Há uns anos (três, se a memória não me atraiçoa), recebi, por razões que não importa trazer para este espaço, um telefonema de uma mulher. De uma forma que, na altura, me pareceu extraordinariamente natural, disse-me que estava doente e que lhe restaria pouco tempo de vida. Preocupavam-na, sobretudo, o futuro e o sofrimento do filho adolescente, a quem procurava, inteiramente sozinha, dar o melhor. Ainda que tenha tentado, não me contive e as palavras de alento que procurei transmitir-lhe proferi-as a chorar, envergonhada, como se toda a desgraça fosse minha.
Ontem, quando, na net, li a notícia da morte de António Feio, não pude deixar de pensar nessa mulher, que partiu, como ele, em Julho, vítima da mesma doença. Ela tinha apenas 33 anos, ele apenas 55 - ambos muito novos.
Há pessoas que julgávamos ter ficado presas no nosso passado e que, um dia, por obra do acaso ou de algum esforço de uma das partes, acabam por "regressar". Não já da mesma forma, mas não necessariamente pior. Nem que quiséssemos, nada poderia ser como outrora. Volvidos cinco, dez ou vinte anos, muita coisa mudou, mudaram as circunstâncias, mudámos sobretudo nós. Contudo, há algo de essencial que permanece ou que se apurou e que nos prende ainda a essas pessoas e nos leva a senti-las "próximas". "Apagá-las" seria esquecer dias, meses e anos da nossa vida, seria esquecer aprendizagens que só poderiam ter vindo da convivência com elas.
Algumas "consultas" a este blogue têm-me levado a pensar que talvez não seja mal pensado, para incrementar o número de visitas, optar por mudar de rumo, tratando temas como a sexualidade (ou será erotismo?) ou a meteorologia.
Frequentemente, alguém vem até cá saber como vai o tempo. Hoje alguma mocinha em pânico, em vez de ir à farmácia ou ao médico, procurou informação sobre o significado de um dia de atraso. Ontem, não sei se homem se mulher, procurava fotos de homens nus.
Hoje recebi, de uma amiga do peito, em mensagem de e-mail personalizada (não daquelas que se enviam ao mesmo tempo para a lista de contactos), o poema que se segue e que terá servido de inspiração a Mandela enquanto esteve preso.
Do fundo desta noite que persiste
A me envolver em breu - eterno e espesso,
A qualquer deus - se algum acaso existe,
Por mi’alma insubjugável agradeço.
Nas garras do destino e seus estragos,
Sob os golpes que o acaso atira e acerta,
Nunca me lamentei - e ainda trago
Minha cabeça - embora em sangue - erecta.
Além deste oceano de lamúria,
Somente o Horror das trevas se divisa;
Porém o tempo, a consumir-se em fúria,
Não me amedronta, nem me martiriza.
Por ser estreita a senda - eu não declino,
Nem por pesada a mão que o mundo espalma;
Eu sou dono e senhor de meu destino;
Eu sou o comandante de minha alma.
Ah! Querem uma luz melhor que a do Sol! Querem prados mais verdes do que estes! Querem flores mais belas do que estas que vejo! A mim este Sol, estes prados, estas flores contentam-me. Mas, se acaso me descontentam, O que quero é um sol mais sol que o Sol, O que quero é prados mais prados que estes prados, O que quero é flores mais estas flores que estas flores - Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira!
...e não pode." é a frase que, mais por brincadeira do que por superstição, se pronuncia quando caem objectos das mãos repetidamente num curto período de tempo.
A avaliar pela quantidade de coisas que hoje, aliás ontem, me escorregou das mãos, alguém deve estar numa aflição para falar comigo. Ou talvez tal se deva somente ao facto de eu ter "mãos-de-cebola"...
Sê ave graciosa e insatisfeita em inquieto voo. Sê orvalho e sê brisa... Sê a respiração da terra... Nunca a sombra de corpos alheios, nunca o vulto ancorado em noites sem dono, nunca barco naufragado em investidas de mágoa. Sê sobre tudo, sobretudo vive.