quinta-feira, dezembro 15, 2016

Memórias de Natais passados


(Um dos "bonecos" da minha irmã)

No meu tempo (já pareço uma velhota a falar!), o Natal era ainda uma festa exclusivamente religiosa. Não se ouvia falar de Pai Natal, nem de renas. Os presentes, por aqui muito modestos, eram colocados pelos pais, na madrugada do dia 25, junto aos sapatos, que deixávamos estrategicamente aos pés da cama, crentes de que o Menino Jesus viria enquanto estivéssemos a dormir.
Nos natais que recordo, as manhãs eram geladas - nas casas, a única fonte de calor era a lareira - e não fosse a ansiedade de desembrulhar os presentes, o frio era mais do que pretexto para preguiçarmos mais um pouco na cama, até que os apelos da mãe se transformassem em ameaça. Na noite de consoada,comia-se - e ainda se come - polvo e bacalhau cozidos, acompanhados de couve, rábanos e batatas e das iguarias doces que são comuns a quase todo o país.
Nesse tempo da infância, Natal sem Missa do Galo não era Natal. Havia no ritual de sair a desoras de casa e de regressar às escuras - nas aldeias, a iluminação pública estava ligada apenas até à meia-noite ou uma hora - uma cumplicidade ímpar. Na igreja, entoavam-se cânticos próprios da época, beijava-se o Menino, a quem se oferecia, simbolicamente, laranjas (que algumas crianças mais pobres recebiam também no sapatinho como presente). O presépio, como hoje ainda acontece, era feito com musgo e um zimbro no lugar do tradicional pinheiro.
Quando se saía da igreja era quase uma obrigação parar algum tempo ao pé da imponente fogueira, alimentada por gigantescos troncos (de castanheiro, a maior parte), que os rapazes, com grande orgulho, acarretavam em carros de bois.
Mas o melhor do Natal era, então, o reencontro com a família, o hábito - que ainda mantemos - de andarmos, em bando, de casa em casa, a desejar Boas Festas e a provar o fumeiro.
Confesso que me desgosta um pouco o consumismo que actualmente se associa ao Natal, e a que eu própria não consigo fugir. Não me choca que pessoas que afirmam convictamente a sua anti-religiosidade - eu própria, a esta altura, talvez seja cátólica mais por tradição do que por Fé - celebrem o Natal, porque este já assumiu o estatuto de festa universal, que excede as barreiras da crença. Usarmos o Natal como pretexto para estarmos juntos é razão mais do que válida para o celebrarmos, ainda que pareça haver alguma incoerência nessa celebração.

3 comentários:

Lídia Borges disse...


Assim é! O Natal, lugar de encontro da Família. E já é tanto nos dias de hoje.

Um beijo

Feliz Natal!

Lídia

conta corrente disse...

Gosto mais desse Natal... que o excesso de luz actual.

deep disse...

Cada vez menos, Lídia. :)

Um beijo e um Natal Feliz!

Eu também, conta corrente. :)
Feliz Natal!