domingo, junho 29, 2008

coragem e cobardia

"- Por que não o mataste antes?
- Não pude, Reino. Eu não sirvo para isto.
- Ninguém serve para isto, até se fazer a primeira vez.
Olharam para o fundo. O rapaz havia enterrado a cabeça entre os joelhos encapsulando-se no seu próprio medo. Reino falou-lhe com voz baixa e intensa.
- Devias tê-lo matado no primeiro momento. Sem lhe olhar para a cara, sem saber o seu nome, sem ter chorado junto dele como um maricas.
Esteban esfregou os olhos cor de cobalto querendo apagar as imagens que o angustiavam.
- Talvez - disse com voz entrecortada. - Não sou um homem como tu ou os outros. Talvez seja um maricas como dizes.
- Mas és meu irmão e farei de ti um homem, Tebi. Nem que tenha de moer-te à paulada. Não podes continuar a viver nesta ilha como um cobarde. Todos te evitariam, cuspir-te-iam aos pés quando passasses pela rua.
- Quero ir-me embora, irmão. Para longe daqui. Para onde não haja guerra nem pobreza.
- Recordarão o nosso apelido como o de um traidor. Tu e eu não somos uns papa-hóstias quaisquer, Tebi. Corre-nos nas veias a fúria do velho Coppeta. Amamos mais a liberdade do que as nossas próprias vidas.
- Não me fará mais livre matar este miúdo."
"(...) ou antes o seu trauma fílmico havia sido mais que um esperto e cobarde estratagema para fugir do conflito real, como tantos líderes com fogosa retórica especialistas em mandar outros à morte para depois lerem os obituários das suas hostes num plácido exílio?"
Antonio Skármeta, A Boda do Poeta

1 comentário:

Anónimo disse...

belíssimo, outra América a falar, o mesmo autor do guião de um filme que vi três vezes , e de um livro lido , com este agora na mira , não me esquecendo é claro d` »a rapriga do trombone»
cordialmente
José Ribeiro Marto ( JRM )