sexta-feira, junho 03, 2016

Os enamoramentos

«[...] muitas de nós, mulheres, tendemos a ser optimistas e no fundo presunçosas, mais profundamente que os homens, que, no terreno amoroso, só o são passageiramente, esquecem-se de continuar a sê-lo: pensamos que hão-de mudar de atitude ou de convicções, que descobrirão paulatinamente que não podem passar sem nós, que seremos a excepção nas suas vidas ou as visitas que acabam por ficar, que por fim de hão-de fartar dessas outras invisíveis mulheres que começamos a duvidar que existam e preferimos pensar que não existem, à medida que vamos reincidindo com eles mais os vamos amando com grande pesar nosso; que seremos as eleitas se tivermos paciência de permanecer ao seu lado quase sem queixas nem insistências. Quando não provocamos imediatas paixões, acreditamos que a lealdade e a presença acabarão por ser premiadas e por ter mais durabilidade e mais força que qualquer arrebatamento ou capricho. Nesse caso sabemos que dificilmente nos sentiremos lisonjeadas [...].»

«Não podemos pretender ser os primeiros, ou os preferidos, somos apenas o que está disponível,os restos, as sobras, os sobreviventes,o que vai ficando, os saldos, e é com esse pouco nobre que se edificam os maiores amores e se fundam as melhores famílias, é essa a proveniência de nós todos, produto que somos da casualidade e do conformismo, dos descartes e das timidezes e dos fracassos alheios, e ainda assim daríamos às vezes fosse o que fosse para continuarmos junto de quem descartámos um dia de um sótão ou de um leilão [...].» 

Javier Marías, Os Enamoramentos

Uma análise lúcida e curiosa das relações humanas.

2 comentários:

Isabel Pires disse...

deep, lembro-me tão bem de ler esse livro... Boa partilha!
Das pessoas com história, dos sobreviventes, das sobras... pode surgir o melhor do amor.
Beijo e bom fim-de-semana!

deep disse...

É certo,Isabel. Todos, na verdade, somos sobreviventes,porque todos temos histórias passadas.

Beijo e bom fim-de-semana. :)