecemos todos, vamos perdendo faculdades a vários níveis e é bom que encaremos a situação sem dramatismo.
Beijo, deep!

Lídia Borges disse...

Estar aqui é bom! A imagem? A partir de certa altura é mais difícil fazer coincidir a interior com a exterior. Só isso!

:)

Um beijo

deep disse...

É verdade,Isabel, ninguém está igual. O tempo, esse devorador, não poupa ninguém. Como escreveu Sophia, «Jamais se detém Kronos cujo passo/Vai sempre mais à frente/ Do que o teu próprio passo».
Sim, as condições físicas são determinantes.

Beijo

Lídia, todas as idades têm as suas vantagens. :)

Beijo

luisa disse...

Cada dia que passa é um treino para aceitar as marcas do tempo. :)

deep disse...

É mesmo, luisa. :)

Isabel disse...

Não me tenho importado de envelhecer. Sou uma pessoa com maior auto-estima, do que era há vinte e até há dez anos. Já não me importo absolutamente nada com o que os outros pensam de mim. Mas não há dúvida que por outro lado tenho muitíssimo menos energia. Paciência! Espero, acima de tudo é continuar a manter a lucidez.

Vivamos o dia!!

Beijinhos:)

deep disse...

Na verdade, Isabel, também não me tenho importado com os estragos que o tempo tem operado em mim e esta manhã, numa situação em que tive de me encontrar com a sociedade do burgo, num evento ao qual não pude escapar, dei-me também conta, mais uma vez, que aquilo que os outros pensam de mim ou a forma como me observam me passa ao lado.

Carpe diem!

Beijinhos